Ecologia da onça-parda: interações de um predador de topo em um agroecossistema

Detalhes bibliográficos
Ano de defesa: 2017
Autor(a) principal: Azevedo, Fernanda Cavalcanti de
Orientador(a): Não Informado pela instituição
Banca de defesa: Não Informado pela instituição
Tipo de documento: Tese
Tipo de acesso: Acesso aberto
Idioma: por
Instituição de defesa: Universidade Federal de Viçosa
Programa de Pós-Graduação: Não Informado pela instituição
Departamento: Não Informado pela instituição
País: Não Informado pela instituição
Palavras-chave em Português:
Link de acesso: http://www.locus.ufv.br/handle/123456789/22653
Resumo: O padrão de atividade, o hábito alimentar e a organização espacial da onça-parda (Puma concolor) foram estudados em um agro-ecossistema em rápido desenvolvimento no sudeste brasileiro, utilizando uma combinação entre os métodos de armadilhas fotográficas e rádio telemetria por Sistema de Posicionamento Global (GPS). O estudo foi conduzido entre os anos de 2009 e 2017, no Triângulo Mineiro, município de Araguari, em uma região de ecótono entre os Biomas Cerrado e Mata Atlântica. De forma geral as onças-pardas apresentaram padrão de atividade predominantemente noturno e alta sobreposição temporal com as presas mais consumidas. Especificamente, machos tiveram comportamento noturno mais pronunciado do que fêmeas, que mostraram-se catemerais (isto é, usam o dia e a noite nas mesmas proporções) e consumiram mais presas de hábitos diurnos, como coatis (Nasua nasua) e teiús (Salvator merianae). Animais domésticos (cães e gado bovino) e pessoas transitam nas mesmas trilhas que onças-pardas, entretanto, a sobreposição temporal entre humanos, animais domésticos e este felino não foram expressivos. Onças-pardas alimentaram-se de uma grande variedade de presas (n = 20 espécies) em Araguari. Porém, apresentaram comportamento especialista em relação à dieta, dependendo principalmente de presas silvestres, as quais foram mais consumidas tanto em termos de freqüência de ocorrência quanto biomassa ingerida. Capivaras (Hydrochaeris hydrochaeris) e tatus-peba (Euphractus sexcinctus) foram selecionados, enquanto animais domésticos foram evitados, apesar de sua alta disponibilidade na área de estudo. No que diz respeito à seleção de ambientes para caçar, onças-pardas mostraram preferência por ambientes de florestas e pasto sujo, provavelmente por oferecerem maior proteção em termos de cobertura vegetal e maiores oportunidades para emboscar presas. Onças-pardas caçaram a cada 3.54± 1.62 dias, sendo que fêmeas apresentaram tempo de manipulação das presas mais curto que machos, refletindo maior consumo de presas de pequeno porte por este sexo. Este resultado também destaca a capacidade de detecção de presas menores que 15 kg por meio do monitoramento de grandes carnívoros por meio da rádio telemetria GPS e a checagem freqüente de aglomerados de localizações. Onças-pardas apresentaram tamanho de área de vida média de 209.4 ± 46.5 km 2 . Como esperado, machos ocuparam áreas de vida mais extensas e percorreram maiores distâncias que fêmeas, corroborando um comportamento territorial mais pronunciado através de baixa sobreposição intrasexual. Onças-pardas também apresentaram forte associação com classes ambientais naturais (vegetação florestal), tanto em nível populacional quanto individual, destacando a importância dos fragmentos de vegetação remanescentes para a permanência deste predador de topo de cadeia em ambientes modificados pela ação humana. Os resultados aqui apresentados preenchem uma lacuna no conhecimento da ecologia da onça-parda em ambientes tropicais antropizados. Os dados demonstram que a permanência de um carnívoro de grande porte em paisagens modificadas está relacionada a: sua habilidade de ajustar seu padrão de atividade a diferentes fatores (incluindo antrópicos), e à oferta de uma base de presas silvestres e hábitats de vegetação natural. Além disso, colaboram para desmistificar o alto impacto negativo atribuído a onças-pardas em áreas onde convive com espécies domésticas e o homem.
