A comunicação no processo de construção de políticas inclusivas e antirracistas: análise da gestão da diversidade em empresas no Brasil

Detalhes bibliográficos
Ano de defesa: 2025
Autor(a) principal: Custodio, Ana Lucia de Melo
Orientador(a): Não Informado pela instituição
Banca de defesa: Não Informado pela instituição
Tipo de documento: Dissertação
Tipo de acesso: Acesso aberto
Idioma: por
Instituição de defesa: Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USP
Programa de Pós-Graduação: Não Informado pela instituição
Departamento: Não Informado pela instituição
País: Não Informado pela instituição
Palavras-chave em Português:
Link de acesso: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27164/tde-22012026-123108/
Resumo: Esta dissertação investiga o papel da comunicação organizacional na promoção da equidade racial em algumas empresas no Brasil. Nosso trabalho parte da premissa de que a comunicação não é um mero instrumento técnico, mas um campo de disputa e construção de sentidos, intrinsecamente ligado às complexas relações raciais do país. Buscamos compreender como a comunicação tem apoiado ou limitado a implementação de políticas inclusivas e antirracistas em empresas que se declaram comprometidas com essa agenda no Brasil. Para tanto, construímos um arcabouço teórico robusto nos primeiros capítulos. No Capítulo 2, desconstruímos o mito da democracia racial e abordamos o racismo como um fenômeno estrutural e institucional. Analisamos a \"branquitude\" como categoria de poder e privilégio e o \"colorismo\" como uma hierarquia de pele que opera dentro da própria população negra. O Capítulo 3 aprofundou o papel da comunicação organizacional como \"processo de construção e disputa de sentidos\". Discutimos como o discurso pode tanto reforçar o racismo estrutural quanto ser um espaço de resistência. Introduzimos o conceito de \"inclusão racial cosmética\", que descreve a apropriação superficial dos discursos de inclusão pelas empresas, sem que haja mudanças estruturais. A interseccionalidade de Patricia Hill Collins foi fundamental para entender que as opressões se cruzam, exigindo uma abordagem mais complexa. O Capítulo 4 apresentou um panorama das iniciativas empresariais, mostrando um avanço na conscientização, mas também a persistência do \"afunilamento\" de pessoas negras em posições de liderança. A pesquisa empírica, detalhada nos Capítulos 5 e 6, combinou a análise de relatórios institucionais com entrevistas em profundidade com comunicadores. A análise dos relatórios, utilizando a metodologia da Global Reporting Initiative (GRI), revelou um padrão de superficialidade e falta de transparência. A maioria das empresas falha em apresentar dados completos, comparáveis e equilibrados sobre os desafios da equidade racial, limitando-se a uma \"clareza\" que serve a um discurso genérico e autorreferenciado. As entrevistas, por sua vez, revelaram uma profunda ambiguidade na percepção dos comunicadores. A alta frequência de \"sentimento negativo\" e a associação a categorias como \"disputa\" e \"efemeridade do tema\" indicam que a pauta racial é um campo de tensão no ambiente corporativo. Os entrevistados percebem a comunicação como refém da liderança e de uma cultura que busca \"cautela em vez de ruptura\". A discrepância entre discurso e prática, que chamamos de \"inclusão racial cosmética\", é a essência do desafio. Concluímos que a comunicação organizacional no Brasil ainda está distante de ser um vetor de transformação antirracista. Ela opera em um modelo instrumental e defensivo, na qual a diversidade é frequentemente usada como uma \"estratégia de maquiagem\" ou uma \"performance vazia\". Para que a comunicação se torne uma aliada da justiça social, é preciso que ela se posicione de forma ética, crítica e corajosa, rompendo com o silêncio e participando ativamente da formulação de políticas, metas e indicadores. A dissertação propõe recomendações para uma comunicação antirracista, que inclui a integração estratégica da comunicação, a transparência de métricas, a criação de canais de escuta autênticos, a formação continuada e a descentralização da produção simbólica.
