Variabilidade na seleção de habitat por onças-pintadas em um cenário de retração da distribuição, perda de habitat e mudanças climáticas

Detalhes bibliográficos
Ano de defesa: 2025
Autor(a) principal: Barros, Alan Eduardo de
Orientador(a): Não Informado pela instituição
Banca de defesa: Não Informado pela instituição
Tipo de documento: Tese
Tipo de acesso: Acesso aberto
Idioma: por
Instituição de defesa: Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USP
Programa de Pós-Graduação: Não Informado pela instituição
Departamento: Não Informado pela instituição
País: Não Informado pela instituição
Palavras-chave em Português:
Link de acesso: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/41/41134/tde-08042025-113800/
Resumo: A onça-pintada (Panthera onca) ocupa uma ampla variedade de regiões ecogeográficas e bioclimáticas, com subpopulações expostas a condições heterogêneas em termos de recursos, riscos e níveis de ameaça ao longo de sua área de ocorrência. A distribuição atual da espécie já se reduziu à metade da extensão original, e a destruição de habitat tem se intensificado diante de impactos cumulativos (e.g. desmatamento, assoreamento, aumento da temperatura, seca, fogo), mesmo em regiões consideradas menos ameaçadas. Nesse contexto, compreender o quanto o uso e a seleção de habitat pelas onças variam, bem como os efeitos de distúrbios que vêm ganhando relevância, como o fogo, torna-se essencial. Embora as onças-pintadas sejam frequentemente associadas à presença de cobertura vegetal e água, suas preferências de habitat variam consideravelmente, especialmente em relação aos impactos antrópicos. Apesar dessa variabilidade, a maioria dos estudos busca padrões generalizados, focando em respostas médias de seleção e muitas vezes negligenciando os fatores que impulsionam a heterogeneidade. Para abordar essa lacuna, no primeiro capítulo avaliamos a variabilidade na seleção de habitat pelas onças ao longo de sua distribuição. Primeiramente, aplicamos modelos de seleção de habitat integrados ao movimento (iSSFs) e, em seguida, utilizamos uma abordagem meta-analítica multinível. Considerando que a seleção de habitat de cada onça é influenciada pela disponibilidade de recursos e riscos em seu alcance de movimento (dentro de sua área de vida), que essa disponibilidade pode estar condicionada a proximidade ou a fatores regionais (ecogeográficos e bioclimáticos) e que características físicas como sexo, idade e tamanho, podem influenciar na motivação para movimentação e seleção, procuramos entender o quanto cada um desses fatores contribui para explicar a variação na seleção por diferentes variáveis ambientais e antrópicas. Nossos resultados revelam uma grande heterogeneidade no uso e seleção de habitat pelas onças, tanto entre indivíduos quanto ao longo de sua distribuição. Efeitos individuais e entre sítios de estudo explicaram até 68% da variabilidade nos coeficientes de seleção. No entanto, a seleção por água e a tolerância a impactos humanos foram predominantemente influenciadas pela disponibilidade dentro da escala de locomoção (com explicação adicional de até 47%). Embora tenhamos identificado respostas funcionais positivas à disponibilidade de cobertura vegetal, fatores regionais, especialmente zonas bioclimáticas, também desempenharam um papel importante na explicação da variabilidade na seleção desse recurso. Características individuais também explicaram parte da variabilidade nas respostas de seleção a variáveis ambientais e antrópicas. Esses achados destacam a importância de considerar o condicionamento à escalas ou hierarquias e a variabilidade individual nos estudos de seleção de habitat, particularmente aqueles que abrangem grandes áreas, como a distribuição de uma espécie. Ignorar essa variabilidade pode levar a conclusões equivocadas e comprometer estratégias de conservação. No segundo capítulo, exploramos os impactos cumulativos e emergentes sobre o habitat e as populações de onças-pintadas, com foco no Pantanal como estudo de caso. Investigamos como o aumento da incidência de incêndios florestais, intensificado pelas secas mais severas e pelas temperaturas mais altas, afetou áreas prioritárias para as onças e estimativas populacionais entre 2004 e 2020 no bioma. Nesse período, os incêndios de 2020 foram os mais graves, queimando 31% do Pantanal e afetando 45% da população estimada de onças (87% no Brasil). Esses incêndios atingiram 79% das áreas de vida das onças e 54% das áreas protegidas com elas sobrepostas. Além de destruir habitats essenciais, os incêndios causaram ferimentos em onças, impactando a sobrevivência devido a deslocamento, fome, desidratação, defesa de território e menor reprodução. Essas consequências também afetam outras espécies, comprometendo a estabilidade ecológica da região. Concluímos discutindo que para evitar novos mega-incêndios, é necessário combater as causas humanas que agravam a seca (sejam desmatamentos, assoreamentos ou emissões de carbono), proteger nascentes, ampliar áreas protegidas, regulamentar o uso do fogo e preparar brigadas antes do período mais seco. Algumas dessas medidas já vêm sendo implementadas desde então. Os achados da tese reforçam a necessidade de considerar, quantificar e explorar as causas da variabilidade no uso e seleção de habitat pelas onças. Tal variabilidade deve ser utilizada como parâmetro para avaliar a capacidade de generalização de modelos espaciais de cunho preditivo, como a proposição de corredores ecológicos. Além disso, ao revelar os impactos devastadores de incêndios florestais no Pantanal, evidenciamos a urgência de estratégias preventivas e adaptativas para mitigar a perda de habitats e populações. Esses resultados oferecem subsídios valiosos para ações de conservação mais eficazes, adaptadas às particularidades ecológicas e aos desafios emergentes em toda a distribuição da espécie.
