Violência, sofrimento e suas determinações sociais: a constituição do trauma psicossocial entre a população em situação de rua

Detalhes bibliográficos
Ano de defesa: 2025
Autor(a) principal: Rosa, Jéssica Rodrigues
Orientador(a): Não Informado pela instituição
Banca de defesa: Não Informado pela instituição
Tipo de documento: Tese
Tipo de acesso: Acesso aberto
Idioma: por
Instituição de defesa: Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USP
Programa de Pós-Graduação: Não Informado pela instituição
Departamento: Não Informado pela instituição
País: Não Informado pela instituição
Palavras-chave em Português:
Link de acesso: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47134/tde-17032026-100434/
Resumo: A população em situação de rua tem sido historicamente submetida à violência em suas mais diversas expressões físicas, psicológicas e simbólicas. Como resultado desta violência estrutural, em grande parte incorporada à ordem social vigente, desenvolvem-se formas de sofrimento que materializam as relações desumanizadoras às quais estes indivíduos estão submetidos. Entre elas, encontram-se o dano e o trauma psicossocial, que partem de teorizações inicialmente desenvolvidas pelo psicólogo salvadorenho Ignácio Martín-Baró e foram posteriormente ampliadas por diversos outros estudiosos latino-americanos. Por meio desta tese de doutorado, buscamos investigar o impacto da violência e do preconceito para a subjetividade de pessoas em situação de rua e sua repercussão no desenvolvimento de dano e trauma psicossocial; identificar possibilidades de resistência ou superação deste sofrimento; e finalmente, objetivamos sistematizar elementos da obra de Lev Vygotsky que pudessem contribuir na análise dos dados obtidos. Utilizamos o aporte teórico-metodológico da Psicologia Histórico-cultural, com a realização de entrevistas individuais como técnica de coleta de dados, conduzida com quinze indivíduos em situação de rua da cidade de São Paulo. A análise dos dados foi realizada por meio da identificação de núcleos de significação do discurso. A partir da análise dos dados obtidos, identificamos que experiências de violência, em suas diversas expressões física, verbal, institucional e simbólica são amplamente presentes no cotidiano da população em situação de rua. Segundo os relatos de nossos participantes, frequentemente a vivência da violência - de classe, de gênero, racial, familiar e institucional se inicia mesmo antes da chegada à situação de rua, caracterizando um contexto repleto de situações pré-traumáticas que acompanham as definições de Martín-Baró e reforçam a determinação material e objetiva associada aos desdobramentos subjetivos destas experiências. A partir dos dados, também foram identificadas cinco expressões concretas de violência referidas pelos participantes e associadas à situação de rua: violência física; preconceito e humilhação social; hiperexposição e insegurança; isolamento social, familiar, afetivo e institucional; e desassistência e inacessibilidade dos dispositivos públicos. Para cada uma destas expressões, foram identificadas possíveis afetações associadas como a humilhação, vergonha, estresse, angústia e revolta e as respostas viabilizadas diante delas como o isolamento social, uso abusivo de substâncias, resignação fatalista e atos de agressividade. Adicionalmente, identificamos possíveis articulações entre os dados obtidos e conceitos centrais à Psicologia vigotskiana como os de apropriação/objetivação, crise e autocontrole da conduta os quais, acreditamos, podem auxiliar na formulação de possíveis estratégias terapêuticas direcionadas a esta população. Concluímos que as afetações identificadas entre os participantes se configuram como exemplos de dano psicossocial desencadeado por experiências estreitamente vinculadas à situação de rua, considerando sua associação com a exposição prolongada e contínua destes indivíduos a expressões diversas de violência, humilhação, isolamento social e desassistência institucional. Apesar dos limites inerentes a esta pesquisa considerando sua amostra e desenho, acreditamos ser possível atestar que a violência tão presente nas vivências de nossos participantes reflete aquela experienciada por parte significativa das pessoas em situação de rua, e pode estar potencialmente vinculada à ocorrência de dano psicossocial entre esta população.
