Progresso valorativo da ciência e a biotecnologia: sobre a participação dos valores sociais na avaliação do progresso científico

A partir da análise do modelo de desenvolvimento da ciência proposto por Kuhn em The structure of scientific revolutions (1962) é possível considerar a ciência enquanto prática realizada no interior comunidades científicas. Ainda que tratando de dois tipos de progresso científico: aquele que ocorre...

Nível de Acesso:openAccess
Publication Date:2015
Main Author: Débora de Sá Ribeiro Aymoré
Orientador/a: Pablo Ruben Mariconda
Banca: Silvio Seno Chibeni, Renato Rodrigues Kinouchi, Hugh Matthew Lacey, Caetano Ernesto Plastino
Format: Tese
Language:por
Published: Universidade de São Paulo
Programa: Filosofia
Assuntos em Português:
Assuntos em Inglês:
Online Access:http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8133/tde-15102015-145922/
Resumo Português:A partir da análise do modelo de desenvolvimento da ciência proposto por Kuhn em The structure of scientific revolutions (1962) é possível considerar a ciência enquanto prática realizada no interior comunidades científicas. Ainda que tratando de dois tipos de progresso científico: aquele que ocorre por meio da atividade paradigmática e o que acontece por meio das revoluções científicas, Kuhn permanece como modelo de progresso científico centrado especialmente no aspecto cognitivo interno da atividade científica. Porém, ao listar os valores como um dos elementos do paradigma, Kuhn trouxe para a filosofia da ciência a possibilidade do tratamento também dos fatores externos, que estão relacionados ao contexto social no qual a ciência está inserida. Levando adiante essa proposta de interação entre a ciência e os valores, Lacey vincula o conceito de paradigma a sua concepção de estratégia de pesquisa. Orientando-nos pela guinada valorativa empreendida por Lacey, formulamos três características que compõem o progresso valorativo da ciência, que são a consideração da prática científica, a identificação da interação da ciência com os valores e o reconhecimento da estrutura entre meios e fins que subjaz à relação da escolha das estratégias de pesquisa (M1) com os demais momentos logicamente distintos da prática da ciência, incluindo a relação entre a ciência e a tecnologia que é realizada no momento da aplicação científica (M5). Nossa consideração está baseada em grande medida no modelo da interação entre a ciência e os valores, que permite elucidar além da distinção entre os valores pessoais e os sociais, e da distinção entre valores cognitivos e não cognitivos, a articulação dos valores através do discurso, como forma de explicitá-los, permitindo a sua crítica por perspectivas de valor divergentes. Além disso, para exemplificar o enraizamento dos valores nos contextos sociais e institucionais da ciência, analisamos três estudos de casos, da inovação no Brasil, da proibição de uso de animais para o teste de cosméticos no Estado de São Paulo e da aplicação do aconselhamento genético no Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco, dos quais extraímos que a interação entre a ciência, a tecnologia e a sociedade requer o reconhecimento de que os valores orientam as práticas científicas e tecnológicas, bem como a possibilidade de que demandas sociais de legitimidade alterem a relação entre meio (ciência e tecnologia) e finalidades (controle da natureza e inovação) a serem atingidas.
Resumo inglês:Beginning from the analysis of Thomas Kuhns model of development of science, proposed in The structure of scientific revolutions (1962), it is possible to consider science as a practice held within scientific communities. Although dealing with two different types of scientific progress, i.e., progress by means of paradigmatic activity, and progress by means of scientific revolutions, Kuhn remains within a model of scientific progress centered mainly in the internal cognitive aspect of scientific practice. But, enrolling values among the elements of paradigm, Kuhn brings to the philosophy of science the possibility of treating also the external factors which are related to the social context in which science is inserted. Bringing ahead this proposal of interaction between science and values, Lacey links the concept of paradigms to his conception of research strategy. Guided by Laceys evaluative turn, we formulate three features that compose the evaluative progress of science. There features are to take into account the scientific practice, to identify the interaction between science and values, and to recognize the structure of means and ends that underlies the relation between the choice of the research strategy (M1) and the other logically distinct moments of scientific practice, specially the relation between science and technology which occurs in the stage of scientific application. Our consideration is based mainly on the model of the interaction between science and values. This allows the clarification not only of the distinctions between personal values and social values, and the distinction between cognitive values and non-cognitive values, but also the articulation of values through discourse as a mean of making them explicit, admitting their criticism from divergent evaluative perspectives. Furthermore to exemplify the rooting of values in the social and institutional contexts of science, we analyze three study-cases: that of innovation in Brazil, that of prohibiting the use of animals for the test of cosmetics in the State of São Paulo, and that of genetic advice in the Human Genome and Stem Cells Research Center. From these study-cases we extract that the interaction between science, technology and society requires the recognition that values guide scientific and technological practices, as well as the possibility that social demands of legitimacy change the relation between the means (science and technology) and the ends (control of nature and innovation) to be achieved.