Cultivando roças, manejando resistências: territorialização, identidade quilombola e territorialidades em conflito no Vale do Ribeira (SP)

Detalhes bibliográficos
Ano de defesa: 2024
Autor(a) principal: Baptista, Tainá Holanda Caldeira
Orientador(a): Não Informado pela instituição
Banca de defesa: Não Informado pela instituição
Tipo de documento: Dissertação
Tipo de acesso: Acesso aberto
Idioma: por
Instituição de defesa: Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USP
Programa de Pós-Graduação: Não Informado pela instituição
Departamento: Não Informado pela instituição
País: Não Informado pela instituição
Palavras-chave em Português:
Link de acesso: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8136/tde-02122024-130213/
Resumo: A presente dissertação tem como objetivo analisar o conflito entre distintas territorialidades envolvendo a produção quilombola da agricultura e da natureza no contexto de territórios de uso comum sobrepostos por Unidades de Conservação. Tais conflitos, que resultam do histórico processo de proibição e, posteriormente, regulação das práticas, se evidenciam – mas não se encerram – na obrigatoriedade do licenciamento simplificado das roças, por meio do qual é possível obter a chamada \"autorização\" para plantar. Assim, opõem as comunidades com sua territorialidade socialmente definida, de um lado; e o Estado, em especial a Secretaria de Meio Ambiente, do outro, representantes de uma territorialidade hegemônica ou impositiva, baseada na lógica da propriedade privada. A partir da discussão dos conceitos de território, territorialidade, modo de vida e identidade, o trabalho aborda o modo como se revela, atualmente, a presença de roças de coivara nos territórios de Ribeirão Grande-Terra Seca e Nhunguara, por meio da observação e discussão do modo, frequência e importância com que a técnica é cotidianamente empregada; atrelada à análise de relações e sentidos associados à produção agrícola que povoam, ainda hoje, esse fazer. Partindo desse esforço, intenta discutir aspectos da territorialidade quilombola frente ao conflito vivenciado, através da análise da diversidade de agroambientes e de seus \"movimentos\" – que incluem andanças, trânsitos e deslocamentos –, analisados em diálogo com elementos históricos da territorialização quilombola no Vale do Ribeira que se conectam com a realização das roças em regime de itinerância durante o tempo dos antigos, revelando origens do conflito atual. Na sequência, o trabalho se dedica à análise da atualidade das práticas, alternativas e estratégias cotidianamente manejadas pelas famílias e comunidades, em diferentes escalas, para a manutenção das condições de reprodução social e permanência nos territórios no contexto de fortes restrições. Deriva desse esforço o encontro com novas técnicas e a consolidação de iniciativas comunitárias para produção e comercialização do excedente produtivo a partir da configuração de uma rede de alianças. Paralelamente, observa-se o que se denomina \"2ª fase da regulação\" das normativas no Estado de São Paulo que consolida avanços relevantes na regulação das práticas. Na arena oficial da política, verifica-se o acionamento de direitos no âmbito do conflito, em busca de facilitar o diálogo com o Estado. É à luz dessas considerações que o trabalho aborda o processo de reconhecimento identitário das comunidades quilombolas e o recente processo de patrimonialização do Sistema Agrícola Tradicional das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira como patrimônio nacional imaterial pelo Iphan. Por fim, procura analisar como o \"patrimônio cultural imaterial\" é ou será mobilizado pelas comunidades, no cotidiano dos territórios e em outros espaços da disputa política, apontando desdobramentos da conquista que podem, ou não, gerar mudanças concretas
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Tais conflitos, que resultam do histórico processo de proibição e, posteriormente, regulação das práticas, se evidenciam – mas não se encerram – na obrigatoriedade do licenciamento simplificado das roças, por meio do qual é possível obter a chamada \"autorização\" para plantar. Assim, opõem as comunidades com sua territorialidade socialmente definida, de um lado; e o Estado, em especial a Secretaria de Meio Ambiente, do outro, representantes de uma territorialidade hegemônica ou impositiva, baseada na lógica da propriedade privada. A partir da discussão dos conceitos de território, territorialidade, modo de vida e identidade, o trabalho aborda o modo como se revela, atualmente, a presença de roças de coivara nos