Quando quem mata é a polícia : enquadramentos da letalidade policial no Jornal Zero Hora

Detalhes bibliográficos
Ano de defesa: 2025
Autor(a) principal: Silveira, Karolline da Silva
Orientador(a): Magalhães, Alexandre Almeida de
Banca de defesa: Não Informado pela instituição
Tipo de documento: Dissertação
Tipo de acesso: Acesso aberto
Idioma: por
Instituição de defesa: Não Informado pela instituição
Programa de Pós-Graduação: Não Informado pela instituição
Departamento: Não Informado pela instituição
País: Não Informado pela instituição
Palavras-chave em Português:
Palavras-chave em Inglês:
Link de acesso: http://hdl.handle.net/10183/292305
Resumo: A presente dissertação busca compreender de que forma são constituídos os sujeitos vitimados pela letalidade policial e o próprio acontecimento de suas mortes, nos enquadramentos midiáticos de matérias publicadas no jornal Zero Hora (ZH) de 2012 a 2022. Para isso, foram empreendidas buscas em um sistema de gerenciamento e arquivamento utilizado pelo ZH que possibilitou a localização e o mapeamento de notícias e reportagens que abordaram mortes provocadas pela ação de policiais no estado do Rio Grande do Sul; as quais foram categorizadas e sistematizadas como casos de acordo com o noticiamento do acontecimento da morte. Nesses casos foram identificados um conjunto de 300 mortes que foram agrupadas de acordo com a forma que a narrativa jornalística os apresentou durante a cobertura, resultando basicamente em dois grupos: o de mortes cujas vidas foram reconhecidas como “vítimas da ação policial” e o de mortes cujas vidas foram apresentadas como “culpabilizadas por seu fim”. O primeiro grupo representando o agrupamento de mortes de pessoas a quem a narrativa jornalística retratou como portadores de histórias dignas, vidas vivíveis, cuja vida e a perda são reconhecidas publicamente, embora esse reconhecimento não acarrete necessariamente ao entendimento da ilegitimidade da ação do agente que cerceou a vida ao matar a pessoa. O segundo, por outro lado, foi constituído por pessoas que quando muito tiveram nome, idade, cidade de nascimento e histórico criminal publicados, mas que em regra foi marcado pelo agrupamento de pessoas identificadas a partir de algum padrão de anonimato, cuja característica comum aos casos é a indicação do envolvimento de quem foi morto com alguma prática criminosa. Ao contrário do outro grupo, as mortes agrupadas no segundo são retratadas nas páginas do jornal como acontecimentos que comprovam a eficiência e o bom serviço da polícia, havendo nelas a presunção de legitimidade. Comparativamente, a análise das mortes retratadas nas páginas do jornal Zero Hora evidencia que, quando as vítimas são reconhecidas como tal, suas mortes são frequentemente descritas como fatalidades, desvios individuais de policiais ou casos isolados de violência policial, sem questionamentos estruturais da prática. Por outro lado, quando as vítimas são culpabilizadas por sua própria morte, o enquadramento jornalístico reforça a presunção de legitimidade da ação policial, associando-a à manutenção da ordem pública. Dessa forma, a cobertura do ZH não apenas reflete padrões de seletividade ao midiatizar casos de letalidade policial, mas também contribui para a legitimação de discursos que naturalizam a violência do Estado e diferenciam vidas dignas de luto daquelas cujas mortes são justificadas como necessárias.
