A chegada das águas: conflitos soioambientais e mudanças no mundo do trabalho rural provocadas pela formação de lagos artificias.

No Brasil, o estudo dos impactos da construção de grandes barragens é algo recente entre economistas e cientistas sociais. O crescimento dessas obras tem acompanhado o processo de mundialização do capital no crescimento do que chamamos de sociedades eletrointensivas. Delas surgem lagos que inundam v...

Nível de Acesso:openAccess
Publication Date:2012
Main Author: EVANGELISTA, Genyson Marques. lattes
Orientador/a: MALAGODI, Edgard Afonso. lattes
Banca: SILVA, Aldenor Gomes da., GOMES, Ramonildes Alves., MOREIRA, Ivan Targino., NEVES, Frederico de Castro.
Format: Tese
Language:por
Published: Universidade Federal de Campina Grande
Programa: PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS
Department: Centro de Humanidades - CH
Assuntos em Português:
Áreas de Conhecimento:
Online Access:http://dspace.sti.ufcg.edu.br:8080/jspui/handle/riufcg/2041
Citação:EVANGELISTA, Genyson Marques. A chegada das águas: conflitos soioambientais e mudanças no mundo do trabalho rural provocadas pela formação de lagos artificias. 2012. 314f. (Tese de Doutorado em Ciências Sociais) - Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais, Centro de Humanidades, Universidade Federal de Campina Grande - Paraíba - Brasil, 2012.
Resumo Português:No Brasil, o estudo dos impactos da construção de grandes barragens é algo recente entre economistas e cientistas sociais. O crescimento dessas obras tem acompanhado o processo de mundialização do capital no crescimento do que chamamos de sociedades eletrointensivas. Delas surgem lagos que inundam vastas áreas de terras antes utilizadas com agricultura e que abrigavam comunidades rurais formadas em grande parte por camponeses. Tal processo, resultado de políticas de desenvolvimento comandadas pelo Estado impacta fortemente a organização da unidade de produção agrícola familiar, seja pela perda de suas terras para as águas das barragens, seja pela expropriação de seus recursos produtivos. Surgem aí movimentos de resistência das populações diretamente atingidas como reação à intervenção estatal que, quase sempre, ocorre de forma autoritária. O deslocamento compulsório dessas comunidades para outros espaços construídos, com características semi ou tipicamente urbanas acaba, na maioria das vezes, por transformar os seus habitantes em consumidores segundo os requerimentos das sociedades eletrointensivas. No entanto, esse processo não é linear e nem garante essa nova condição social a todos os atingidos, pois parte deles acaba desenvolvendo estratégias de resistência para manter a sua condição camponesa, enquanto outros sucumbem ao teste de seleção dos novos consumidores. A principal condição imposta pelo circuito de mercado para que as populações atingidas sejam alçadas à condição de novos consumidores é a transformação de sua força de trabalho antes imersa na lógica da reprodução da agricultura camponesa em mercadoria, no sentido mais profundo que Marx dá ao termo. As transformações pelas quais as famílias camponesas têm que passar no processo de relocação compulsória de suas terras resultam em uma nova estrutura de gastos e de consumo, na falta de ocupações, na transformação do camponês em morador urbano (onde o mesmo tem que comprar o que antes produzia), nas dificuldades do seu processo de adaptação ao mercado de trabalho e, consequentemente, no fim da autonomia camponesa. As tentativas de reconstrução da antiga organização social e econômica que “desapareceu” com a inundação das terras de centenas de famílias pela barragem de Acauã constituem o aspecto mais dramático de quem teve de enfrentar tal situação, pois para elas, é extremamente difícil reconhecer e aceitar a perda completa de suas terras e da reprodução de suas condições de vida comunitária, pois isso afeta a sua capacidade de produzir seu próprio alimento. Assim, iniciou-se um movimento de luta pela sua recampesinação. Mas essas tentativas esbarram nos conflitos que envolvem os interesses dos agricultores familiares com os dos grandes proprietários em torno das terras que escaparam à inundação, no não cumprimento das promessas do poder público de reassentar todas as famílias desalojadas e até mesmo nos conflitos e nos equívocos que se instalam dentro do próprio movimento dos atingidos, coisa que raramente as investigações acadêmicas enxergam. Essa problemática tem levado a intensas discussões sobre uma das mais antigas teses acerca da agricultura camponesa, o seu desaparecimento com o avanço da moderna agricultura capitalista. Estaria o crescente processo de construção de grandes barragens contribuindo para a descampesinação? Essa pesquisa mostra que, são escassas as possibilidades de sobrevivência dos camponeses, mas devemos compreender que a capacidade de resistência e organização política dos camponeses é uma realidade concreta e objetiva e que não há provas ou tendências claras de que a construção dessas grandes obras concorra para o seu desaparecimento.
In Brazil, the study of the impact of large dams construction is something recent to economists and social scientists. The growing number of these constructions is part of the process of the globalization of capital and of the increase of what we call an energy intensive society. Their vast lakes flood large land areas that were used by men for agriculture and by villages formed mainly by peasants. This process, driven by development policies of the electricity sector and water resources brings great impact on the organization of family farms producing units, due to the flooding in agricultural lands and to the expropriation of productive resources. This is where the social movements linked to the populations directly affected by this State action for modernization that, almost always, occurs in an authoritarian way, come in as a reaction to this. The compulsory abandonment of these lands and the consequent transfer of the villages to areas that in turn, present most of the time partly or typically urban characteristics leads to the transformation of their inhabitants into consumers according to the demands of the energy intensive society. But this process is not linear and cannot guarantee this new social condition to all people affected, for most part of them end up developing resistance strategies to maintain their situation as peasants, while the others succumb to selection test of new consumers. The main condition imposed by the market to the affected populations reach the new consumer status, is the conversion of their labour power then immersed in the logic of peasant agricultural reproduction into commodity, in Marx´s narrowest sense of the term .The transformations the peasant families have to go through during the compulsory relocation from their lands results in a new structure of spendings and consumption, in the absence of occupations, in the transformation of peasant into urban resident (where the peasants now have to buy what they once produced) and in problems of adaptation to the labour market, which jeopardizes the bases of peasant autonomy. The attempts of reconstructing the old social and economic organization that “disappeared” with the flooding of hundreds of family lands constitute the most dramatic aspect to those who deal with such situation, for them, is extremely hard to accept and recognize the complete loss of their lands and of the reproduction of their community life conditions. It is on this context that the movements for the return of the peasants’ previous lifestyle act. But these attempts stumble on the conflicts that involve family agriculture members and landowners over the lands that were not affected by the floods, the not fulfilment of the government´s promises to resettlement and even on the conflicts and misunderstandings that are set within their own movement for the affected ones, fact that rarely the academic researches can see. This issue has taken to intense discussions about one of the oldest thesis on peasant agriculture, its disappearance caused by the advancement of modern capitalist agriculture. Would it be the growing process of construction of large dams contributing to the end of peasant agriculture? Judging by what happened in Acauã, the possibilities of survival of the peasants are scarce, but we must comprehend that the capacity of resistance and political organization of the peasants is an evident and objective reality and that there are no proofs or apparent tendencies that the building of these dams adds to its disappearance.