Ensaios sobre o feminino e a abjeção na ob-scena contemporânea

Detalhes bibliográficos
Ano de defesa: 2021
Autor(a) principal: Leite, Janaina Fontes
Orientador(a): Não Informado pela instituição
Banca de defesa: Não Informado pela instituição
Tipo de documento: Tese
Tipo de acesso: Acesso aberto
Idioma: por
Instituição de defesa: Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USP
Programa de Pós-Graduação: Não Informado pela instituição
Departamento: Não Informado pela instituição
País: Não Informado pela instituição
Palavras-chave em Português:
Link de acesso: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27156/tde-31082021-212101/
Resumo: O presente trabalho toma por mote central a relação entre o feminino e a abjeção para pensar os processos de identificação e recusa em relação a uma certa \"mascarada feminina\", cujos mecanismos de construção nos propusemos a investigar. Consonante com uma das principais referências teóricas deste trabalho, a autora Julia Kristeva, defendemos que o que se compreende como feminino no Ocidente deriva do mito materno virginal, que funda a cristandade e cinde, por dois milênios, a mulher entre a santa e a puta, a mãe e a \"outras\". Aparente dicotomia, mas que esconde o seu verdadeiro dispositivo, isso é, ser a dupla face, inseparável, de um único e mesmo ideal: a feminilidade. Como figura nevrálgica, destacamos o papel da \"mãe\" no processo de clivagem, tanto do ponto de vista social quanto psíquico, do que entendemos por feminino. De um lado, retraçamos de que forma o capitalismo, a igreja e a moral burguesa vão domesticar a mulher em nome da divisão sexual do trabalho, que vai ter na função \"mãe\" uma importante mais valia invisibilizada, naturalizada pelo \"íntimo\", \"privado\", \"afetivo\", sublinhando o esforço de teóricas como Silvia Federici de politizar essa \"função\" e ressignificar sua importância na estrutura social, política e econômica, justamente, reintegrando o \"íntimo\" às demais instancias consideradas públicas. De outro, seguimos uma linhagem mais cultural e antropológica, investigando, apoiados sobretudo no pensamento de Kristeva, a mítica de Maria dentro do cristianismo, como o protótipo de um feminino virginal, abnegado, ao mesmo tempo que todo poderoso ao ser sagrado \"rainha\" entre todas as \"outras\" mulheres. Cruzando estas perspectivas, abordamos a figura da mãe, primeiramente na obra de Angélica Liddell, no cruzamento entre uma mãe real e uma mãe arcaica, que nos esforçamos por elucidar à luz do conceito de abjeção Kristeva e de matricídio de Melanie Klein. Nossa hipótese é de que matar a mãe assume a dupla e complexa função: deslocamento das representações do feminino de um lado - como vemos na singular dialética misógina da obra de Liddell - e, engendramento de modos de ressurreição de si através do gesto criador, de outro. Sob essa ótica, o matricídio, em seus vetores de identificação e repulsa, veio a ser o mote dos processos autorais que compõem o corpo principal deste projeto: Feminino abjeto 1, Feminino abjeto 2 e Stabat Mater. Tomando as duas primeiras como espaço laboratorial e a última como um coroamento do percurso no qual a autora desta pesquisa divide a cena com sua mãe verdadeira e um ator pornô, buscamos, a partir destes trabalhos, desenvolver a ideia de uma ob-scena contemporânea verticalizando a discussão sobre o real já iniciada no mestrado, mas agora migrando de um real documental para um real obsceno. Nesse sentido, o epílogo que encerra este trabalho, que desde o princípio se enuncia de forma autobiográfica - mais saga do que tese -, encontra seu desfecho obsceno em uma zona limítrofe que colapsa qualquer pretensa dicotomia entre arte e vida. Profanação e parresía, mais do que conceitos, assumem a dimensão de gestos que, somados ao repertório da psicanálise, fornecem as bases para uma escrita implicada que se propõe a prescrutar a performance cultural e os arranjos psíquicos de um feminino abjeto: um feminino em crise.