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A distribuição atual da espécie já se reduziu à metade da extensão original, e a destruição de habitat tem se intensificado diante de impactos cumulativos (e.g. desmatamento, assoreamento, aumento da temperatura, seca, fogo), mesmo em regiões consideradas menos ameaçadas. Nesse contexto, compreender o quanto o uso e a seleção de habitat pelas onças variam, bem como os efeitos de distúrbios que vêm ganhando relevância, como o fogo, torna-se essencial. Embora as onças-pintadas sejam frequentemente associadas à presença de cobertura vegetal e água, suas preferências de habitat variam consideravelmente, especialmente em relação aos impactos antrópicos. Apesar dessa variabilidade, a maioria dos estudos busca padrões generalizados, focando em respostas médias de seleção e muitas vezes negligenciando os fatores que impulsionam a heterogeneidade. Para abordar essa lacuna, no primeiro capítulo avaliamos a variabilidade na seleção de habitat pelas onças ao longo de sua distribuição. Primeiramente, aplicamos modelos de seleção de habitat integrados ao movimento (iSSFs) e, em seguida, utilizamos uma abordagem meta-analítica multinível. Considerando que a seleção de habitat de cada onça é influenciada pela disponibilidade de recursos e riscos em seu alcance de movimento (dentro de sua área de vida), que essa disponibilidade pode estar condicionada a proximidade ou a fatores regionais (ecogeográficos e bioclimáticos) e que características físicas como sexo, idade e tamanho, podem influenciar na motivação para movimentação e seleção, procuramos entender o quanto cada um desses fatores contribui para explicar a variação na seleção por diferentes variáveis ambientais e antrópicas. Nossos resultados revelam uma grande heterogeneidade no uso e seleção de habitat pelas onças, tanto entre indivíduos quanto ao longo de sua distribuição. Efeitos individuais e entre sítios de estudo explicaram até 68% da variabilidade nos coeficientes de seleção. No entanto, a seleção por água e a tolerância a impactos humanos foram predominantemente influenciadas pela disponibilidade dentro da escala de locomoção (com explicação adicional de até 47%). Embora tenhamos identificado respostas funcionais positivas à disponibilidade de cobertura vegetal, fatores regionais, especialmente zonas bioclimáticas, também desempenharam um papel importante na explicação da variabilidade na seleção desse recurso. Características individuais também explicaram parte da variabilidade nas respostas de seleção a variáveis ambientais e antrópicas. Esses achados destacam a importância de considerar o condicionamento à escalas ou hierarquias e a variabilidade individual nos estudos de seleção de habitat, particularmente aqueles que abrangem grandes áreas, como a distribuição de uma espécie. Ignorar essa variabilidade pode levar a conclusões equivocadas e comprometer estratégias de conservação. No segundo capítulo, exploramos os impactos cumulativos e emergentes sobre o habitat e as populações de onças-pintadas, com foco no Pantanal como estudo de caso. Investigamos como o aumento da incidência de incêndios florestais, intensificado pelas secas mais severas e pelas temperaturas mais altas, afetou áreas prioritárias para as onças e estimativas populacionais entre 2004 e 2020 no bioma. Nesse período, os incêndios de 2020 foram os mais graves, queimando 31% do Pantanal e afetando 45% da população estimada de onças (87% no Brasil). Esses incêndios atingiram 79% das áreas de vida das onças e 54% das áreas protegidas com elas sobrepostas. Além de destruir habitats essenciais, os incêndios causaram ferimentos em onças, impactando a sobrevivência devido a deslocamento, fome, desidratação, defesa de território e menor reprodução. Essas consequências também afetam outras espécies, comprometendo a estabilidade ecológica da região. Concluímos discutindo que para evitar novos mega-incêndios, é necessário combater as causas humanas que agravam a seca (sejam desmatamentos, assoreamentos ou emissões de carbono), proteger nascentes, ampliar áreas protegidas, regulamentar o uso do fogo e preparar brigadas antes do período mais seco. Algumas dessas medidas já vêm sendo implementadas desde então. Os achados da tese reforçam a necessidade de considerar, quantificar e explorar as causas da variabilidade no uso e seleção de habitat pelas onças. Tal variabilidade deve ser utilizada como parâmetro para avaliar a capacidade de generalização de modelos espaciais de cunho preditivo, como a proposição de corredores ecológicos. Além disso, ao revelar os impactos devastadores de incêndios florestais no Pantanal, evidenciamos a urgência de