Lugar social do psicanalista: Há limites na escuta clínica atravessada pela Branquitude?

Detalhes bibliográficos
Ano de defesa: 2025
Autor(a) principal: Fernandes, Eliane Gamas
Orientador(a): Não Informado pela instituição
Banca de defesa: Não Informado pela instituição
Tipo de documento: Tese
Tipo de acesso: Acesso aberto
Idioma: por
Instituição de defesa: Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USP
Programa de Pós-Graduação: Não Informado pela instituição
Departamento: Não Informado pela instituição
País: Não Informado pela instituição
Palavras-chave em Português:
Link de acesso: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47134/tde-26022026-175050/
Resumo: O presente estudo propõe analisar quais as formas de manifestação da branquitude do(a) psicanalista e como ela se inscreve no encontro analítico, apresentando possíveis limitações na escuta clínica atravessada pela branquitude. A pesquisa fundamenta-se teoricamente a partir da análise freudo- lacaniana e de contribuições ferenczianas na intersecção com o feminismo negro, e segue os pressupostos metodológicos da abordagem qualitativa, tendo como inspiração o método psicanalítico. Neste, assume-se a postura de pesquisador-psicanalista, na qual a pesquisadora é ativa no processo, considerando o desejo da analista e a função da sua escuta como instrumento que faz ressurgir o tema estudado. Para a produção dos dados recorreu-se a encontros individuais com os(as) 9 (nove) participantes, sendo todos(as) psicanalistas e brancos(as). Estes encontros foram similares a sessões de análise, realizados em setting terapêutico e conduzidos apenas com a proposição: fale-me sobre seu percurso na psicanálise. As análises foram tecidas a partir da proposta de análise discursiva, tendo como suporte as anotações pessoais da pesquisadora e as transcrições dos encontros que foram gravados em áudio e alguns em áudio e vídeo. Como resultado, constatou-se que a formação subjetiva de brancos e negros é distinta, uma vez que estes estão em posições diferentes em relação ao colonialismo e a escravização. Por esta razão, o lugar social ocupado por esses sujeitos racializados constituirá seus corpos-discursos na relação do eu com o outro. No circuito pulsional, relacional entre brancos e negros verifica-se a formação da Outridade - a personificação de aspectos repressores do eu do sujeito branco. A Outridade baseia-se em processos nos quais partes cindidas da psique do sujeito branco são projetadas para fora, por isso cria-se o Outro, sempre como antagonista do eu. A proposta desta tese defende a ideia de que para sustentar a posição de semblante de Objeto-a, que demanda um não saber ou uma suposição de saberes, é necessário considerar o lugar ou ângulo em que o(a) psicanalista encontra-se diante do racismo. Assim, por estar cindido, apartado do racismo e aproximado da brancura, é que o(a) psicanalista branco(a) recorre ao mecanismo de clivagem de sua branquitude. Logo, a subjetividade branca ocidental, bem como a escuta feita por psicanalistas brancos(as) forma-se pela mesma via: a da clivagem de seu corpo-discurso assumindo, de modo encaixável, a posição de S.s.S e de semblante de Objeto-a na transferência com analisandos(as) negros(as). Enquanto que para os(as) psicanalistas negros(as) essa posição dar-se-a pela via do familiar-inquientante. Assim, unidos(as) pelo trauma colonial, psicanalistas e analisandos(as) negros(as) fazem emergir o inquietante do racismo e põem-se a trabalhar na direção da desalienação do sujeito da ideologia racista que fomenta a premissa incolor do inconsciente da branquitude. Por fim, este estudo identifica o letramento racial crítico, por meio de leituras e da participação em eventos temáticos; além da própria análise e da supervisão como sendo estratégias assertivas para mitigar a reprodução de práticas racistas na práxis psicanalítica. Além de apostar na pluralidade racial nos espaços de transmissão da psicanálise e no compromisso ético-político de uma clínica decolonial como condições inegociáveis para uma psicanálise antirracista.
