Saúde indígena em retomada: limites e possibilidades da atenção diferenciada para a construção de uma ecologia de cuidados

Detalhes bibliográficos
Ano de defesa: 2025
Autor(a) principal: Diniz, Bruna Manna Starling
Orientador(a): Não Informado pela instituição
Banca de defesa: Não Informado pela instituição
Tipo de documento: Dissertação
Tipo de acesso: Acesso aberto
Idioma: por
Instituição de defesa: Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USP
Programa de Pós-Graduação: Não Informado pela instituição
Departamento: Não Informado pela instituição
País: Não Informado pela instituição
Palavras-chave em Português:
Link de acesso: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/6/6143/tde-27012026-173148/
Resumo: O Estado brasileiro está estruturado em bases coloniais e, apesar de representar um avanço importante para o direito à saúde, o Sistema Único de Saúde (SUS) enquanto parte desta estrutura ainda reproduz diferentes formas de colonialidade. A colonialidade do saber ocupa papel central ao deslegitimar e silenciar os conhecimentos produzidos pelos povos indígenas. Nesse cenário, a proposta de uma Ecologia de Saberes, quando transposta para uma Ecologia de Cuidados, oferece a possibilidade de ampliar a noção hegemônica de saúde. As políticas públicas voltadas à saúde indígena, como o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SASI) e a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI), representam avanços importantes, mas enfrentam obstáculos estruturais e institucionais para efetivar a atenção diferenciada e superar os efeitos da colonialidade. Essa pesquisa tem como objetivo analisar os saberes e práticas indígenas Guarani Mbyá da Terra Indígena (TI) Jaraguá sobre saúde, doença, cura e cuidado em diálogo com o SUS, a fim de captar pistas sobre como seria uma atenção diferenciada adequada e aderente às reais necessidades do povo Guarani. para então investigar os limites e possibilidades deste diálogo para a construção de uma Ecologia de Saberes e do Cuidado. Foi utilizada a metodologia qualitativa, com observação participante e entrevistas em profundidade incluindo usuários do SUS e trabalhadores indígenas da Unidade Básica de Saúde (UBS) Aldeia Jaraguá Kwarãy Djekupé. Os resultados indicam que elementos fundamentais do nhanderekó -- como dança, cultivo da roça, construção da casa e a vida no território -- aparecem como estruturantes para a saúde e bem-estar. Foram identificados desafios como insegurança alimentar, precariedade do saneamento e habitacional, múltiplas violências e vulnerabilidades associadas à proximidade urbana, como alcoolismo e infecções respiratórias. A atenção diferenciada se manifesta por meio da atuação dos Agentes Indígenas de Saúde e Saneamento, de fluxos específicos para a rede de alta complexidade e da sensibilidade de alguns profissionais em relação às práticas Guarani. Contudo, limitações estruturais, terceirização de serviços e falta de diálogo interinstitucional comprometem sua efetividade, ainda que existam pontos de contato e esforços de profissionais indígenas e não indígenas comprometidos em construir uma atenção diferenciada. A Ecologia de Cuidados só se fortalece quando, além do diálogo entre saberes, há reconhecimento da autonomia e legitimação das práticas indígenas. Entre os Guarani, a luta pela saúde está inseparavelmente ligada à luta pela terra, e a atuação do SUS, de forma isolada, não é capaz de promover cuidado sem considerar essa dimensão e as determinações sociais que produzem a precariedade da vida. Promover saúde, portanto, significa também defender o direito ao território e enfrentar as condições que vulnerabilizam a comunidade, o que exige que o SUS avance em uma perspectiva descolonizadora, capaz de reconhecer e respeitar as cosmovisões Guarani e seus modos próprios de compreender saúde, doença e cuidado.