estratégias preventivas e adaptativas para mitigar a perda de habitats e populações. Esses resultados oferecem subsídios valiosos para ações de conservação mais eficazes, adaptadas às particularidades ecológicas e aos desafios emergentes em toda a distribuição da espécie.The jaguar (Panthera onca) occupies a wide variety of ecogeographic and bioclimatic regions, with subpopulations exposed to heterogeneous conditions in terms of resources, risks, and threat levels throughout its range. The species\' current distribution has already been reduced to half of its original extent, and habitat destruction has intensified due to cumulative impacts (e.g., deforestation, siltation, rising temperatures, drought, fire), even in regions considered less threatened. In this context, understanding how jaguars habitat use and selection vary, as well as the effects of disturbances gaining relevance, such as fire, becomes essential. Although jaguars are often associated with the presence of vegetation cover and water, their habitat preferences vary considerably, particularly concerning anthropogenic impacts. Despite this variability, most studies seek generalized patterns, focusing on average selection responses and often overlooking the factors driving heterogeneity. To address this gap, in the first chapter, we evaluated habitat selection variability by jaguars across their range. First, we applied integrated Step Selection Functions (iSSFs) and subsequently used a multilevel meta-analytic approach. Considering that each jaguar\'s habitat selection is influenced by the availability of resources and risks within its movement range (within home range), that this availability may be conditioned by proximity or regional factors (ecogeographic and bioclimatic), and that physical traits such as sex, age, and size can influence the motivation for movement and selection, we sought to understand how each of these factors contributes to explaining variation in selection for different environmental and anthropogenic variables. Our results revealed significant heterogeneity in habitat use and selection by jaguars, both among individuals and across their range. Individual and neighborhood effects explained up to 68% of the variability in selection coefficients. However, water selection and tolerance to human impacts were predominantly influenced by availability at the movement scale (increasing up to 47% in additional explanation). While we identified positive functional responses to vegetation cover availability, regional factors, especially bioclimatic zones, also played an important role in explaining variability in selection for these resources. Individual characteristics also accounted for part of the variability in responses to environmental and anthropogenic variables. These findings highlight the importance of considering spatial scales or hierarchies, such as orders of selection, and individual variability in habitat selection studies, particularly those covering large areas, such as a species distribution. Ignoring this variability may lead to misleading conclusions and compromise conservation strategies. In the second chapter, we explored the cumulative and emerging impacts on jaguar habitat and populations, focusing on the Pantanal as a case study. We investigated how the increasing incidence of wildfires, exacerbated by more severe droughts and higher temperatures, affected priority areas for jaguars and population estimates between 2004 and 2020 in the biome. During this period, the 2020 fires were the most severe, burning 31% of the Pantanal and affecting 45% of the estimated jaguar population (87% in Brazil). These fires impacted 79% of jaguar home ranges and 54% of protected areas overlapping with them. In addition to destroying essential habitats, the fires caused injuries to jaguars, impacting their survival due to displacement, hunger, dehydration, territorial defense, and reduced reproduction. These consequences also affect other species, compromising the regions ecological stability. We conclude by discussing that preventing future mega-fires requires addressing human-driven causes that exacerbate drought (such as deforestation, siltation, and carbon emissions), protecting water sources, expanding protected areas, regulating fire use, and preparing firefighting brigades before the dry season. Some of these measures have been implemented since then. The findings of this thesis reinforce the need to consider, quantify, and explore the causes of variability in jaguar habitat use and selection. Such variability should be used as a parameter to evaluate the generalizability of predictive spatial models, such as those proposing ecological corridors. Furthermore, by revealing the devastating impacts of wildfires in the Pantanal, we underscore the urgency of preventive and adaptive strategies to mitigate habitat and population loss. These results provide valuable insights for more effective conservation actions, tailored to the ecological particularities and emerging challenges across the species range.Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USPMorato, Ronaldo GonçalvesPrado, Paulo Inácio de Knegt López deBarros, Alan Eduardo de2025-02-06info:eu-repo/semantics/publishedVersioninfo:eu-repo/semantics/doctoralThesisapplication/pdfhttps://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/41/41134/tde-08042025-113800/reponame:Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USPinstname:Universidade de São Paulo (USP)instacron:USPLiberar o conteúdo para acesso público.info:eu-repo/semantics/openAccesspor2025-04-09T18:31:02Zoai:teses.usp.br:tde-08042025-113800Biblioteca Digital de Teses e Dissertaçõeshttp://www.teses.usp.br/PUBhttp://www.teses.usp.br/cgi-bin/mtd2br.plvirginia@if.usp.br|| atendimento@aguia.usp.br||virginia@if.usp.bropendoar:27212025-04-09T18:31:02Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP - Universidade de São Paulo (USP)false
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Apesar dessa variabilidade, a maioria dos estudos busca padrões generalizados, focando em respostas médias de seleção e muitas vezes negligenciando os fatores que impulsionam a heterogeneidade. Para abordar essa lacuna, no primeiro capítulo avaliamos a variabilidade na seleção de habitat pelas onças ao longo de sua distribuição. Primeiramente, aplicamos modelos de seleção de habitat integrados ao movimento (iSSFs) e, em seguida, utilizamos uma abordagem meta-analítica multinível. 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No entanto, a seleção por água e a tolerância a impactos humanos foram predominantemente influenciadas pela disponibilidade dentro da escala de locomoção (com explicação adicional de até 47%). Embora tenhamos identificado respostas funcionais positivas à disponibilidade de cobertura vegetal, fatores regionais, especialmente zonas bioclimáticas, também desempenharam um papel importante na explicação da variabilidade na seleção desse recurso. Características individuais também explicaram parte da variabilidade nas respostas de seleção a variáveis ambientais e antrópicas. Esses achados destacam a importância de considerar o condicionamento à escalas ou hierarquias e a variabilidade individual nos estudos de seleção de habitat, particularmente aqueles que abrangem grandes áreas, como a distribuição de uma espécie. Ignorar essa variabilidade pode levar a conclusões equivocadas e comprometer estratégias de conservação. No segundo capítulo, exploramos os impactos cumulativos e emergentes sobre o habitat e as populações de onças-pintadas, com foco no Pantanal como estudo de caso. Investigamos como o aumento da incidência de incêndios florestais, intensificado pelas secas mais severas e pelas temperaturas mais altas, afetou áreas prioritárias para as onças e estimativas populacionais entre 2004 e 2020 no bioma. Nesse período, os incêndios de 2020 foram os mais graves, queimando 31% do Pantanal e afetando 45% da população estimada de onças (87% no Brasil). Esses incêndios atingiram 79% das áreas de vida das onças e 54% das áreas protegidas com elas sobrepostas. Além de destruir habitats essenciais, os incêndios causaram ferimentos em onças, impactando a sobrevivência devido a deslocamento, fome, desidratação, defesa de território e menor reprodução. Essas consequências também afetam outras espécies, comprometendo a estabilidade ecológica da região. Concluímos discutindo que para evitar novos mega-incêndios, é necessário combater as causas humanas que agravam a seca (sejam desmatamentos, assoreamentos ou emissões de carbono), proteger nascentes, ampliar áreas protegidas, regulamentar o uso do fogo e preparar brigadas antes do período mais seco. Algumas dessas medidas já vêm sendo implementadas desde então. Os achados da tese reforçam a necessidade de considerar, quantificar e explorar as causas da variabilidade no uso e seleção de habitat pelas onças. Tal variabilidade deve ser utilizada como parâmetro para avaliar a capacidade de generalização de modelos espaciais de cunho preditivo, como a proposição de corredores ecológicos. Além disso, ao revelar os impactos devastadores de incêndios florestais no Pantanal, evidenciamos a urgência de estratégias preventivas e adaptativas para mitigar a perda de habitats e populações. 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