A ultima ratio : estudos iniciais para uma teoria da justiça como aleatoriedade

Detalhes bibliográficos
Ano de defesa: 2021
Autor(a) principal: Naccache, Andréa Martos
Orientador(a): Não Informado pela instituição
Banca de defesa: Não Informado pela instituição
Tipo de documento: Tese
Tipo de acesso: Acesso aberto
Idioma: por
Instituição de defesa: Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USP
Programa de Pós-Graduação: Não Informado pela instituição
Departamento: Não Informado pela instituição
País: Não Informado pela instituição
Palavras-chave em Português:
Law
Link de acesso: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/2/2139/tde-26092022-104209/
Resumo: Este estudo defende a introdução do conceito de aleatoriedade à discussão teórica da justiça. A justiça guarda sentidos fortes: imparcialidade, igualdade, equidade. É pensada como virtude, vista de uma perspectiva epistêmica, e pode ser associada à verdade, como ordem universal. São sentidos às vezes difíceis de conciliar. Para mostrar que a aleatoriedade é conceito que merece inserção neste campo, propomos uma aproximação primeira entre aleatoriedade e imparcialidade. Na prática, a aleatoriedade já vem sendo considerada expressão matemática de imparcialidade, e portanto de justiça, na abordagem de questões sociais pela estatística. É critério em face do qual se identificam disparidades sociais significativas, em tempos de governança estatística, jurimetria e inteligência artificial. Contém em si algum senso de igualdade: a imparcialidade promovida sob este parâmetro é uma igualdade de tratamento, justiça procedimental, ao menos. O que se mede em face dela é a justiça material, resultado substantivo do procedimento. Isto constatado, outras expressões da aleatoriedade interessam. Uma \"genealogia da aleatoriedade\" é então proposta, como método para relacionarmos expressões deste conceito desde o século 17 e perspectivas da justiça. A aleatoriedade probabilística, distribuição equiprovável a priori, mostra correspondência com a justiça formal. A aleatoriedade estatística, distribuição equiprovável aferida a posteriori, com a justiça material (sempre aproximativa). A algorítmica, enfim, como aleatoriedade no uso e criação de códigos de linguagem, aprofunda e dá rigor ao sentido contemporâneo de justiça epistêmica, sem desatender às demais perspectivas da justiça. Revela-se assim o melhor conceito de aleatoriedade para ser aproximado da justiça. É apresentado em exposição do trabalho de seus formuladores, especialmente de Gregory Chaitin, que a associa à criatividade em sistemas digitais. Subsequentemente, uma \"analítica da justiça\" é o método com que examinamos melhor como a aleatoriedade algorítmica serve de referencial para a justiça não mais apenas como imparcialidade, mas também como igualdade, equidade, virtude, justiça epistêmica ou ordem universal. Cada um desses sentidos enriquece-se e até ganha precisão, à luz da aleatoriedade algorítmica. Concluímos pela importância da distinção entre aleatoriedade estatística e algorítmica. A primeira tem préstimo restrito à justiça, pela subjetividade e consequente multiplicidade dos critérios subjacentes à análise estatística. Já a segunda é universal e invariante. Permite levar a discussão da justiça do nível empírico ao epistemológico. Afinal, a aleatoriedade no uso e criação de códigos de linguagem é constituinte de quaisquer estruturas descritivas ou prescritivas (no campo algorítmico, a distinção desaparece) e conduz-nos a uma certeza: estruturas podem mudar. Nosso mundo sempre pode ser descrito e trabalhado de maneiras diversas e melhores. Sob a referência da aleatoriedade algorítmica, então, a justiça torna-se uma injunção à criatividade, dirigida a compreender e maximizar possibilidades lógicas, de modo ocasionalmente mensurável em bits. Torna-se capaz de fortalecer um senso de liberdade como não-dominação: podemos viver entre estruturas tais que cada um vincule-se a elas apenas por decisão, já que sempre se podem criar alternativas aos padrões de vida e sociedade que submetam quem quer que seja.