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Nesses casos foram identificados um conjunto de 300 mortes que foram agrupadas de acordo com a forma que a narrativa jornalística os apresentou durante a cobertura, resultando basicamente em dois grupos: o de mortes cujas vidas foram reconhecidas como “vítimas da ação policial” e o de mortes cujas vidas foram apresentadas como “culpabilizadas por seu fim”. O primeiro grupo representando o agrupamento de mortes de pessoas a quem a narrativa jornalística retratou como portadores de histórias dignas, vidas vivíveis, cuja vida e a perda são reconhecidas publicamente, embora esse reconhecimento não acarrete necessariamente ao entendimento da ilegitimidade da ação do agente que cerceou a vida ao matar a pessoa. O segundo, por outro lado, foi constituído por pessoas que quando muito tiveram nome, idade, cidade de nascimento e histórico criminal publicados, mas que em regra foi marcado pelo agrupamento de pessoas identificadas a partir de algum padrão de anonimato, cuja característica comum aos casos é a indicação do envolvimento de quem foi morto com alguma prática criminosa. Ao contrário do outro grupo, as mortes agrupadas no segundo são retratadas nas páginas do jornal como acontecimentos que comprovam a eficiência e o bom serviço da polícia, havendo nelas a presunção de legitimidade. Comparativamente, a análise das mortes retratadas nas páginas do jornal Zero Hora evidencia que, quando as vítimas são reconhecidas como tal, suas mortes são frequentemente descritas como fatalidades, desvios individuais de policiais ou casos isolados de violência policial, sem questionamentos estruturais da prática. Por outro lado, quando as vítimas são culpabilizadas por sua própria morte, o enquadramento jornalístico reforça a presunção de legitimidade da ação policial, associando-a à manutenção da ordem pública. Dessa forma, a cobertura do ZH não apenas reflete padrões de seletividade ao midiatizar casos de letalidade policial, mas também contribui para a legitimação de discursos que naturalizam a violência do Estado e diferenciam vidas dignas de luto daquelas cujas mortes são justificadas como necessárias.The present dissertation seeks to understand how the subjects victimized by police lethality—and the very event of their deaths—are constructed within the media frames of articles published in the newspaper Zero Hora (ZH) from 2012 to 2022. To achieve this, searches were conducted in ZH’s management and archiving system, allowing for the identification and mapping of news articles and reports that covered deaths resulting from police actions in the state of Rio Grande do Sul. These cases were categorized and systematized based on how the events of death were reported. A total of 300 deaths were identified and grouped according to how the journalistic narrative framed them in news coverage, resulting in two main categories: (1) deaths in which the individuals were recognized as "victims of police action" and (2) deaths in which the individuals were "blamed for their own end." The first group includes cases where the journalistic narrative portrayed the deceased as having dignified stories and livable lives—lives publicly acknowledged and mourned—though this recognition does not necessarily lead to questioning the legitimacy of the police action that caused their deaths. The second group, on the other hand, consists of individuals who were often only identified by their name, age, place of birth, and criminal record—if any information was provided at all. This group was generally characterized by a pattern of anonymity, with the common feature being an explicit or implicit association of the deceased with criminal activity. Unlike the first group, deaths in the second category were framed as evidence of police efficiency and good service, with a presumption of legitimacy. A comparative analysis of deaths reported in Zero Hora reveals that when victims are acknowledged as such, their deaths are often described as accidents, isolated cases of police misconduct, or individual deviations, without broader structural questioning of police practices. Conversely, when victims are blamed for their own deaths, the journalistic framing reinforces the presumption of police legitimacy, linking their killings to the maintenance of public order. In this way, ZH's coverage not only reflects selective patterns in the media representation of police lethality but also contributes to the legitimization of narratives that normalize state violence and differentiate lives deemed worthy of mourning from those whose deaths are justified as necessary.application/pdfporViolência policialLegitimidadeAnálise de conteúdoJornalismoMedia framingPolice lethalityPolice violenceMournable livesQuando quem mata é a polícia : enquadramentos da letalidade policial no Jornal Zero Horainfo:eu-repo/semantics/publishedVersioninfo:eu-repo/semantics/masterThesisUniversidade Federal do Rio Grande do SulInstituto de Filosofia e Ciências HumanasPrograma de Pós-Graduação em SociologiaPorto Alegre, BR-RS2025mestradoinfo:eu-repo/semantics/openAccessreponame:Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da UFRGSinstname:Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)instacron:UFRGSTEXT001257639.pdf.txt001257639.pdf.txtExtracted Texttext/plain484312http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/10183/292305/2/001257639.pdf.txt60b99d93c2444456a6bdd7395c17a3b8MD52ORIGINAL001257639.pdfTexto completoapplication/pdf3034473http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/10183/292305/1/001257639.pdf1e2dd30a806cdef9e706cdfc5d617cd3MD5110183/2923052025-05-30 06:44:33.705747oai:www.lume.ufrgs.br:10183/292305Biblioteca Digital de Teses e Dissertaçõeshttps://lume.ufrgs.br/handle/10183/2PUBhttps://lume.ufrgs.br/oai/requestlume@ufrgs.br || lume@ufrgs.bropendoar:18532025-05-30T09:44:33Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)false
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