Perigosos entre os perigosos: a atuação da justiça criminal na internação de pessoas usuárias de drogas nos hospitais de custódia e tratamento psiquiátrico de São Paulo (2010-2021)

Detalhes bibliográficos
Ano de defesa: 2024
Autor(a) principal: Amaral, Mariana Celano de Souza
Orientador(a): Não Informado pela instituição
Banca de defesa: Não Informado pela instituição
Tipo de documento: Dissertação
Tipo de acesso: Acesso aberto
Idioma: por
Instituição de defesa: Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USP
Programa de Pós-Graduação: Não Informado pela instituição
Departamento: Não Informado pela instituição
País: Não Informado pela instituição
Palavras-chave em Português:
Link de acesso: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8132/tde-27012025-100519/
Resumo: Esta pesquisa parte da tentativa de compreender como e por que a justiça criminal do Estado de São Paulo tem determinado a internação de pessoas usuárias de drogas nos hospitais de custódia e tratamento psiquiátrico, anteriormente denominados manicômios judiciários. A partir do conceito de governamentalidade neoliberal, desenvolvido por Foucault (2008), a pesquisa busca situar essa transformação recente nos hospitais de custódia, que passaram a internar mais pessoas usuárias de drogas, num marco mais amplo de transformações pelas quais passaram o sistema de justiça criminal e o sistema de saúde no Brasil. A pesquisa adotou uma metodologia qualitativa, que combinou análise de documentos judiciais com a realização de entrevistas. Foram analisadas 100 decisões do TJ-SP de 2010, 2011, 2020 e 2021. Além disso, analisou-se a transcrição de nove entrevistas realizadas com magistrados do TJ-SP da área criminal em 2010. Por fim, foram realizadas treze novas entrevistas em 2023: dez com magistrados(as) e três com outros operadores do direito. A partir de uma perspectiva etnográfica, identificou-se diferenças e semelhanças nas decisões e posturas dos dois períodos, um no início dos anos 2010 e outro no início dos anos 2020. A investigação tentou mapear os deslocamentos nas políticas de drogas, especialmente àquelas direcionadas ao uso de drogas, que atravessaram a prática do Judiciário no marco temporal analisado. Com atenção à maneira como parte dos magistrados construiu e mobilizou determinadas categorias nesses períodos, a pesquisa argumenta que nesse tempo passou a circular, dentro do judiciário paulista, uma interpretação específica da noção de dependência química, que a aproxima de uma doença mental. A pesquisa também sustenta que, no mesmo período, houve no Estado de São Paulo um reposicionamento dos hospitais de custódia como locais de tratamento considerados adequados para certos casos. O trabalho investiga como tal entendimento sobre essas instituições têm se chocado, desde 2023, com a Política Antimanicomial do Judiciário. A pesquisa também busca mapear os elementos que configuram a figura do dependente-infrator nas decisões analisadas. Os documentos apresentam sujeitos incuráveis e incontroláveis, o que também revela como foi construída no judiciário de São Paulo, ao longo dos anos, uma concepção específica e racializada sobre quem é o dependente químico. A investigação explora, dessa maneira, os documentos judiciários enquanto artefatos atravessados por certos contextos e também como produtores de determinadas noções. Explora também como as transformações nas práticas da justiça criminal e do sistema de saúde estão imbricadas e podem ser pensadas como pontos que compõem um mesmo circuito de governo das populações pretas, pardas e pobres de São Paulo
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A partir do conceito de governamentalidade neoliberal, desenvolvido por Foucault (2008), a pesquisa busca situar essa transformação recente nos hospitais de custódia, que passaram a internar mais pessoas usuárias de drogas, num marco mais amplo de transformações pelas quais passaram o sistema de justiça criminal e o sistema de saúde no Brasil. A pesquisa adotou uma metodologia qualitativa, que combinou análise de documentos judiciais com a realização de entrevistas. Foram analisadas 100 decisões do TJ-SP de 2010, 2011, 2020 e 2021. Além disso, analisou-se a transcrição de nove entrevistas realizadas com magistrados do TJ-SP da área criminal em 2010. Por fim, foram realizadas treze novas entrevistas em 2023: dez com magistrados(as) e três com outros operadores do direito. A partir de uma perspectiva etnográfica, identificou-se diferenças e semelhanças nas decisões e posturas dos dois períodos, um no início dos anos 2010 e outro no início dos anos 2020. A investigação tentou mapear os deslocamentos nas políticas de drogas, especialmente àquelas direcionadas ao uso de drogas, que atravessaram a prática do Judiciário no marco temporal analisado. Com atenção à maneira como parte dos magistrados construiu