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É pensada como virtude, vista de uma perspectiva epistêmica, e pode ser associada à verdade, como ordem universal. São sentidos às vezes difíceis de conciliar. Para mostrar que a aleatoriedade é conceito que merece inserção neste campo, propomos uma aproximação primeira entre aleatoriedade e imparcialidade. Na prática, a aleatoriedade já vem sendo considerada expressão matemática de imparcialidade, e portanto de justiça, na abordagem de questões sociais pela estatística. É critério em face do qual se identificam disparidades sociais significativas, em tempos de governança estatística, jurimetria e inteligência artificial. Contém em si algum senso de igualdade: a imparcialidade promovida sob este parâmetro é uma igualdade de tratamento, justiça procedimental, ao menos. O que se mede em face dela é a justiça material, resultado substantivo do procedimento. Isto constatado, outras expressões da aleatoriedade interessam. Uma \"genealogia da aleatoriedade\" é então proposta, como método para relacionarmos expressões deste conceito desde o século 17 e perspectivas da justiça. A aleatoriedade probabilística, distribuição equiprovável a priori, mostra correspondência com a justiça formal. A aleatoriedade estatística, distribuição equiprovável aferida a posteriori, com a justiça material (sempre aproximativa). A algorítmica, enfim, como aleatoriedade no uso e criação de códigos de linguagem, aprofunda e dá rigor ao sentido contemporâneo de justiça epistêmica, sem desatender às demais perspectivas da justiça. Revela-se assim o melhor conceito de aleatoriedade para ser aproximado da justiça. É apresentado em exposição do trabalho de seus formuladores, especialmente de Gregory Chaitin, que a associa à criatividade em sistemas digitais. Subsequentemente, uma \"analítica da justiça\" é o método com que examinamos melhor como a aleatoriedade algorítmica serve de referencial para a justiça não mais apenas como imparcialidade, mas também como igualdade, equidade, virtude, justiça epistêmica ou ordem universal. Cada um desses sentidos enriquece-se e até ganha precisão, à luz da aleatoriedade algorítmica. Concluímos pela importância da distinção entre aleatoriedade estatística e algorítmica. A primeira tem préstimo restrito à justiça, pela subjetividade e consequente multiplicidade dos critérios subjacentes à análise estatística. Já a segunda é universal e invariante. Permite levar a discussão da justiça do nível empírico ao epistemológico. Afinal, a aleatoriedade no uso e criação de códigos de linguagem é constituinte de quaisquer estruturas descritivas ou prescritivas (no campo algorítmico, a distinção desaparece) e conduz-nos a uma certeza: estruturas podem mudar. Nosso mundo sempre pode ser descrito e trabalhado de maneiras diversas e melhores. Sob a referência da aleatoriedade algorítmica, então, a justiça torna-se uma injunção à criatividade, dirigida a compreender e maximizar possibilidades lógicas, de modo ocasionalmente mensurável em bits. Torna-se capaz de fortalecer um senso de liberdade como não-dominação: podemos viver entre estruturas tais que cada um vincule-se a elas apenas por decisão, já que sempre se podem criar alternativas aos padrões de vida e sociedade que submetam quem quer que seja.This study defends the introduction of the concept of randomness to the theoretical discussion of justice. Justice has some strong senses: impartiality, equality, equity. It is thought of as a virtue, seen from an epistemic perspective, and may be associated with truth as a universal order. Those senses are sometimes difficult to reconcile. To show that randomness is a concept that deserves insertion in this field, we first propose an approximation between randomness and impartiality. In practice, randomness is already considered a mathematical expression of the latter (and therefore justice) in statistical approaches to social issues. In times of statistical governance, jurimetrics, and artificial intelligence, it is a criterion against which we identify significant social disparities. It contains some sense of equality: the impartiality promoted under this parameter is equal treatment, an expression of procedural justice, at least. What we measure against it is material justice, the substantive result of any procedure. Once this is verified, other expressions of randomness are also of interest. We then propose a \"genealogy of randomness\" as a method for relating forms of this concept since the 17th century and perspectives of justice. Probabilistic randomness, as an equiprobable distribution a priori, here shows its correspondence with formal justice. Statistical randomness, as an equiprobable distribution measured a posteriori, with material justice (always approximative). Finally, algorithmic randomness, as the randomness in the use and creation of language codes, deepens and gives rigor to the epistemic sense of justice, without disregarding other perspectives of the latter. Algorithmic randomness is, therefore, the best concept of randomness to be related to justice. It appears here in the works of its formulators. Most notably Gregory Chaitin, who associates it with creativity in digital systems. Subsequently, an \"analytics of justice\" is the method by which we better examine how algorithmic randomness may be referential to justice no longer just as impartiality, but also as equality, equity, virtue, epistemic justice, or universal order. In the light of algorithmic randomness, each of these senses enriches itself and even gains precision. We conclude by the importance of