O crime como composição : as facções do Rio Grande do Sul entre redes mercantis, práticas de apoio e governança
| Ano de defesa: | 2025 |
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| Palavras-chave em Português: | |
| Palavras-chave em Inglês: | |
| Link de acesso: | http://hdl.handle.net/10183/299032 |
Resumo: | Nesta tese, propus “reagregar” as facções do Rio Grande do Sul a partir de suas conexões, práticas e formas de regulação. Em vez de tomá-las como categorias dadas, tratei de segui las em suas múltiplas instanciações, articulando duas estratégias: uma primeira, inspirada na teoria do ator-rede, que suspende a facção como entidade estabilizada para descrever os encadeamentos materiais que a tornam visível; e uma segunda, ancorada na teoria da estruturação, que pressupõe a facção como estrutura virtual, constantemente reproduzida nas ações de seus integrantes. Com base na realização de entrevistas com transportadores de drogas, traficantes e policiais, além de na sistematização de documentos, a investigação parte da reconstrução da logística do tráfico de cocaína e crack do Paraguai até o Rio Grande do Sul, acompanhando personagens e empreendimentos que compõem uma rede sustentada por celulares, mocós, adulterantes, cédulas, registros e infraestruturas. Em seguida, faço um deslocamento analítico duplo: da rede à facção e dos mediadores materiais aos mediadores virtuais. Nessa chave, o foco recai sobre o apoio, uma prática de reciprocidade moral que faz circular não apenas relações de crédito, dívidas cruzadas e compra e venda de mercadorias, mas também favores, atos de cooperação e expectativas compartilhadas. Ao combinar lógica econômica e dádiva, o apoio regula trocas internas, equilibra expectativas, reduz desigualdades e reforça a coesão. Por fim, realizo um novo deslocamento, agora da facção ao ecossistema faccional e do apoio à governança. Demonstro que a governança entre coletivos é instável e pragmática, mas não necessariamente arbitrária: seu exercício se ancora, com frequência, em princípios compartilhados por todos eles, mas que são negociados e adquirem sentido apenas nas situações concretas. Ao longo dessas três dimensões, a tese combina a produção da facção como um processo de formação contínua e estruturação – demonstrando como ela resulta de segmentos internamente conectados pela circulação das drogas; da rotinização de práticas recíprocas de apoio; e de sua inserção em um ecossistema faccional, marcado por disputas normativas, dinâmicas de aliança e rivalidade e recurso à violência. Porém, as dimensões da materialidade, da moral e da política não existem separadas umas das outras, mas desde composições que variam de acordo com as entidades em jogo, a escala dos negócios, a natureza das trocas, as relações de autonomia e dependência, e os graus de consenso ou conflito em torno de como regras mais amplas são significadas. |
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Rodrigues, Marcelli CiprianiWeiss, Raquel Andrade2025-11-22T08:07:06Z2025http://hdl.handle.net/10183/299032001297273Nesta tese, propus “reagregar” as facções do Rio Grande do Sul a partir de suas conexões, práticas e formas de regulação. Em vez de tomá-las como categorias dadas, tratei de segui las em suas múltiplas instanciações, articulando duas estratégias: uma primeira, inspirada na teoria do ator-rede, que suspende a facção como entidade estabilizada para descrever os encadeamentos materiais que a tornam visível; e uma segunda, ancorada na teoria da estruturação, que pressupõe a facção como estrutura virtual, constantemente reproduzida nas ações de seus integrantes. Com base na realização de entrevistas com transportadores de drogas, traficantes e policiais, além de na sistematização de documentos, a investigação parte da reconstrução da logística do tráfico de cocaína e crack do Paraguai até o Rio Grande do Sul, acompanhando personagens e empreendimentos que compõem uma rede sustentada por celulares, mocós, adulterantes, cédulas, registros e infraestruturas. Em seguida, faço um deslocamento analítico duplo: da rede à facção e dos mediadores materiais aos mediadores virtuais. Nessa chave, o foco recai sobre o apoio, uma prática de reciprocidade moral que faz circular não apenas relações de crédito, dívidas cruzadas e compra e venda de mercadorias, mas também favores, atos de cooperação e expectativas compartilhadas. Ao combinar lógica econômica e dádiva, o apoio regula trocas internas, equilibra expectativas, reduz desigualdades e reforça a coesão. Por fim, realizo um novo deslocamento, agora da facção ao ecossistema faccional e do apoio à governança. Demonstro que a governança entre coletivos é instável e pragmática, mas não necessariamente arbitrária: seu exercício se ancora, com frequência, em princípios compartilhados por todos eles, mas