Projeto salitre: o "desenvolvimento que se desenvolveu demais" - história, memórias e narrativas de agricultores em um contexto de descaso planejado

Detalhes bibliográficos
Ano de defesa: 2025
Autor(a) principal: Nascimento, Renato Santos do lattes
Orientador(a): Carvalho, Maria Rosário Gonçalves de lattes
Banca de defesa: Magalhães, Sônia Barbosa lattes, Reesink, Edwin Boudewijn lattes, Carvalho, Franklin Plessmann de lattes, Gomes, Patrícia Alexandra Godinho lattes, Carvalho, Maria Rosário Gonçalves de lattes
Tipo de documento: Tese
Tipo de acesso: Acesso aberto
Idioma: por
Instituição de defesa: UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
Programa de Pós-Graduação: Outro
Departamento: Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH)
País: Brasil
Palavras-chave em Português:
Área do conhecimento CNPq:
Link de acesso: https://repositorio.ufba.br/handle/ri/41559
Resumo: No início dos anos 1960, o Vale do Rio Salitre, localizado entre os municípios de Campo Formoso e Juazeiro, na bacia do rio Salitre (afluente do São Francisco), na porção norte do Estado da Bahia, foi integrado à rota da ideologia e das políticas desenvolvimentistas do Estado brasileiro. Em colaboração com a ONU/FAO e BIRD, diversos estudos de viabilidade agrícola foram conduzidos na região para a implementação do Projeto Público de Irrigação Salitre, oficialmente inaugurado em 2010. Ao longo de mais de 60 anos, os habitantes das comunidades às margens do rio Salitre, nos arredores do Perímetro Irrigado, mantiveram a esperança nas recompensas prometidas pela CODEVAS (agência estatal gestora do Projeto) para compensar os prejuízos socioambientais e territoriais causados pelas diversas etapas de implementação do Projeto. No entanto, esses moradores agora enfrentam os efeitos do que chamam de "herança maldita" do Projeto Salitre. Autodenominando-se "salitreiros" como forma de reafirmar sua identidade com o rio e como elemento de resistência e enfrentamento à ação do Estado na região, eles reivindicam: a perenização total do rio; o uso responsável da água, conforme a lei 9.433/97, que estabelece o consumo humano como prioridade em situações de escassez; e a distribuição dos benefícios prometidos, como a alocação de lotes agrícolas, atualmente concentrados nas mãos dos grandes produtores do agronegócio, que exploram a terra e os recursos hídricos da região. Ao realizar uma etnografia das narrativas e histórias das populações locais, este estudo visa tornar visível a violência silenciosa incorporada no discurso e nas práticas desenvolvimentistas do Projeto Salitre, transformando o "sonho de redenção" dos salitreiros em uma realidade de exclusão, sofrimento e indignação. Este estudo, portanto, caracteriza-se como uma etnografia da vida do povo salitreiro, profundamente alterada em nome de um desenvolvimento historicamente alinhado com uma ideologia social ocidental de dominação. Sob essa perspectiva, e fundamentada teoricamente nos conceitos de descaso planejado e violência administrada elaborados por Parry Scott (2009), a tese sustenta a hipótese de que o Projeto Salitre teve um impacto direto sobre o ambiente e os modos de vidas das populações locais, resultando em uma série de eventos marcados por experiências de exclusão, perdas territoriais, espera, sofrimento, inseguranças e secundarizarão de suas necessidades e interesses.