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As políticas públicas voltadas à saúde indígena, como o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SASI) e a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI), representam avanços importantes, mas enfrentam obstáculos estruturais e institucionais para efetivar a atenção diferenciada e superar os efeitos da colonialidade. Essa pesquisa tem como objetivo analisar os saberes e práticas indígenas Guarani Mbyá da Terra Indígena (TI) Jaraguá sobre saúde, doença, cura e cuidado em diálogo com o SUS, a fim de captar pistas sobre como seria uma atenção diferenciada adequada e aderente às reais necessidades do povo Guarani. para então investigar os limites e possibilidades deste diálogo para a construção de uma Ecologia de Saberes e do Cuidado. Foi utilizada a metodologia qualitativa, com observação participante e entrevistas em profundidade incluindo usuários do SUS e trabalhadores indígenas da Unidade Básica de Saúde (UBS) Aldeia Jaraguá Kwarãy Djekupé. Os resultados indicam que elementos fundamentais do nhanderekó -- como dança, cultivo da roça, construção da casa e a vida no território -- aparecem como estruturantes para a saúde e bem-estar. Foram identificados desafios como insegurança alimentar, precariedade do saneamento e habitacional, múltiplas violências e vulnerabilidades associadas à proximidade urbana, como alcoolismo e infecções respiratórias. A atenção diferenciada se manifesta por meio da atuação dos Agentes Indígenas de Saúde e Saneamento, de fluxos específicos para a rede de alta complexidade e da sensibilidade de alguns profissionais em relação às práticas Guarani. Contudo, limitações estruturais, terceirização de serviços e falta de diálogo interinstitucional comprometem sua efetividade, ainda que existam pontos de contato e esforços de profissionais indígenas e não indígenas comprometidos em construir uma atenção diferenciada. A Ecologia de Cuidados só se fortalece quando, além do diálogo entre saberes, há reconhecimento da autonomia e legitimação das práticas indígenas. Entre os Guarani, a luta pela saúde está inseparavelmente ligada à luta pela terra, e a atuação do SUS, de forma isolada, não é capaz de promover cuidado sem considerar essa dimensão e as determinações sociais que produzem a precariedade da vida. Promover saúde, portanto, significa também defender o direito ao território e enfrentar as condições que vulnerabilizam a comunidade, o que exige que o SUS avance em uma perspectiva descolonizadora, capaz de reconhecer e respeitar as cosmovisões Guarani e seus modos próprios de compreender saúde, doença e cuidado.The Brazilian State is structured on colonial foundations and, although the Unified Health System (Sistema Único de Saúde, SUS) represents an important advancement for the right to health, it still reproduces different forms of coloniality. The coloniality of knowledge plays a central role by delegitimizing and silencing the knowledge produced by Indigenous peoples. In this context, the proposal of an Ecology of Knowledges, when translated into an Ecology of Care, offers the possibility of expanding the hegemonic notion of health. Public policies aimed at Indigenous health, such as the Indigenous Health Care Subsystem (Subsistema de Atenção à Saúde Indígena, SASI) and the National Policy for the Health Care of Indigenous Peoples (Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas, PNASPI), represent significant progress, yet face structural and institutional obstacles in implementing differentiated care and overcoming the effects of coloniality. This research examines the knowledge and practices of the Guarani Mbyá people from the Jaraguá Indigenous Land (Terra Indígena, TI) concerning health, illness, healing, and care, in their interactions with the SUS, with the aim of identifying insights into what constitutes adequate differentiated care and how it may effectively address the actual needs of the Guarani community. It further investigates the limits and possibilities of such exchanges for building an Ecology of Knowledges and Care. A qualitative methodology was employed, including participant observation and in-depth interviews with SUS users and Indigenous health workers from the Basic Health Unit (Unidade Básica de Saúde, UBS) of Aldeia Jaraguá Kwarãy Djekupé. The results indicate that fundamental elements of nhanderekó -- such as dance, crop cultivation, house construction, and life in the territory -- emerge as structuring aspects of health and well-being. Challenges identified include food insecurity, inadequate sanitation and housing conditions, and vulnerabilities associated with urban proximity, such as alcoholism and respiratory infections. Differentiated care is expressed through the work of Indigenous Health and Sanitation Agents, the establishment of specific referral pathways within the high-complexity network, and the attentiveness of certain professionals to Guarani practices. However, structural limitations, outsourcing of services, and insufficient inter-institutional coordination undermine its effectiveness, even though there are points of convergence and efforts by Indigenous and non-Indigenous professionals committed to building differentiated care. The Ecology of Care is strengthened only when, in addition to the exchange of knowledges, there is genuine recognition of Indigenous autonomy and validation of their practices. For the Guarani, the pursuit of health is inseparably tied to the defense of their land, and the SUS, on its own, cannot ensure effective care without addressing this dimension and the broader social determinants that perpetuate precarious living conditions. Promoting health, therefore, also means defending the right to territory and addressing the conditions that make the community vulnerable, requiring the SUS to advance toward a decolonizing perspective capable of recognizing and respecting Guarani worldviews and their own ways of understanding health, illness, and care.Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USPLouvison, Marilia Cristina PradoDiniz, Bruna Manna Starling2025-11-03info:eu-repo/semantics/publishedVersioninfo:eu-repo/semantics/masterThesisapplication/pdfhttps://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/6/6143/tde-27012026-173148/reponame:Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USPinstname:Universidade de São Paulo (USP)instacron:USPLiberar o conteúdo para acesso público.info:eu-repo/semantics/openAccesspor2026-01-27T19:38:02Zoai:teses.usp.br:tde-27012026-173148Biblioteca Digital de Teses e Dissertaçõeshttp://www.teses.usp.br/PUBhttp://www.teses.usp.br/cgi-bin/mtd2br.plvirginia@if.usp.br|| atendimento@aguia.usp.br||virginia@if.usp.bropendoar:27212026-01-27T19:38:02Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP - Universidade de São Paulo (USP)false
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