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spelling Ecologia da onça-parda: interações de um predador de topo em um agroecossistemaPuma ecology: top predator interactions in an agroecosystemPuma concolorComportamento animalPredação (Biologia)Habitat (Ecologia)EcologiaO padrão de atividade, o hábito alimentar e a organização espacial da onça-parda (Puma concolor) foram estudados em um agro-ecossistema em rápido desenvolvimento no sudeste brasileiro, utilizando uma combinação entre os métodos de armadilhas fotográficas e rádio telemetria por Sistema de Posicionamento Global (GPS). O estudo foi conduzido entre os anos de 2009 e 2017, no Triângulo Mineiro, município de Araguari, em uma região de ecótono entre os Biomas Cerrado e Mata Atlântica. De forma geral as onças-pardas apresentaram padrão de atividade predominantemente noturno e alta sobreposição temporal com as presas mais consumidas. Especificamente, machos tiveram comportamento noturno mais pronunciado do que fêmeas, que mostraram-se catemerais (isto é, usam o dia e a noite nas mesmas proporções) e consumiram mais presas de hábitos diurnos, como coatis (Nasua nasua) e teiús (Salvator merianae). Animais domésticos (cães e gado bovino) e pessoas transitam nas mesmas trilhas que onças-pardas, entretanto, a sobreposição temporal entre humanos, animais domésticos e este felino não foram expressivos. Onças-pardas alimentaram-se de uma grande variedade de presas (n = 20 espécies) em Araguari. Porém, apresentaram comportamento especialista em relação à dieta, dependendo principalmente de presas silvestres, as quais foram mais consumidas tanto em termos de freqüência de ocorrência quanto biomassa ingerida. Capivaras (Hydrochaeris hydrochaeris) e tatus-peba (Euphractus sexcinctus) foram selecionados, enquanto animais domésticos foram evitados, apesar de sua alta disponibilidade na área de estudo. No que diz respeito à seleção de ambientes para caçar, onças-pardas mostraram preferência por ambientes de florestas e pasto sujo, provavelmente por oferecerem maior proteção em termos de cobertura vegetal e maiores oportunidades para emboscar presas. Onças-pardas caçaram a cada 3.54± 1.62 dias, sendo que fêmeas apresentaram tempo de manipulação das presas mais curto que machos, refletindo maior consumo de presas de pequeno porte por este sexo. Este resultado também destaca a capacidade de detecção de presas menores que 15 kg por meio do monitoramento de grandes carnívoros por meio da rádio telemetria GPS e a checagem freqüente de aglomerados de localizações. Onças-pardas apresentaram tamanho de área de vida média de 209.4 ± 46.5 km 2 . Como esperado, machos ocuparam áreas de vida mais extensas e percorreram maiores distâncias que fêmeas, corroborando um comportamento territorial mais pronunciado através de baixa sobreposição intrasexual. Onças-pardas também apresentaram forte associação com classes ambientais naturais (vegetação florestal), tanto em nível populacional quanto individual, destacando a importância dos fragmentos de vegetação remanescentes para a permanência deste predador de topo de cadeia em ambientes modificados pela ação humana. Os resultados aqui apresentados preenchem uma lacuna no conhecimento da ecologia da onça-parda em ambientes tropicais antropizados. Os dados demonstram que a permanência de um carnívoro de grande porte em paisagens modificadas está relacionada a: sua habilidade de ajustar seu padrão de atividade a diferentes fatores (incluindo antrópicos), e à oferta de uma base de presas silvestres e hábitats de vegetação natural. Além disso, colaboram para desmistificar o alto impacto negativo atribuído a onças-pardas em áreas onde convive com espécies domésticas e o homem.Activity patterns, feeding habits and spatial organization of pumas (Puma concolor) were studied in an agro-ecosystem in Southeast Brazil, through camera trapping and radio-telemetry with GPS (Global Position System) technology. The study was carried from 2009 to 2017 in Minas Gerais state, Triângulo Mineiro region, Araguari municipality, an ecotone zone between Cerrado and Atlantic Forest biomes. Regarding activity patterns, in the study site pumas were mostly nocturnal and presented higher temporal overlapping with most consumed prey. Specifically, males showed mostly nocturnal behavior, while females were cathemeral (active at night and day hours in same proportions) and consumed more prey with diurnal activity such as coatis (Nasua nasua) and tegus (Salvator merianae). Domestic animals (dogs and cattle) and people use the same trails as pumas, however, temporal overlapping between humans, domestic animals and this felid are not expressive. Pumas feed on a wide variety of prey (n = 20 species) in the study site. But showed specialized behavior towards diet, relying mostly on wild prey, which were more consumed in terms of frequency of occurrence and biomass. Capybaras (Hydrochaeris hydrochaeris) and six-banded armadillos (Euphractus sexcinctus) were selected, while domestic animals were avoided despite their high availability in Araguari. Regarding habitat preference for killing prey, pumas showed a pronounced preference for forested habitats and pasture with shrubs, probably because they offer cover protection and opportunities to ambush prey. Pumas hunted every 3.54 ± 1.62 days, being that females presented shorter handling time of prey than males, reflecting higher consumption of small prey by this sex. This result also highlights the potential of detection of smaller prey than 15 kg through the monitoring of large-sized carnivores using GPS devices and the frequent verifying of clusters of locations. Mean home range size for pumas was 209.4 ± 46.5 km 2 . As expected, males exhibited larger home ranges and traveled greater distances per day than females, showing a most pronounced territorial behavior, as also suggested by low intrasexual overlap. Pumas showed strong habitat association with natural features (forest vegetation) both at population and individual level, highlighting the importance of fragments of natural vegetation for the permanence of this top-predator in human- modified landscapes. The presented results fill a gap on puma's ecology knowledge in tropical ecosystems. Data demonstrate that the permanence of a large carnivore in modified landscapes is related to its ability to adjust its activity pattern to different factors (including anthropic), and the availability of wild prey and natural vegetation habitats. In addition, they collaborate to demystify the high negative impact attributed to pumas in areas where they cohabit with domestic species and humans.Universidade Federal de ViçosaAzevedo, Fernando Cesar Cascelli dehttp://lattes.cnpq.br/3270718404243890Azevedo, Fernanda Cavalcanti de2018-11-29T15:32:10Z2018-11-29T15:32:10Z2017-11-30info:eu-repo/semantics/publishedVersioninfo:eu-repo/semantics/doctoralThesisapplication/pdfAZEVEDO, Fernanda Cavalcanti de. Ecologia da onça-parda: interações de um predador de topo em um agroecossistema. 2017. 125 f. Tese (Doutorado em Ecologia) - Universidade Federal de Viçosa, Viçosa. 2017.http://www.locus.ufv.br/handle/123456789/22653porinfo:eu-repo/semantics/openAccessreponame:LOCUS Repositório Institucional da UFVinstname:Universidade Federal de Viçosa (UFV)instacron:UFV2024-07-12T06:23:50Zoai:locus.ufv.br:123456789/22653Repositório InstitucionalPUBhttps://www.locus.ufv.br/oai/requestfabiojreis@ufv.bropendoar:21452024-07-12T06:23:50LOCUS Repositório Institucional da UFV - Universidade Federal de Viçosa (UFV)false
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