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spelling 2025-03-25T11:13:06Z2025-03-25T11:13:06Z2025-11-11NASCIMENTO, Renato Santos do. Projeto Salitre: O 'desenvolvimento que se desenvolveu demais' — História, memórias e narrativas de agricultores em um contexto de descaso planejado. Orientadora: Maria Rosário de Carvalho. 2024. 289 f. il. Tese (Doutorado em Estudos Étnicos e Africanos) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal da Bahia, 2024.https://repositorio.ufba.br/handle/ri/41559No início dos anos 1960, o Vale do Rio Salitre, localizado entre os municípios de Campo Formoso e Juazeiro, na bacia do rio Salitre (afluente do São Francisco), na porção norte do Estado da Bahia, foi integrado à rota da ideologia e das políticas desenvolvimentistas do Estado brasileiro. Em colaboração com a ONU/FAO e BIRD, diversos estudos de viabilidade agrícola foram conduzidos na região para a implementação do Projeto Público de Irrigação Salitre, oficialmente inaugurado em 2010. Ao longo de mais de 60 anos, os habitantes das comunidades às margens do rio Salitre, nos arredores do Perímetro Irrigado, mantiveram a esperança nas recompensas prometidas pela CODEVAS (agência estatal gestora do Projeto) para compensar os prejuízos socioambientais e territoriais causados pelas diversas etapas de implementação do Projeto. No entanto, esses moradores agora enfrentam os efeitos do que chamam de "herança maldita" do Projeto Salitre. Autodenominando-se "salitreiros" como forma de reafirmar sua identidade com o rio e como elemento de resistência e enfrentamento à ação do Estado na região, eles reivindicam: a perenização total do rio; o uso responsável da água, conforme a lei 9.433/97, que estabelece o consumo humano como prioridade em situações de escassez; e a distribuição dos benefícios prometidos, como a alocação de lotes agrícolas, atualmente concentrados nas mãos dos grandes produtores do agronegócio, que exploram a terra e os recursos hídricos da região. Ao realizar uma etnografia das narrativas e histórias das populações locais, este estudo visa tornar visível a violência silenciosa incorporada no discurso e nas práticas desenvolvimentistas do Projeto Salitre, transformando o "sonho de redenção" dos salitreiros em uma realidade de exclusão, sofrimento e indignação. Este estudo, portanto, caracteriza-se como uma etnografia da vida do povo salitreiro, profundamente alterada em nome de um desenvolvimento historicamente alinhado com uma ideologia social ocidental de dominação. Sob essa perspectiva, e fundamentada teoricamente nos conceitos de descaso planejado e violência administrada elaborados por Parry Scott (2009), a tese sustenta a hipótese de que o Projeto Salitre teve um impacto direto sobre o ambiente e os modos de vidas das populações locais, resultando em uma série de eventos marcados por experiências de exclusão, perdas territoriais, espera, sofrimento, inseguranças e secundarizarão de suas necessidades e interesses.In the early 1960s, the Salitre River Valley, located between the municipalities of Campo Formoso and Juazeiro, in the Salitre River basin (a tributary of the São Francisco River), in the northern portion of the state of Bahia, became integrated into the route of ideology and development policies of the Brazilian state. In collaboration with the UN/FAO and the World Bank, various agricultural feasibility studies were conducted in the region for the implementation of the Salitre Public Irrigation Project, officially inaugurated in 2010. Over more than 60 years, the inhabitants of the communities along the Salitre River, in the vicinity of the Irrigated Perimeter, maintained hope in the rewards promised by CODEVAS (the state agency managing the Project) to compensate for the socio-environmental and territorial losses caused by the various stages of Project implementation. However, these residents now face the effects of what they call the "cursed legacy" of the Salitre Project. Self-identifying as "salitreiros" as a way to reaffirm their identity with the river and as a form of resistance and confrontation against the State's action in the region, they demand: the total perennialization of the river; responsible water use, in accordance with Law 9.433/97, which prioritizes human consumption in situations of scarcity; and the distribution of promised benefits, such as the allocation of agricultural plots, currently concentrated in the hands of large agribusiness producers who exploit the land and water resources of the region. By conducting an ethnography of the narratives and stories of local populations, this study aims to make visible the silent violence embedded in the discourse and developmental practices of the Salitre Project, transforming the "redemption dream" of the salitreiros into a reality of exclusion, suffering, and indignation. This