Experimentando (com) trilhas: a música de Prokófiev para Ivan, o Terrível

Detalhes bibliográficos
Ano de defesa: 2025
Autor(a) principal: Soares, Luiz Felipe Guimarães
Orientador(a): Barros, Guilherme Antonio Sauerbronn De
Banca de defesa: Não Informado pela instituição
Tipo de documento: Tese
Tipo de acesso: Acesso aberto
Idioma: por
Instituição de defesa: Não Informado pela instituição
Programa de Pós-Graduação: Não Informado pela instituição
Departamento: Não Informado pela instituição
País: Não Informado pela instituição
Palavras-chave em Português:
Link de acesso: https://repositorio.udesc.br/handle/UDESC/24073
Resumo: O objetivo principal desta tese é caracterizar a composição de música para cinema como lugar, por excelência, de experimentação radical, apontando o trabalho de composição de Sergei Prokófiev para os filmes Ivan, o Terrível (partes 1 e 2), de Sergei Eisenstein, como paradigmático dessa experimentação. Ao ver o trabalho do/a compositor/a de música para cinema como trabalho experimental, eu me oponho (enquanto professor e pesquisador de trilha sonora) à visão aparentemente prevalente na área, a partir da qual essa atividade deve ser obediente à normatividade e ao funcionalismo típicos da produção industrial – com cada elemento musical, e cada elemento cênico, tendo uma função na cena, tendo uma função no filme. Oponho-me, portanto, à concepção fenomenológica da criação artística, fundamentada na intenção e na Bedeutung husserliana. Essa oposição à fenomenologia se serve de uma fundamentação filosófica nietzscheana, a partir da crítica de Derrida a Husserl, apoiando-se principalmente nos conceitos (radicais) de experiência de Georges Bataille e Walter Benjamin. Metodologicamente, apoio-me ainda no conceito de leitura de Roland Barthes – que me permite ler música e cena assumindo o papel incontornável (e incontrolável) da minha subjetividade na minha experiência (indizível) de leitura – assim como no conceito não-ontológico de arte de Jean-Luc Nancy, no qual a patência vale mais do que o sentido. Ao ler música e cenas de Ivan, o Terrível, desta perspectiva, considero o filme um musical, e levo em conta as pressões de vários tipos sofridas pela equipe de produção, trabalhando sob o regime totalitário que encomendou o filme. Com isso, percebo elementos da composição atuando conjuntamente (e anacronicamente) com elementos da montagem, numa criação coletiva que torna complexa a noção de autoria, tirando toda a nitidez da figura do sujeito compositor. Boa parte do trabalho de Prokófiev aparece no filme em blocos intercambiáveis, em repetições sem a respectiva indicação na partitura manuscrita, ou em inserções sem lógica aparente de funcionamento, interagindo com afetos imprevisíveis, ironizando indefinidamente a tipicidade nacionalista ou a simplicidade exigida pelos censores stalinistas. Entre sofrimento e ironia, o que menos aparece nesse musical complexo é a adequação a uma intenção bem definida ou a um sistema projetado com precisão, onde cada órgão cumpre sua função para a glorificação do estado que investiu pesado no projeto. Os próprios censores (e o próprio Stalin) perceberam isso, a ponto de banir a Parte 2 (mais livre na experimentação), de modo que nem Eisenstein nem Prokófiev a puderam ver nos cinemas: morreram logo depois do filme pronto, sugerindo incontornavelmente sua proximidade com a visão da morte enquanto limite da experiência em Bataille.