territórios de Ribeirão Grande-Terra Seca e Nhunguara, por meio da observação e discussão do modo, frequência e importância com que a técnica é cotidianamente empregada; atrelada à análise de relações e sentidos associados à produção agrícola que povoam, ainda hoje, esse fazer. Partindo desse esforço, intenta discutir aspectos da territorialidade quilombola frente ao conflito vivenciado, através da análise da diversidade de agroambientes e de seus \"movimentos\" – que incluem andanças, trânsitos e deslocamentos –, analisados em diálogo com elementos históricos da territorialização quilombola no Vale do Ribeira que se conectam com a realização das roças em regime de itinerância durante o tempo dos antigos, revelando origens do conflito atual. Na sequência, o trabalho se dedica à análise da atualidade das práticas, alternativas e estratégias cotidianamente manejadas pelas famílias e comunidades, em diferentes escalas, para a manutenção das condições de reprodução social e permanência nos territórios no contexto de fortes restrições. Deriva desse esforço o encontro com novas técnicas e a consolidação de iniciativas comunitárias para produção e comercialização do excedente produtivo a partir da configuração de uma rede de alianças. Paralelamente, observa-se o que se denomina \"2ª fase da regulação\" das normativas no Estado de São Paulo que consolida avanços relevantes na regulação das práticas. Na arena oficial da política, verifica-se o acionamento de direitos no âmbito do conflito, em busca de facilitar o diálogo com o Estado. É à luz dessas considerações que o trabalho aborda o processo de reconhecimento identitário das comunidades quilombolas e o recente processo de patrimonialização do Sistema Agrícola Tradicional das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira como patrimônio nacional imaterial pelo Iphan. Por fim, procura analisar como o \"patrimônio cultural imaterial\" é ou será mobilizado pelas comunidades, no cotidiano dos territórios e em outros espaços da disputa política, apontando desdobramentos da conquista que podem, ou não, gerar mudanças concretasThe primary objective of this master\'s thesis is to analyze the conflict between different territorialities involving quilombola agricultural and natural production within the context of common territories overlapped by Protected Areas. These conflicts, which stem from a historical process of prohibition and subsequent regulation of practices, become evident – though not limited to – the mandatory simplified licensing of farming plots, through which the so-called \"authorization\" to cultivate can be obtained. This scenario sets up an opposition between communities with their socially defined territoriality, on one side, and the State, particularly the Department of the Environment, on the other, representing a hegemonic or imposing territoriality based on the logic of private property. Through a discussion of concepts such as territory, territoriality, way of life, and identity, this work explores how the presence of coivara (slash-and-burn) farming practices currently manifests in the territories of Ribeirão Grande-Terra Seca and Nhunguara. This is done through the observation and analysis of the methods, frequency, and significance with which the technique is employed daily, along with an exploration of the relationships and meanings still associated with this form of agricultural production. From this foundation, the thesis discusses aspects of quilombola territoriality in the face of the ongoing conflict, analyzing the diversity of agro-environments and their \"movements\" – which include migrations, transits, and displacements – within the historical context of quilombola territorialization in the Vale do Ribeira. These elements connect with the practice of itinerant farming by the ancestors, revealing the origins of the current conflict. The study then shifts to analyze the contemporary practices, alternatives, and strategies employed by families and communities, on various scales, to maintain social reproduction and territorial permanence in the face of significant restrictions. This effort leads to the discovery of new techniques and the consolidation of community initiatives for the production and commercialization of surplus goods, through the formation of a network of alliances. Simultaneously, the study observes what is termed the \"2nd phase of regulation\" in São Paulo State, which marks significant advances in the regulation of practices. In the official political arena, rights are activated within the conflict to facilitate dialogue