e mobilizou determinadas categorias nesses períodos, a pesquisa argumenta que nesse tempo passou a circular, dentro do judiciário paulista, uma interpretação específica da noção de dependência química, que a aproxima de uma doença mental. A pesquisa também sustenta que, no mesmo período, houve no Estado de São Paulo um reposicionamento dos hospitais de custódia como locais de tratamento considerados adequados para certos casos. O trabalho investiga como tal entendimento sobre essas instituições têm se chocado, desde 2023, com a Política Antimanicomial do Judiciário. A pesquisa também busca mapear os elementos que configuram a figura do dependente-infrator nas decisões analisadas. Os documentos apresentam sujeitos incuráveis e incontroláveis, o que também revela como foi construída no judiciário de São Paulo, ao longo dos anos, uma concepção específica e racializada sobre quem é o dependente químico. A investigação explora, dessa maneira, os documentos judiciários enquanto artefatos atravessados por certos contextos e também como produtores de determinadas noções. Explora também como as transformações nas práticas da justiça criminal e do sistema de saúde estão imbricadas e podem ser pensadas como pontos que compõem um mesmo circuito de governo das populações pretas, pardas e pobres de São PauloThis research seeks to understand how and why the criminal justice system of the State of São Paulo has been ordering the hospitalization of drug users in custodial psychiatric hospitals, previously known as judicial asylums. Based on the concept of neoliberal governmentality developed by Foucault (2008), the research aims to place this recent transformation in custodial psychiatric hospitals, which have been increasingly admitting drug users, within a broader framework of changes affecting both the criminal justice system and the healthcare system in Brazil. The study adopted a qualitative methodology, combining the analysis of judicial documents with interviews. A total of 100 decisions from the São Paulo Court of Justice (TJ-SP) were analyzed, from the years 2010, 2011, 2020, and 2021. Additionally, transcripts of nine interviews conducted in 2010 with criminal magistrates from TJ-SP were reviewed. Finally, thirteen new interviews were conducted in 2023: ten with magistrates and three with other legal professionals. From an ethnographic perspective, the research identified similarities and differences in decisions and approaches between the two periods, one from the early 2010s and the other from the early 2020s. The investigation mapped the shifts in drug policies, especially those targeting drug use, that have shaped judicial practices within the timeframe under analysis. Focusing on how some magistrates have constructed and mobilized certain categories during these periods, the research argues that over time, a specific interpretation of the concept of chemical dependenceequating it with mental illnesshas circulated within São Paulo\'s judiciary. The research also posits that, during this period, there has been a repositioning of custodial psychiatric hospitals in São Paulo as appropriate treatment facilities for certain cases. The study examines how this understanding of these institutions has clashed, since 2023, with the Judiciary\'s Anti-Asylum Policy. Additionally, the research maps out the elements that shape the figure of the criminal addict in the analyzed rulings. These documents portray individuals as incurable and uncontrollable, revealing how the São Paulo judiciary has developed a specific and racialized conception of who the drug-addict individual is. In this way, the investigation explores judicial documents as artifacts influenced by certain contexts and as producers of specific notions. It also examines how changes in criminal justice and healthcare practices are intertwined and can be understood as parts of a broader circuit of governance over Black and poor populations in São PauloBiblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USPMinhoto, Laurindo DiasAmaral, Mariana Celano de Souza2024-10-31info:eu-repo/semantics/publishedVersioninfo:eu-repo/semantics/masterThesisapplication/pdfhttps://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8132/tde-27012025-100519/reponame:Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USPinstname:Universidade de São Paulo (USP)instacron:USPLiberar o conteúdo para acesso público.info:eu-repo/semantics/openAccesspor2025-01-27T12:19:02Zoai:teses.usp.br:tde-27012025-100519Biblioteca Digital de Teses e Dissertaçõeshttp://www.teses.usp.br/PUBhttp://www.teses.usp.br/cgi-bin/mtd2br.plvirginia@if.usp.br|| atendimento@aguia.usp.br||virginia@if.usp.bropendoar:27212025-01-27T12:19:02Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP - Universidade de São Paulo (USP)false
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