study, therefore, is characterized as an ethnography of the life of the salitreiro people, profoundly altered in the name of a development historically aligned with a Western social ideology of domination. From this perspective, and theoretically grounded in the concepts of planned neglect and administered violence elaborated by Parry Scott (2009), the thesis hypothesizes that the Salitre Project had a direct impact on the environment and the ways of life of local populations, resulting in a series of events marked by experiences of exclusion, territorial losses, waiting, suffering, insecurities, and marginalization of their needs and interests.porUNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIAOutroUFBABrasilFaculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH)EthnographySalitre ProjectSalitreirosDevelopmentPlanned neglectAdministered violenceCodevasfCNPQ::CIENCIAS HUMANAS::ANTROPOLOGIA::TEORIA ANTROPOLOGICAAntropologia RuralEtnografiaAntropologia do desenvolvimentoEtnografiaProjeto SalitreSalitreirosDesenvolvimentoDescaso planejadoViolência administradaCodevasfProjeto salitre: o "desenvolvimento que se desenvolveu demais" - história, memórias e narrativas de agricultores em um contexto de descaso planejadoDoutoradoinfo:eu-repo/semantics/doctoralThesisinfo:eu-repo/semantics/publishedVersionCarvalho, Maria Rosário Gonçalves dehttp://lattes.cnpq.br/1298757533709756Magalhães, Sônia Barbosahttp://lattes.cnpq.br/2136454393021407Reesink, Edwin Boudewijnhttp://lattes.cnpq.br/9566407902205153Carvalho, Franklin Plessmann dehttp://lattes.cnpq.br/5449457142360149Gomes, Patrícia Alexandra Godinhohttp://lattes.cnpq.br/6846420617949053Carvalho, Maria Rosário Gonçalves dehttp://lattes.cnpq.br/1298757533709756http://lattes.cnpq.br/4118611308400780Nascimento, Renato Santos doADAMS, Cristina. 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Nascimento, Renato Santos do
CNPQ::CIENCIAS HUMANAS::ANTROPOLOGIA::TEORIA ANTROPOLOGICA
Antropologia Rural
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Antropologia do desenvolvimento
Etnografia
Projeto Salitre
Salitreiros
Desenvolvimento
Descaso planejado
Violência administrada
Codevasf
Ethnography
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Salitreiros
Development
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description No início dos anos 1960, o Vale do Rio Salitre, localizado entre os municípios de Campo Formoso e Juazeiro, na bacia do rio Salitre (afluente do São Francisco), na porção norte do Estado da Bahia, foi integrado à rota da ideologia e das políticas desenvolvimentistas do Estado brasileiro. Em colaboração com a ONU/FAO e BIRD, diversos estudos de viabilidade agrícola foram conduzidos na região para a implementação do Projeto Público de Irrigação Salitre, oficialmente inaugurado em 2010. Ao longo de mais de 60 anos, os habitantes das comunidades às margens do rio Salitre, nos arredores do Perímetro Irrigado, mantiveram a esperança nas recompensas prometidas pela CODEVAS (agência estatal gestora do Projeto) para compensar os prejuízos socioambientais e territoriais causados pelas diversas etapas de implementação do Projeto. No entanto, esses moradores agora enfrentam os efeitos do que chamam de "herança maldita" do Projeto Salitre. Autodenominando-se "salitreiros" como forma de reafirmar sua identidade com o rio e como elemento de resistência e enfrentamento à ação do Estado na região, eles reivindicam: a perenização total do rio; o uso responsável da água, conforme a lei 9.433/97, que estabelece o consumo humano como prioridade em situações de escassez; e a distribuição dos benefícios prometidos, como a alocação de lotes agrícolas, atualmente concentrados nas mãos dos grandes produtores do agronegócio, que exploram a terra e os recursos hídricos da região. Ao realizar uma etnografia das narrativas e histórias das populações locais, este estudo visa tornar visível a violência silenciosa incorporada no discurso e nas práticas desenvolvimentistas do Projeto Salitre, transformando o "sonho de redenção" dos salitreiros em uma realidade de exclusão, sofrimento e indignação. Este estudo, portanto, caracteriza-se como uma etnografia da vida do povo salitreiro, profundamente alterada em nome de um desenvolvimento historicamente alinhado com uma ideologia social ocidental de dominação. Sob essa perspectiva, e fundamentada teoricamente nos conceitos de descaso planejado e violência administrada elaborados por Parry Scott (2009), a tese sustenta a hipótese de que o Projeto Salitre teve um impacto direto sobre o ambiente e os modos de vidas das populações locais, resultando em uma série de eventos marcados por experiências de exclusão, perdas territoriais, espera, sofrimento, inseguranças e secundarizarão de suas necessidades e interesses.
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