with the State. Against this backdrop, the thesis examines the process of identity recognition among quilombola communities and the recent designation of the Traditional Agricultural System of Quilombola Communities in the Vale do Ribeira as intangible national heritage by IPHAN. Finally, it seeks to analyze how \"intangible cultural heritage\" is or will be mobilized by communities, both in the daily life of their territories and in broader political arenas, highlighting potential outcomes of this recognition that may or may not lead to tangible changesBiblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USPMarques, Marta Inez MedeirosBaptista, Tainá Holanda Caldeira2024-09-20info:eu-repo/semantics/publishedVersioninfo:eu-repo/semantics/masterThesisapplication/pdfhttps://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8136/tde-02122024-130213/reponame:Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USPinstname:Universidade de São Paulo (USP)instacron:USPLiberar o conteúdo para acesso público.info:eu-repo/semantics/openAccesspor2024-12-02T15:17:02Zoai:teses.usp.br:tde-02122024-130213Biblioteca Digital de Teses e Dissertaçõeshttp://www.teses.usp.br/PUBhttp://www.teses.usp.br/cgi-bin/mtd2br.plvirginia@if.usp.br|| atendimento@aguia.usp.br||virginia@if.usp.bropendoar:27212024-12-02T15:17:02Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP - Universidade de São Paulo (USP)false
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description A presente dissertação tem como objetivo analisar o conflito entre distintas territorialidades envolvendo a produção quilombola da agricultura e da natureza no contexto de territórios de uso comum sobrepostos por Unidades de Conservação. Tais conflitos, que resultam do histórico processo de proibição e, posteriormente, regulação das práticas, se evidenciam – mas não se encerram – na obrigatoriedade do licenciamento simplificado das roças, por meio do qual é possível obter a chamada \"autorização\" para plantar. Assim, opõem as comunidades com sua territorialidade socialmente definida, de um lado; e o Estado, em especial a Secretaria de Meio Ambiente, do outro, representantes de uma territorialidade hegemônica ou impositiva, baseada na lógica da propriedade privada. A partir da discussão dos conceitos de território, territorialidade, modo de vida e identidade, o trabalho aborda o modo como se revela, atualmente, a presença de roças de coivara nos territórios de Ribeirão Grande-Terra Seca e Nhunguara, por meio da observação e discussão do modo, frequência e importância com que a técnica é cotidianamente empregada; atrelada à análise de relações e sentidos associados à produção agrícola que povoam, ainda hoje, esse fazer. Partindo desse esforço, intenta discutir aspectos da territorialidade quilombola frente ao conflito vivenciado, através da análise da diversidade de agroambientes e de seus \"movimentos\" – que incluem andanças, trânsitos e deslocamentos –, analisados em diálogo com elementos históricos da territorialização quilombola no Vale do Ribeira que se conectam com a realização das roças em regime de itinerância durante o tempo dos antigos, revelando origens do conflito atual. Na sequência, o trabalho se dedica à análise da atualidade das práticas, alternativas e estratégias cotidianamente manejadas pelas famílias e comunidades, em diferentes escalas, para a manutenção das condições de reprodução social e permanência nos territórios no contexto de fortes restrições. Deriva desse esforço o encontro com novas técnicas e a consolidação de iniciativas comunitárias para produção e comercialização do excedente produtivo a partir da configuração de uma rede de alianças. Paralelamente, observa-se o que se denomina \"2ª fase da regulação\" das normativas no Estado de São Paulo que consolida avanços relevantes na regulação das práticas. Na arena oficial da política, verifica-se o acionamento de direitos no âmbito do conflito, em busca de facilitar o diálogo com o Estado. É à luz dessas considerações que o trabalho aborda o processo de reconhecimento identitário das comunidades quilombolas e o recente processo de patrimonialização do Sistema Agrícola Tradicional das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira como patrimônio nacional imaterial pelo Iphan. Por fim, procura analisar como o \"patrimônio cultural imaterial\" é ou será mobilizado pelas comunidades, no cotidiano dos territórios e em outros espaços da disputa política, apontando desdobramentos da conquista que podem, ou não, gerar mudanças concretas
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