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Como figura nevrálgica, destacamos o papel da \"mãe\" no processo de clivagem, tanto do ponto de vista social quanto psíquico, do que entendemos por feminino. De um lado, retraçamos de que forma o capitalismo, a igreja e a moral burguesa vão domesticar a mulher em nome da divisão sexual do trabalho, que vai ter na função \"mãe\" uma importante mais valia invisibilizada, naturalizada pelo \"íntimo\", \"privado\", \"afetivo\", sublinhando o esforço de teóricas como Silvia Federici de politizar essa \"função\" e ressignificar sua importância na estrutura social, política e econômica, justamente, reintegrando o \"íntimo\" às demais instancias consideradas públicas. De outro, seguimos uma linhagem mais cultural e antropológica, investigando, apoiados sobretudo no pensamento de Kristeva, a mítica de Maria dentro do cristianismo, como o protótipo de um feminino virginal, abnegado, ao mesmo tempo que todo poderoso ao ser sagrado \"rainha\" entre todas as \"outras\" mulheres. Cruzando estas perspectivas, abordamos a figura da mãe, primeiramente na obra de Angélica Liddell, no cruzamento entre uma mãe real e uma mãe arcaica, que nos esforçamos por elucidar à luz do conceito de abjeção Kristeva e de matricídio de Melanie Klein. Nossa hipótese é de que matar a mãe assume a dupla e complexa função: deslocamento das representações do feminino de um lado - como vemos na singular dialética misógina da obra de Liddell - e, engendramento de modos de ressurreição de si através do gesto criador, de outro. Sob essa ótica, o matricídio, em seus vetores de identificação e repulsa, veio a ser o mote dos processos autorais que compõem o corpo principal deste projeto: Feminino abjeto 1, Feminino abjeto 2 e Stabat Mater. Tomando as duas primeiras como espaço laboratorial e a última como um coroamento do percurso no qual a autora desta pesquisa divide a cena com sua mãe verdadeira e um ator pornô, buscamos, a partir destes trabalhos, desenvolver a ideia de uma ob-scena contemporânea verticalizando a discussão sobre o real já iniciada no mestrado, mas agora migrando de um real documental para um real obsceno. Nesse sentido, o epílogo que encerra este trabalho, que desde o princípio se enuncia de forma autobiográfica - mais saga do que tese -, encontra seu desfecho obsceno em uma zona limítrofe que colapsa qualquer pretensa dicotomia entre arte e vida. Profanação e parresía, mais do que conceitos, assumem a dimensão de gestos que, somados ao repertório da psicanálise, fornecem as bases para uma escrita implicada que se propõe a prescrutar a performance cultural e os arranjos psíquicos de um feminino abjeto: um feminino em crise.This work takes, as its central axis, the relation between femininity and abjection, in order to think the processes of identification and refusal with regard to a certain \"feminine mask\", the mechanisms of which we propose to investigate. Echoing one of the main theoretical references of this work, the author Julia Kristeva, we propose that what is comprehended as the feminine in Western societies derives from the maternal virginal myth, rooted in the foundations of Christianity, and which, for the last two thousand years has divided the woman between the saint and the prostitute, the mother and the \"others\". That, we propose, is only an apparent dichotomy, since through division it hides its true dispositive, that is, the two and inseparable faces of the same ideal: femininity. As a central figure, we point out the role of the \"mother\" in this process of cleavage, both socially and psychologically, of what we understand as the feminine. On the on side, we seek to recover the ways in which Capitalism, the Church and bourgeois morality tend to domesticate the woman in the name of a sexual division of labor, which renders invisible, within the figure of the mother, its surplus-value, naturalized by the \"intimate\", the \"private\" and the \"affective\". In this regard we call attention to the valuable works of author Silvia Federici, who seeks to politicize this \"function\" and resignificate its importance in social, political and economical structures by reintegrating the \"intimate\" sphere to the instances of life which are considered \"public\". On the other side, we follow a more anthropological and cultural lineage, represented mostly by the thinking of Kristeva, investigating the myth of Mary in Christianity as a prototype of the virginal and abnegated femininity, being at the same time the powerful figure of the Holy Queen, consecrated among \"other\" women. We cross over both of these perspectives when we reflect upon the figure of the mother, firstly within the works of Spanish playwright Angélica Liddell, where we find the crossing between a real mother and an archaic mother, which we try to elucidate using Kristeva\'s concept of abjection and Melanie Klein\'s concept of matricide. Our hypothesis is that the act of killing the mother takes on a double and complex function: it dislocates itself from the usual representations of the feminine - as we see within the works of Liddell, with its singular misogynous dialectics - and, on the other hand, through the creative gesture, it poses modes of resurrection of oneself. Under this perspective, matricide, with all its dimensions of identification and repulsion, is the main motif in our own authorial and artistic projects, which make up for the main part of this thesis: Feminino abjeto 1, Feminino abjeto 2 and Stabat Mater. Taking the first two ones as a laboratorial space of experimentation and the latter as the apex of this trajectory, in which the author of this research divides the stage with her real mother and a porn actor, we seek to develop the idea of a contemporary ob-scene, taking forth the discussion on the concept of the Real, a reflection we began developing, already, in our previous Masters research. However, we move, now, from a documental real to an obscene one. In this sense, the Epilogue at the end of this work - a work which is, from the start, autobiographical, more of a saga than a thesis - finds its obscene closure within a limit zone that ends up collapsing any pretense dichotomy between art and life. Profanation and parresia, more than concepts, assume here a gesture dimension that, along with a repertoire from Psychoanalysis, seeks to propose the basis for an implicated writing, one that wishes to perscrutate the cultural performance and the psychological arrangements of an abject feminine: a feminine in crisis.Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USPCosta, Felisberto Sabino daLeite, Janaina Fontes2021-05-19info:eu-repo/semantics/publishedVersioninfo:eu-repo/semantics/doctoralThesisapplication/pdfhttps://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27156/tde-31082021-212101/reponame:Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USPinstname:Universidade de São Paulo (USP)instacron:USPLiberar o conteúdo para acesso público.info:eu-repo/semantics/openAccesspor2021-09-01T01:40:02Zoai:teses.usp.br:tde-31082021-212101Biblioteca Digital de Teses e Dissertaçõeshttp://www.teses.usp.br/PUBhttp://www.teses.usp.br/cgi-bin/mtd2br.plvirginia@if.usp.br|| atendimento@aguia.usp.br||virginia@if.usp.bropendoar:27212021-09-01T01:40:02Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP - Universidade de São Paulo (USP)false
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