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Neste, assume-se a postura de pesquisador-psicanalista, na qual a pesquisadora é ativa no processo, considerando o desejo da analista e a função da sua escuta como instrumento que faz ressurgir o tema estudado. Para a produção dos dados recorreu-se a encontros individuais com os(as) 9 (nove) participantes, sendo todos(as) psicanalistas e brancos(as). Estes encontros foram similares a sessões de análise, realizados em setting terapêutico e conduzidos apenas com a proposição: fale-me sobre seu percurso na psicanálise. As análises foram tecidas a partir da proposta de análise discursiva, tendo como suporte as anotações pessoais da pesquisadora e as transcrições dos encontros que foram gravados em áudio e alguns em áudio e vídeo. Como resultado, constatou-se que a formação subjetiva de brancos e negros é distinta, uma vez que estes estão em posições diferentes em relação ao colonialismo e a escravização. Por esta razão, o lugar social ocupado por esses sujeitos racializados constituirá seus corpos-discursos na relação do eu com o outro. No circuito pulsional, relacional entre brancos e negros verifica-se a formação da Outridade - a personificação de aspectos repressores do eu do sujeito branco. A Outridade baseia-se em processos nos quais partes cindidas da psique do sujeito branco são projetadas para fora, por isso cria-se o Outro, sempre como antagonista do eu. A proposta desta tese defende a ideia de que para sustentar a posição de semblante de Objeto-a, que demanda um não saber ou uma suposição de saberes, é necessário considerar o lugar ou ângulo em que o(a) psicanalista encontra-se diante do racismo. Assim, por estar cindido, apartado do racismo e aproximado da brancura, é que o(a) psicanalista branco(a) recorre ao mecanismo de clivagem de sua branquitude. Logo, a subjetividade branca ocidental, bem como a escuta feita por psicanalistas brancos(as) forma-se pela mesma via: a da clivagem de seu corpo-discurso assumindo, de modo encaixável, a posição de S.s.S e de semblante de Objeto-a na transferência com analisandos(as) negros(as). Enquanto que para os(as) psicanalistas negros(as) essa posição dar-se-a pela via do familiar-inquientante. Assim, unidos(as) pelo trauma colonial, psicanalistas e analisandos(as) negros(as) fazem emergir o inquietante do racismo e põem-se a trabalhar na direção da desalienação do sujeito da ideologia racista que fomenta a premissa incolor do inconsciente da branquitude. Por fim, este estudo identifica o letramento racial crítico, por meio de leituras e da participação em eventos temáticos; além da própria análise e da supervisão como sendo estratégias assertivas para mitigar a reprodução de práticas racistas na práxis psicanalítica. Além de apostar na pluralidade racial nos espaços de transmissão da psicanálise e no compromisso ético-político de uma clínica decolonial como condições inegociáveis para uma psicanálise antirracista.This study aims to analyze the ways in which the whiteness of the psychoanalyst manifests and how it inscribes itself in the analytic encounter, presenting potential limitations in clinical listening shaped by whiteness. The research is theoretically grounded in Freudo-Lacanian analysis and Ferenczian contributions in intersection with Black feminism, and follows the methodological assumptions of a qualitative approach, inspired by the psychoanalytic method. In this approach, the researcher- psychoanalyst position is assumed, in which the researcher is active in the process, considering the desire of the analyst and the role of their listening as an instrument that brings forth the studied theme. Data production relied on individual encounters with nine participants, all psychoanalysts and white. These encounters resembled analytic sessions, conducted in a therapeutic setting with the sole proposition: \"tell me about your journey in psychoanalysis.\" The analyses were developed through discursive analysis, supported by the researchers personal notes and transcripts of the encounters, which were recorded in audio and some in both audio and video. As a result, it was found that the subjective formation of white and Black individuals is distinct, as they occupy different positions in relation to colonialism and enslavement. For this reason, the social position occupied by these racialized subjects will constitute their body-discourses in the relationship between self and other. In the pulsional, relational circuit between whites and Blacks, the formation of Otherness is observedthe personification of repressive aspects of the white subjects self. Otherness is based on processes in which split parts of the white subjects psyche are projected outward, thereby creating the Other, always as an antagonist of the self. The proposal of this thesis defends the idea that to sustain the position of the semblance of Object-a, which demands a not-knowing or an assumption of knowledge, it is necessary to consider the position or angle from which the psychoanalyst stands in relation to racism. Thus, because the white psychoanalyst is split, distanced from racism and drawn toward whiteness, they resort to the defense mechanism of splitting their whiteness. Therefore, Western white subjectivity, as well as the listening performed by white psychoanalysts, is formed through the same process: the splitting of their body-discourse, assuming, in a fitting manner, the position of S.s.S and semblance of Object-a in the transference with Black analysands. In contrast, for Black psychoanalysts, this position is given through the familiar-unsettling dynamic. United by colonial trauma, Black psychoanalysts and analysands bring forth the unsettling nature of racism and work toward the de-alienation of the subject from the racist ideology that sustains the colorless premise of the unconscious of whiteness. Finally, this study identifies racial literacy, through reading and participation in thematic events, as well as analysis and supervision, as assertive strategies to mitigate the reproduction of racist practices in psychoanalytic practice. Furthermore, it advocates for racial plurality in spaces of psychoanalytic transmission and for the ethical-political commitment to a decolonial clinic as non-negotiable conditions for an anti-racist psychoanalysis.Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USPMassola, Gustavo MartineliFernandes, Eliane Gamas2025-03-14info:eu-repo/semantics/publishedVersioninfo:eu-repo/semantics/doctoralThesisapplication/pdfhttps://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47134/tde-26022026-175050/reponame:Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USPinstname:Universidade de São Paulo (USP)instacron:USPLiberar o conteúdo para acesso público.info:eu-repo/semantics/openAccesspor2026-02-27T20:03:02Zoai:teses.usp.br:tde-26022026-175050Biblioteca Digital de Teses e Dissertaçõeshttp://www.teses.usp.br/PUBhttp://www.teses.usp.br/cgi-bin/mtd2br.plvirginia@if.usp.br|| atendimento@aguia.usp.br||virginia@if.usp.bropendoar:27212026-02-27T20:03:02Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP - Universidade de São Paulo (USP)false
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