que são negociados e adquirem sentido apenas nas situações concretas. Ao longo dessas três dimensões, a tese combina a produção da facção como um processo de formação contínua e estruturação – demonstrando como ela resulta de segmentos internamente conectados pela circulação das drogas; da rotinização de práticas recíprocas de apoio; e de sua inserção em um ecossistema faccional, marcado por disputas normativas, dinâmicas de aliança e rivalidade e recurso à violência. Porém, as dimensões da materialidade, da moral e da política não existem separadas umas das outras, mas desde composições que variam de acordo com as entidades em jogo, a escala dos negócios, a natureza das trocas, as relações de autonomia e dependência, e os graus de consenso ou conflito em torno de como regras mais amplas são significadas.In this thesis, I proposed to reassemble the factions of Rio Grande do Sul based on an empirical analysis of their, connections, practices and forms of regulation. Instead of taking them as given categories, I sought to follow them in their multiple instances, articulating two main strategies: the first, inspired by actor-network theory, suspends the faction as a stable entity in order to describe the material chains that make it visible; and a second, anchored in structuration theory, which understands the faction as a virtual structure, constantly reproduced in the actions of its members. Based on interviews and the systematization of documents, the investigation starts from the reconstruction of the logistics of cocaine and crack trafficking from Paraguay to Rio Grande do Sul, following characters and enterprises that make up a network sustained by cell phones, mocós (hiding places in trucks), adulterants, banknotes, records, and infrastructure. Next, I make a double analytical shift: from the network to the faction and from material mediators to virtual mediators. In this key, the focus falls on apoio (support), a practice of moral reciprocity that circulates not only credit relations, cross-debts, and the purchase and sale of goods, but also favors, acts of cooperation, and shared expectations. By combining economic logic and gift-giving, apoio regulates internal exchanges, stabilizes expectations, reduces inequalities, and reinforces cohesion. Lastly, I make a further shift, this time from the faction to the factional ecosystem and from apoio to governance. It is shown that governance among collectives is unstable and pragmatic, but not necessarily arbitrary: its exercise is often anchored in shared principles, but these are negotiated and only acquire meaning in concrete situations. Across these three dimensions, the thesis combines the production of the faction as a process of continuous formation and structuring – demonstrating how it results from segments internally connected by the circulation of drugs; the routinization of reciprocal practices of apoio and their insertion into a factional ecosystem marked by normative disputes, dynamics of alliance and rivalry, and recourse to violence. However, the dimensions of materiality, morality, and politics do not exist separately from one another, but rather in compositions that vary according to the entities involved, the scale of the business, the nature of the exchanges, the relationships of autonomy and dependence, and the degrees of consensus or conflict surrounding how broader rules are interpreted.application/pdfporFacção criminosaTráfico de drogasReciprocidadeSociologiaCriminal factionsDrug traffickingIllegal marketsMoral reciprocityCriminal governanceO crime como composição : as facções do Rio Grande do Sul entre redes mercantis, práticas de apoio e governançainfo:eu-repo/semantics/publishedVersioninfo:eu-repo/semantics/doctoralThesisUniversidade Federal do Rio Grande do SulInstituto de Filosofia e Ciências HumanasPrograma de Pós-Graduação em SociologiaPorto Alegre, BR-RS2025doutoradoinfo:eu-repo/semantics/openAccessreponame:Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da UFRGSinstname:Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)instacron:UFRGSTEXT001297273.pdf.txt001297273.pdf.txtExtracted Texttext/plain916036http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/10183/299032/2/001297273.pdf.txt308dd6dcaf687cf180d9e68ed237dc72MD52ORIGINAL001297273.pdfTexto completoapplication/pdf2584529http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/10183/299032/1/001297273.pdfe1842e1ef4b5ed3024560a9fb3e4aafaMD5110183/2990322025-12-15 08:14:06.435216oai:www.lume.ufrgs.br:10183/299032Biblioteca Digital de Teses e Dissertaçõeshttps://lume.ufrgs.br/handle/10183/2PUBhttps://lume.ufrgs.br/oai/requestlume@ufrgs.br || lume@ufrgs.bropendoar:18532025-12-15T10:14:06Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)false |
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