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Para tanto, construímos um arcabouço teórico robusto nos primeiros capítulos. No Capítulo 2, desconstruímos o mito da democracia racial e abordamos o racismo como um fenômeno estrutural e institucional. Analisamos a \"branquitude\" como categoria de poder e privilégio e o \"colorismo\" como uma hierarquia de pele que opera dentro da própria população negra. O Capítulo 3 aprofundou o papel da comunicação organizacional como \"processo de construção e disputa de sentidos\". Discutimos como o discurso pode tanto reforçar o racismo estrutural quanto ser um espaço de resistência. Introduzimos o conceito de \"inclusão racial cosmética\", que descreve a apropriação superficial dos discursos de inclusão pelas empresas, sem que haja mudanças estruturais. A interseccionalidade de Patricia Hill Collins foi fundamental para entender que as opressões se cruzam, exigindo uma abordagem mais complexa. O Capítulo 4 apresentou um panorama das iniciativas empresariais, mostrando um avanço na conscientização, mas também a persistência do \"afunilamento\" de pessoas negras em posições de liderança. A pesquisa empírica, detalhada nos Capítulos 5 e 6, combinou a análise de relatórios institucionais com entrevistas em profundidade com comunicadores. A análise dos relatórios, utilizando a metodologia da Global Reporting Initiative (GRI), revelou um padrão de superficialidade e falta de transparência. A maioria das empresas falha em apresentar dados completos, comparáveis e equilibrados sobre os desafios da equidade racial, limitando-se a uma \"clareza\" que serve a um discurso genérico e autorreferenciado. As entrevistas, por sua vez, revelaram uma profunda ambiguidade na percepção dos comunicadores. A alta frequência de \"sentimento negativo\" e a associação a categorias como \"disputa\" e \"efemeridade do tema\" indicam que a pauta racial é um campo de tensão no ambiente corporativo. Os entrevistados percebem a comunicação como refém da liderança e de uma cultura que busca \"cautela em vez de ruptura\". A discrepância entre discurso e prática, que chamamos de \"inclusão racial cosmética\", é a essência do desafio. Concluímos que a comunicação organizacional no Brasil ainda está distante de ser um vetor de transformação antirracista. Ela opera em um modelo instrumental e defensivo, na qual a diversidade é frequentemente usada como uma \"estratégia de maquiagem\" ou uma \"performance vazia\". Para que a comunicação se torne uma aliada da justiça social, é preciso que ela se posicione de forma ética, crítica e corajosa, rompendo com o silêncio e participando ativamente da formulação de políticas, metas e indicadores. A dissertação propõe recomendações para uma comunicação antirracista, que inclui a integração estratégica da comunicação, a transparência de métricas, a criação de canais de escuta autênticos, a formação continuada e a descentralização da produção simbólica.This dissertation investigates the role of organizational communication in promoting racial equity within the Brazilian corporate environment. We start from the premise that communication is not merely a technical tool for transmitting information, but a field of struggle and meaning making, intrinsically linked to the complex racial relations in the country. Our goal is to understand how communication has either supported or limited the implementation of inclusive and anti-racist policies in companies that publicly declare their commitment to this agenda. To achieve this, we built a robust theoretical framework in the initial chapters. Chapter 2 deconstructs the myth of racial democracy and addresses racism as a structural and institutional phenomenon. We analyze \"whiteness\"(branquitude) as a category of power and privilege and \"colorism\" as a hierarchy based on skin tone that operates within the Black population itself. Chapter 3 deepens the role of organizational communication as a \"process of constructing and disputing meanings\". We discuss how discourse can both reinforce structural racism and serve as a space for resistance. We introduce the concept of \"cosmetic racial inclusion\", which describes the superficial adoption of inclusion discourses by companies without making structural changes. The intersectional framework of Patricia Hill Collins was fundamental to understanding that oppressions are intertwined, demanding a more complex approach to diversity management. Chapter 4 provides an overview of corporate initiatives, showing an increase in awareness but also the persistence of a \"funneling\" effect, where Black individuals are underrepresented in leadership positions. The empirical research, detailed in Chapters 5 and 6, combined the analysis of institutional reports with in-depth interviews with communication professionals. The report analysis, using the Global Reporting Initiative (GRI) methodology, revealed a pattern of superficiality and a lack of transparency. Most companies fail to provide complete, comparable, and balanced data on racial equity challenges, limiting themselves to a \"clarity\" that supports a generic and self-referential discourse. The interviews, in turn, revealed a profound ambiguity in the perception of communication professionals. The high frequency of \"negative sentiment\" associated with categories like \"dispute\" and \"ephemerality of the topic\" indicates that the racial agenda is a source of tension in the corporate environment. Interviewees perceive communication as hostage to leadership and a corporate culture that seeks \"caution rather than rupture\". The discrepancy between discourse and practice, which we term \"cosmetic racial inclusion,\" is the core of the challenge. We conclude that organizational communication in Brazil is still far from being a vector for anti-racist transformation. It operates within an instrumental and defensive model, where diversity is often a \"make-up strategy\" or an \"empty performance\". For communication to become a true ally of social justice, it must take an ethical, critical, and courageous stance, breaking with silence and actively participating in the formulation of policies, goals, and indicators. This dissertation offers recommendations for an anti-racist communication practice that includes strategic integration of communication, transparent metrics, authentic listening channels, continuous training, and the decentralization of symbolic production.Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USPFerrari, Maria AparecidaCustodio, Ana Lucia de Melo2025-10-14info:eu-repo/semantics/publishedVersioninfo:eu-repo/semantics/masterThesisapplication/pdfhttps://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27164/tde-22012026-123108/reponame:Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USPinstname:Universidade de São Paulo (USP)instacron:USPLiberar o conteúdo para acesso público.info:eu-repo/semantics/openAccesspor2026-01-27T14:56:02Zoai:teses.usp.br:tde-22012026-123108Biblioteca Digital de Teses e Dissertaçõeshttp://www.teses.usp.br/PUBhttp://www.teses.usp.br/cgi-bin/mtd2br.plvirginia@if.usp.br|| atendimento@aguia.usp.br||virginia@if.usp.bropendoar:27212026-01-27T14:56:02Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP - Universidade de São Paulo (USP)false
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