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Por meio desta tese de doutorado, buscamos investigar o impacto da violência e do preconceito para a subjetividade de pessoas em situação de rua e sua repercussão no desenvolvimento de dano e trauma psicossocial; identificar possibilidades de resistência ou superação deste sofrimento; e finalmente, objetivamos sistematizar elementos da obra de Lev Vygotsky que pudessem contribuir na análise dos dados obtidos. Utilizamos o aporte teórico-metodológico da Psicologia Histórico-cultural, com a realização de entrevistas individuais como técnica de coleta de dados, conduzida com quinze indivíduos em situação de rua da cidade de São Paulo. A análise dos dados foi realizada por meio da identificação de núcleos de significação do discurso. A partir da análise dos dados obtidos, identificamos que experiências de violência, em suas diversas expressões física, verbal, institucional e simbólica são amplamente presentes no cotidiano da população em situação de rua. Segundo os relatos de nossos participantes, frequentemente a vivência da violência - de classe, de gênero, racial, familiar e institucional se inicia mesmo antes da chegada à situação de rua, caracterizando um contexto repleto de situações pré-traumáticas que acompanham as definições de Martín-Baró e reforçam a determinação material e objetiva associada aos desdobramentos subjetivos destas experiências. A partir dos dados, também foram identificadas cinco expressões concretas de violência referidas pelos participantes e associadas à situação de rua: violência física; preconceito e humilhação social; hiperexposição e insegurança; isolamento social, familiar, afetivo e institucional; e desassistência e inacessibilidade dos dispositivos públicos. Para cada uma destas expressões, foram identificadas possíveis afetações associadas como a humilhação, vergonha, estresse, angústia e revolta e as respostas viabilizadas diante delas como o isolamento social, uso abusivo de substâncias, resignação fatalista e atos de agressividade. Adicionalmente, identificamos possíveis articulações entre os dados obtidos e conceitos centrais à Psicologia vigotskiana como os de apropriação/objetivação, crise e autocontrole da conduta os quais, acreditamos, podem auxiliar na formulação de possíveis estratégias terapêuticas direcionadas a esta população. Concluímos que as afetações identificadas entre os participantes se configuram como exemplos de dano psicossocial desencadeado por experiências estreitamente vinculadas à situação de rua, considerando sua associação com a exposição prolongada e contínua destes indivíduos a expressões diversas de violência, humilhação, isolamento social e desassistência institucional. Apesar dos limites inerentes a esta pesquisa considerando sua amostra e desenho, acreditamos ser possível atestar que a violência tão presente nas vivências de nossos participantes reflete aquela experienciada por parte significativa das pessoas em situação de rua, e pode estar potencialmente vinculada à ocorrência de dano psicossocial entre esta população.The homeless population has historically been victim of physical, psychological and symbolic violence. As a product of this structural violence that is, in great part, already embedded in our current social order, different instances of suffering may emerge, embodying the dehumanizing relationships prevalent in the lives of homeless people. The concepts of psychosocial damage and trauma, originally proposed by Salvadoran psychologist Ignacio Martín-Baró and later expanded by other Latin-American scholars, synthesize these dynamics. Through this Doctoral thesis, we aimed to investigate the impact of violence and prejudice on the subjectivity of homeless people, and its influence in the development of damage and psychosocial trauma; to identify strategies of resilience or overcoming of that suffering; and, additionally, to systematize elements from Lev Vygotskys body of work that might contribute to the analysis of the obtained data. This study employed the theoretical framework of the Historical-Cultural Psychology, utilizing interviews with fifteen homeless individuals from the city of São Paulo as the data collection method. For data analysis, the identification of nuclei of meanings from the discourse was utilized. The data obtained showed that experiences of violence, with varied expressions physical, verbal, institutional and symbolic are very common in the daily lives of the homeless. According to the accounts of our subjects, the experience of violence be it linked to class, gender, race, family or institutions often begins before homelessness, which characterizes a background filled with pre-traumatic situations that follow the definitions of Martín-Baró and strengthen the material and objective determination linked to the subjective consequences of those experiences. Through the data, following the accounts of the subjects and their experiences with homelessness, we were able to identify five material expressions of violence: physical violence; prejudice and social humiliation; hyper-exposure and insecurity; isolation from society, family, affections and institutions; and public system abandonment and inaccessibility. For each of these expressions, we identified possible affectations linked to their manifestation like humiliation, shame, stress, anguish and outrage and also viable responses to them like social isolation, abusive use of substances, fatalist resignation and acts of aggression. Additionally, we were able to identify possible articulations between the data and key concepts from vigotskian Psychology like those of appropriation/objectivization, crisis and self-control which, in our view, may help shaping therapeutic strategies directed to this population. In conclusion, we believe the affectations identified through the subjects accounts are examples of psychosocial damage triggered by experiences directly associated to homelessness, considering its connection with the individuals extended and continuous exposure to diverse manifestations of violence, humiliation, social isolation and institutional abandonment. Although some limitations linked to the design and sample of this study can be appointed, we believe it to be possible to conclude that the violence from our subjects experiences reflects the violence that affects a great part of the homeless population, which may be potentially linked to the occurrence of psychosocial damage among this group of individuals.Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USPEuzébios Filho, AntonioMartin, Sueli Terezinha FerreroRosa, Jéssica Rodrigues2025-10-30info:eu-repo/semantics/publishedVersioninfo:eu-repo/semantics/doctoralThesisapplication/pdfhttps://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47134/tde-17032026-100434/reponame:Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USPinstname:Universidade de São Paulo (USP)instacron:USPLiberar o conteúdo para acesso público.info:eu-repo/semantics/openAccesspor2026-03-18T18:39:02Zoai:teses.usp.br:tde-17032026-100434Biblioteca Digital de Teses e Dissertaçõeshttp://www.teses.usp.br/PUBhttp://www.teses.usp.br/cgi-bin/mtd2br.plvirginia@if.usp.br|| atendimento@aguia.usp.br||virginia@if.usp.bropendoar:27212026-03-18T18:39:02Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP - Universidade de São Paulo (USP)false
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