“É um trabalho muito puxado”: significados e práticas associados ao trabalho do vendedor ambulante e suas implicações para a saúde – um olhar etnográfico.

Diversas transformações têm ocorrido no cenário econômico internacional, repercutindo de maneira significativa sobre o mercado de trabalho, acarretando, dentre outros aspectos, um avanço das ocupações precárias e informais. No Brasil, os reflexos dessas transformações repercutem sobre o mercado de t...

Nível de Acesso:openAccess
Publication Date:2007
Main Author: Costa, Alane Mendara da Silva
Orientador/a: Iriart, Jorge Alberto Bernstein
Format: Dissertação
Language:por
Published: Instituto de Saúde Coletiva
Programa: Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva
Assuntos em Português:
Áreas de Conhecimento:
Online Access:http://repositorio.ufba.br/ri/handle/ri/16323
Resumo Português:Diversas transformações têm ocorrido no cenário econômico internacional, repercutindo de maneira significativa sobre o mercado de trabalho, acarretando, dentre outros aspectos, um avanço das ocupações precárias e informais. No Brasil, os reflexos dessas transformações repercutem sobre o mercado de trabalho através do aumento do desemprego, e da queda da qualidade dos empregos, evidente no crescimento da participação dos trabalhadores no setor informal da economia. Em Salvador, o número de empregados sem carteira assinada tem crescido, caracterizando a precarização do emprego nessa área urbana. Geralmente, os trabalhadores informais executam serviços mais arriscados e perigosos, apresentando maiores incidências de acidentes de trabalho e outros problemas de saúde. Diante desse contexto, a presente dissertação tem como objetivo compreender a construção dos significados e práticas culturais associados ao trabalho do vendedor ambulante - tradicionalmente inserido no setor informal da economia - além de suas ressonâncias no modo como esses trabalhadores interpretam e lidam com os possíveis riscos de acidentes e adoecimento. Trata-se de um estudo que apresenta uma abordagem socioantropológica e metodologia qualitativa. Participaram nove trabalhadores com quem foram realizadas entrevistas em profundidade, guiadas por roteiros semiestruturados, além de observação participante no centro da cidade e na praia, com registros em diário de campo. A perspectiva adotada está norteada pela antropologia interpretativa de Geertz, empreendendo-se um esforço para evidenciar o sistema simbólico que perpassa esse grupo social. Os resultados demonstram que o trabalho como vendedor ambulante é descrito como desgastante e extremamente discriminado, podendo se converter em fonte de sofrimento devido à desvalorização e descrédito social que o acompanha, configurando-se numa atividade que não resulta de uma escolha, mas de fatores como desemprego, baixa escolaridade e qualificação profissional. O processo de trabalho varia de acordo com o tipo de mercadoria comercializada. Há o reconhecimento de que esse trabalho pode trazer consequências para a saúde tanto em relação às doenças, destacando-se o câncer de pele e as micoses, quanto aos acidentes de trabalho, principalmente, os cortes, as quedas e as queimaduras. Pode-se identificar a presença de riscos tradicionais, vinculados às específicas formas de adoecimento e tipos de acidentes vivenciados; riscos invisíveis, expressos, fundamentalmente, na desvalorização social; e os riscos relacionados às violências, sejam elas físicas, psicológicas ou morais. Esse estudo contribui, portanto, para um maior conhecimento sobre o trabalho do vendedor ambulante, destacando os problemas que atingem esse grupo ocupacional, fornecendo elementos para a formulação de políticas públicas adequadas.