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Ao ver o trabalho do/a compositor/a de música para cinema como trabalho experimental, eu me oponho (enquanto professor e pesquisador de trilha sonora) à visão aparentemente prevalente na área, a partir da qual essa atividade deve ser obediente à normatividade e ao funcionalismo típicos da produção industrial – com cada elemento musical, e cada elemento cênico, tendo uma função na cena, tendo uma função no filme. Oponho-me, portanto, à concepção fenomenológica da criação artística, fundamentada na intenção e na Bedeutung husserliana. Essa oposição à fenomenologia se serve de uma fundamentação filosófica nietzscheana, a partir da crítica de Derrida a Husserl, apoiando-se principalmente nos conceitos (radicais) de experiência de Georges Bataille e Walter Benjamin. 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Os próprios censores (e o próprio Stalin) perceberam isso, a ponto de banir a Parte 2 (mais livre na experimentação), de modo que nem Eisenstein nem Prokófiev a puderam ver nos cinemas: morreram logo depois do filme pronto, sugerindo incontornavelmente sua proximidade com a visão da morte enquanto limite da experiência em Bataille.431Attribution-NonCommercial-ShareAlike 4.0 Brazilhttp://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/br/info:eu-repo/semantics/openAccessSergei ProkófievSergei EisensteinExperimentaçãoMúsica para cinemaIvan o TerrívelExperimentando (com) trilhas: a música de Prokófiev para Ivan, o Terrívelinfo:eu-repo/semantics/publishedVersioninfo:eu-repo/semantics/doctoralThesis-1porreponame:Repositório Institucional da UDESCinstname:Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC)instacron:UDESCFlorianópolisPrograma de Pós-Graduação em MúsicaCEARTPrograma de Pós-Graduação em MúsicaAcesso abertoLingüística, Letras e ArtesThe main objective of this thesis is to characterize the composition of music for film as a place, par excellence, of radical experimentation, pointing to Sergei Prokofiev's composition work for Sergei Eisenstein’s films Ivan, the Terrible (parts 1 and 2), as paradigmatic of such experimentation. By viewing the work of the composer of music for film as experimental work, I oppose (as a professor and researcher of soundtracks) the apparently prevalent view in the field, in which this activity must obey the normativity and functionalism typical of industrial production – with each musical element, and each scenic element, having a function in the scene, having a function in the film. I therefore oppose the phenomenological concept of artistic creation, itself based on intention and the Husserlian Bedeutung. This opposition to phenomenology utilizes a Nietzschean philosophical foundation, based on Derrida’s critique of Husserl, and is mainly supported by Georges Bataille and Walter Benjamin’s (radical) concepts of experience. Methodologically, I also rely on Roland Barthes’s concept of reading – which allows me to read music and scene assuming the unavoidable (and uncontrollable) role of my subjectivity in my usayable reading experience – as well as on Jean-Luc Nancy’s non-ontological concept of art, in which patency is more important than meaning. When reading the music and scenes of Ivan the Terrible from this perspective, I consider the film to be a musical, and I take into account the pressures of various kinds suffered by the production team, working under the totalitarian regime that commissioned the film. As such, I perceive elements of the composition coming together (and anachronistically) with elements of the editing, in a collective creation that brings complexity to the notion of authorship, taking away all clarity from the figure of the composer, as a subject. Much of Prokofiev’s work appears in the film in interchangeable blocks, in repetitions without the respective indication in the handwritten score, or in insertions with no apparent functional logic, interacting with unpredictable affects, indefinitely ironizing the nationalist typicality or the simplicity required by Stalinist censors. Between suffering and irony, what appears least in this complex musical is the conformity to a well-defined intention or to a precisely designed system, where each organ fulfills its function for the glorification of the state that invested heavily in the project. The censors themselves (and Stalin himself) realized this, to the point of banning Part 2 (which was freer in terms of experimentation), which kept both Eisenstein and Prokofiev from seeing it in theaters: they died shortly after the film was finished, inescapably suggesting its proximity to Bataille's vision of death as the limit of experience.Sergei ProkófievSergei EisensteinExperimentationMusic for filmIvan the Terrible3ef61124-19d9-484c-ba53-85df025b806fvirtual::19410-13ef61124-19d9-484c-ba53-85df025b806fvirtual::19410-1ORIGINALTese revisada.pdfTese revisada.pdfapplication/pdf6473787https://acad.repositorio-institucional-prod9.server.udesc.br/bitstreams/8af0de03-93cc-4796-8f02-83bd80ffd1f7/download867724008f7955a123bb757f29537b83MD51trueAnonymousREADLICENSElicense.txtWritten by org.dspace.content.LicenseUtilstext/plain; charset=utf-81601https://acad.repositorio-institucional-prod9.server.udesc.br/bitstreams/1f9b2717-7c22-4a6c-a1e2-c775c685ee8e/download7e7f8753bca4ca4a71293e48cccc5abfMD52falseAnonymousREADTEXTTese revisada.pdf.txtWritten by FormatFilter org.dspace.app.mediafilter.TikaTextExtractionFilter on 2025-11-24T06:00:48Z (GMT).Extracted texttext/plain103350https://acad.repositorio-institucional-prod9.server.udesc.br/bitstreams/f52801c7-946b-4687-82b6-7956fe6037d3/download296a3eb8204d95294286b963e824848fMD53falseAnonymousREADTHUMBNAILTese revisada.pdf.jpgWritten by FormatFilter org.dspace.app.mediafilter.PDFBoxThumbnail on 2025-11-24T06:00:48Z (GMT).Generated Thumbnailimage/jpeg3080https://acad.repositorio-institucional-prod9.server.udesc.br/bitstreams/44dd4257-332e-43f6-bb28-19ce3736aaaf/download53427bb9b1b89e44f39f69c6cb9c14cfMD54falseAnonymousREADUDESC/240732025-11-24T06:00:48.211Zhttp://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/br/Attribution-NonCommercial-ShareAlike 4.0 Brazilopen.accessoai:repositorio.udesc.br:UDESC/24073https://acad.repositorio-institucional-prod9.server.udesc.brBiblioteca Digital de Teses e Dissertaçõeshttps://pergamumweb.udesc.br/biblioteca/index.phpPRIhttps://repositorio-api.udesc.br/server/oai/requestri@udesc.bropendoar:63912025-11-24T06:00:48Repositório Institucional da UDESC - Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC)false
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