the distinction between statistical and algorithmic randomness. The first rends limited service to justice due to its subjectivity and the consequent multiplicity of criteria underlying statistical analysis. The second is universal and invariant. It allows taking the discussion of justice from the empirical to the epistemological level. After all, randomness in the use and creation of language codes is a constituent of any descriptive or prescriptive structures (in the algorithmic field, the distinction disappears) and leads us to a certainty: those structures can change. Our world can always be described and developed in different and better ways. Therefore, under the reference of algorithmic randomness, justice becomes an injunction to creativity, aimed at understanding and maximizing logical possibilities, occasionally measured in bits. It becomes capable of strengthening a sense of freedom as non-domination: we can live among structures such that each person is only bound to them by decision, considering that we can always create alternatives to the standards of life and society that submit any of us.Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USPCampilongo, Celso FernandesNaccache, Andréa Martos2021-05-07info:eu-repo/semantics/publishedVersioninfo:eu-repo/semantics/doctoralThesisapplication/pdfhttps://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/2/2139/tde-26092022-104209/reponame:Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USPinstname:Universidade de São Paulo (USP)instacron:USPLiberar o conteúdo para acesso público.info:eu-repo/semantics/openAccesspor2024-09-19T18:43:53Zoai:teses.usp.br:tde-26092022-104209Biblioteca Digital de Teses e Dissertaçõeshttp://www.teses.usp.br/PUBhttp://www.teses.usp.br/cgi-bin/mtd2br.plvirginia@if.usp.br|| atendimento@aguia.usp.br||virginia@if.usp.bropendoar:27212024-09-19T18:43:53Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP - Universidade de São Paulo (USP)false
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Economia
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Epistemologia
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description Este estudo defende a introdução do conceito de aleatoriedade à discussão teórica da justiça. A justiça guarda sentidos fortes: imparcialidade, igualdade, equidade. É pensada como virtude, vista de uma perspectiva epistêmica, e pode ser associada à verdade, como ordem universal. São sentidos às vezes difíceis de conciliar. Para mostrar que a aleatoriedade é conceito que merece inserção neste campo, propomos uma aproximação primeira entre aleatoriedade e imparcialidade. Na prática, a aleatoriedade já vem sendo considerada expressão matemática de imparcialidade, e portanto de justiça, na abordagem de questões sociais pela estatística. É critério em face do qual se identificam disparidades sociais significativas, em tempos de governança estatística, jurimetria e inteligência artificial. Contém em si algum senso de igualdade: a imparcialidade promovida sob este parâmetro é uma igualdade de tratamento, justiça procedimental, ao menos. O que se mede em face dela é a justiça material, resultado substantivo do procedimento. Isto constatado, outras expressões da aleatoriedade interessam. Uma \"genealogia da aleatoriedade\" é então proposta, como método para relacionarmos expressões deste conceito desde o século 17 e perspectivas da justiça. A aleatoriedade probabilística, distribuição equiprovável a priori, mostra correspondência com a justiça formal. A aleatoriedade estatística, distribuição equiprovável aferida a posteriori, com a justiça material (sempre aproximativa). A algorítmica, enfim, como aleatoriedade no uso e criação de códigos de linguagem, aprofunda e dá rigor ao sentido contemporâneo de justiça epistêmica, sem desatender às demais perspectivas da justiça. Revela-se assim o melhor conceito de aleatoriedade para ser aproximado da justiça. É apresentado em exposição do trabalho de seus formuladores, especialmente de Gregory Chaitin, que a associa à criatividade em sistemas digitais. Subsequentemente, uma \"analítica da justiça\" é o método com que examinamos melhor como a aleatoriedade algorítmica serve de referencial para a justiça não mais apenas como imparcialidade, mas também como igualdade, equidade, virtude, justiça epistêmica ou ordem universal. Cada um desses sentidos enriquece-se e até ganha precisão, à luz da aleatoriedade algorítmica. Concluímos pela importância da distinção entre aleatoriedade estatística e algorítmica. A primeira tem préstimo restrito à justiça, pela subjetividade e consequente multiplicidade dos critérios subjacentes à análise estatística. Já a segunda é universal e invariante. Permite levar a discussão da justiça do nível empírico ao epistemológico. Afinal, a aleatoriedade no uso e criação de códigos de linguagem é constituinte de quaisquer estruturas descritivas ou prescritivas (no campo algorítmico, a distinção desaparece) e conduz-nos a uma certeza: estruturas podem mudar. Nosso mundo sempre pode ser descrito e trabalhado de maneiras diversas e melhores. Sob a referência da aleatoriedade algorítmica, então, a justiça torna-se uma injunção à criatividade, dirigida a compreender e maximizar possibilidades lógicas, de modo ocasionalmente mensurável em bits. Torna-se capaz de fortalecer um senso de liberdade como não-dominação: podemos viver entre estruturas tais que cada um vincule-se a elas apenas por decisão, já que sempre se podem criar alternativas aos padrões de vida e sociedade que submetam quem quer que seja.
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