O uso do crédito pelo consumidor : percepções multifacetadas de um fenômeno intertemporal

Dissertação (mestrado)—Universidade de Brasília, Departamento de Psicologia Social e do Trabalho, Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações, 2013.

Nível de Acesso:openAccess
Publication Date:2013
Main Author: Souza, Marcos Aguerri Pimenta de
Orientador/a: Iglesias, Fabio
Format: Dissertação
Language:por
Online Access:http://repositorio.unb.br/handle/10482/13255
Citação:SOUZA, Marcos Aguerri Pimenta de. O uso do crédito pelo consumidor: percepções multifacetadas de um fenômeno intertemporal. 2013. 118 f., il. Dissertação (Mestrado em Psicologia Social do Trabalho e das Organizações)—Universidade de Brasília, Brasília, 2013.
Resumo inglês:O crédito consiste em uma troca intertemporal, quando o consumidor se endivida ao comprar algo no presente para pagar no futuro. O mercado de crédito brasileiro está em expansão, com características bem peculiares, dentre elas as altas taxas de juros praticadas nas operações, a inclusão de classes sociais de baixa renda e a difusão e maior acesso ao crédito para consumo. O que leva os consumidores a se endividarem e quais as consequências do endividamento? Como os consumidores lidam com esses juros? Como se orientam em relação ao presente e ao futuro? De que forma essa orientação temporal está associada com o nível de interpretação das situações no presente e no futuro, assim como o nível de endividamento? Para procurar responder a essas perguntas, esta dissertação apresenta quatro manuscritos, um teórico e três empíricos, no formato para submissão a revistas científicas. Considerando a escassez de estudos na área, o Manuscrito 1 revisou o fenômeno a partir de teorias e conceitos da psicologia social e identificou uma série de fatores psicológicos preditivos e consequentes para uma agenda de pesquisa, na perspectiva do próprio consumidor e não de quem oferta o crédito. O Manuscrito 2 teve o objetivo de avaliar as percepções de dívida de consumidores (n = 264) no uso de cartão crédito, com base na elaboração de uma escala de atitudes com 24 itens e em cenários hipotéticos de enquadramentos temporal e financeiro. Os resultados sugeriram que os consumidores percebem claramente um componente de endividamento (alfa = 0,82) e outro de planejamento (alfa = 0,81) e que eles diferem sistematicamente em função do enquadramento. O uso de heurísticas foi mais característico do enquadramento temporal, o que se interpreta como forma de estratégia pessoal de proteção às altas taxas de juros. O Manuscrito 3 investigou a relação entre a orientação temporal de consumidores (n = 463) e o nível de interpretação de situações no futuro próximo e distante, com base na construal level theory. O survey incluiu uma escala com 16 itens de orientação ao presente (alfa = 0,87) e ao futuro (alfa = 0,91), inspirados no Zimbardo Time Perspective Inventory, além de uma escala de autocontrole com oito itens (alfa = 0,80), inspirada na Dispositional Self- Control Scale. Os resultados apontaram que consumidores com altos escores no fator de orientação ao presente e baixos escores de orientação ao futuro tendem a preferir situações mais concretas, portanto, de baixo nível de interpretação; por outro lado, quando os escores são baixos para o fator de orientação ao presente e altos ao futuro, os consumidores tendem a preferir situações mais abstratas, portanto, de mais alto nível de interpretação. Finalmente, o Manuscrito 4 teve o objetivo de avaliar a orientação temporal de consumidores (n = 463) em função de três indicadores de nível de endividamento. Os resultados mostraram que indivíduos mais orientados ao presente e pouco ao futuro tendem a se endividar com mais prestações, a pagar com empréstimos e financiamentos, nem sempre pagando a fatura integral do cartão de crédito. Além disso, levam seis meses ou mais para se recuperarem financeiramente de eventos negativos. Em conjunto, os quatro estudos produziram uma série de conhecimentos novos sobre o uso do crédito, que podem ter implicações teóricas, metodológicas e aplicadas. As discussões apontam para o desenvolvimento de ações de educação financeira, para a oferta de subsídios para a proteção e defesa do consumidor e para a regulação bancária da relação com instituições financeiras, numa perspectiva de pesquisa transformativa do consumidor. _______________________________________________________________________________________ ABSTRACT
Credit use is an intertemporal exchange: you can buy now and pay in the future, by getting into a debt. The Brazilian credit market is growing rapidly, with some very peculiar characteristics, such as high interest rates, the inclusion of lower income consumers, and easier access to credit for all sorts of consumption activities. Why do consumers get into debt and what are its consequences? How do consumers cope with interest rates? How does being present or future-oriented associate with construal level in near and distant future? How does temporal orientation explain differences in levels of indebtedness? Based on these questions, this thesis presents four unpublished manuscripts in a scientific journal format, one theoretical and three empirical. Considering the lack of studies for this specific area, Manuscript 1 assumed a consumer (and not a market) perspective to review several socio-psychological concepts and theories relevant to credit use, while proposing a research agenda of its predictive and consequent factors. Manuscript 2 examined debt perceptions of credit card users (n = 264), by creating an attitudinal measure with 24 items and scenarios of time and monetary framing. Results suggested that consumers clearly perceive indebtedness (alpha = .82) and planning (alpha = .81) components, and they systematically depend on framing. The use of heuristics was more frequent in time framing, discussed as an intuitive self-protection strategy to deal with high interest rates. In Manuscript 3 the relationship between temporal orientation and levels of abstraction as predicted by construal level theory was investigated in near and distant future scenarios. The survey included 16 items inspired by the Zimbardo Time Perspective Inventory, organized in present (alpha = .87) and future (alpha = .91) components, as well as a 8-item self-control measure (alpha = .80), inspired by the Dispositional Self-Control Scale. Results showed that consumers of higher present-orientation and lower future-orientation prefer more concrete situations, typical of lower levels of interpretation. On the other hand, consumers that are low in present-orientation and high in future-orientation prefer more abstract situations, which is typical of high levels of interpretation. Finally, Manuscript 4 investigated temporal orientation of consumers (n = 463) as a function of three indicators of level of indebtedness. Results revealed that consumers with higher present-orientation and lower future-orientation tend to contract more installments of loans and borrowings, to avoid paying credit card bills in full, and to take six or more months to financially recover from a negative event. The set of four manuscripts produced new knowledge on credit use, with potentially important theoretical, methodological, and applied implications. Strategies of financial education, subsidies for consumer protection and banking regulation are discussed from a transformative consumer research perspective.