Comitês de Mortalidade Materna no Brasil: uma análise histórico-cultural

Detalhes bibliográficos
Ano de defesa: 2025
Autor(a) principal: Lucena, Fabiana Santos
Orientador(a): Não Informado pela instituição
Banca de defesa: Não Informado pela instituição
Tipo de documento: Tese
Tipo de acesso: Acesso aberto
Idioma: por
Instituição de defesa: Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USP
Programa de Pós-Graduação: Não Informado pela instituição
Departamento: Não Informado pela instituição
País: Não Informado pela instituição
Palavras-chave em Português:
Link de acesso: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/6/6143/tde-03092025-170229/
Resumo: Os Comitês de Mortalidade Materna foram instituídos em momento histórico de redemocratização e intensa participação popular, como conquista dos movimentos de mulheres, no intuito de ampliar a visibilidade da morte materna e trabalhar com sua redução. Passados quase quarenta anos, os Comitês continuam como política vigente, com estudos demonstrando dificuldades na sua atuação. Este trabalho tem como objetivo descrever e analisar a atividade dos Comitês de Mortalidade Materna brasileiros, a partir de uma perspectiva histórico-cultural e de gênero, compreendendo a morte materna enquanto violação de direitos. O estudo é qualitativo, realizado em duas etapas: na primeira, foi feita uma análise documental, incluindo busca de documentos e páginas web sobre informações referentes aos Comitês dos estados e das capitais do Sudeste; na segunda, foram realizadas quatorze entrevistas semiestruturadas, com pessoas de doze locais diferentes, incluindo as regiões Sul, Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste. Os dados foram analisados a partir do referencial teórico de gênero, dos direitos reprodutivos e sexuais, e do Sistema de Atividade Histórico-Cultural. Foi encontrada divulgação de atuação de apenas dois estados do Sudeste (São Paulo e Minas Gerais), e não foi encontrada divulgação de atuação em nenhuma capital. Nos estados com informação, foram encontrados: divulgação de dados de mortalidade materna; documentos relacionados ao seu funcionamento e composição; e dados sobre formação profissional, com temas relacionados aos principais agravos em saúde no ciclo gravídico puerperal. Entre os temas relacionados à formação, predomina uma abordagem biomédica, ainda que tenham atividades com temas mais alinhados a uma perspectiva de direitos sociais e de direitos em saúde sexual e reprodutiva. A partir da análise das entrevistas, os principais limites encontrados foram: gestão desfavorável à atuação dos Comitês; falta de investimento; interdição da discussão do aborto; e falta de participação de movimentos de mulheres. As possibilidades de atuação foram: vigilância epidemiológica de qualidade; formação de trabalhadores; democratização das informações e mobilização social; articulações político-assistenciais; avaliação de serviços; e fechamento de hospitais com assistência inadequada. Algumas propostas de avanços incluem: instituição de Comitê/Comissão de Mortalidade Materna nacional; financiamento federal; gestão horizontal; fortalecimento das vigilâncias e dos sistemas de informação; e inclusão da análise de near miss. A atuação hegemônica dos Comitês se dá a partir de uma concepção de morte materna como parte de um evento fisiológico arriscado ou como consequência da condição social das mulheres, sem enfrentamento ao modelo de atenção ao parto. Quando há uma comunidade mobilizada, é possível que movimentos sociais e indivíduos comprometidos com a luta pelos direitos das mulheres ocupem os Comitês, compreendendo a morte materna como violação de direitos, redirecionando as suas ações. Conclui-se que a compreensão do desinvestimento nos Comitês de Mortalidade Materna deve se dar a partir da conjuntura desfavorável à garantia dos direitos das mulheres. Quando os Comitês são ocupados por pessoas mobilizadas para os direitos das mulheres, a morte materna é compreendida enquanto violação de direitos e os Comitês podem desempenhar um papel de enfrentamento ao modelo obstétrico vigente. No entanto, é necessário mobilizar a sociedade para ocupar esse espaço de controle social.
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O estudo é qualitativo, realizado em duas etapas: na primeira, foi feita uma análise documental, incluindo busca de documentos e páginas web sobre informações referentes aos Comitês dos estados e das capitais do Sudeste; na segunda, foram realizadas quatorze entrevistas semiestruturadas, com pessoas de doze locais diferentes, incluindo as regiões Sul, Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste. Os dados foram analisados a partir do referencial teórico de gênero, dos direitos reprodutivos e sexuais, e do Sistema de Atividade Histórico-Cultural. Foi encontrada divulgação de atuação de apenas dois estados do Sudeste (São Paulo e Minas Gerais), e não foi encontrada divulgação de atuação em nenhuma capital. Nos estados com informação, foram encontrados: divulgação de dados de mortalidade materna; documentos relacionados ao seu funcionamento e composição; e dados sobre formação profissional, com temas relacionados aos principais agravos em saúde no ciclo gravídico puerperal. Entre os temas relacionados à formação, predomina uma abordagem biomédica, ainda que tenham atividades com temas mais alinhados a uma perspectiva de direitos sociais e de direitos em saúde sexual e reprodutiva. A partir da análise das entrevistas, os principais limites encontrados foram: gestão desfavorável à atuação dos Comitês; falta de investimento; interdição da discussão do aborto; e falta de participação de movimentos de mulheres. As possibilidades de atuação foram: vigilância epidemiológica de qualidade; formação de trabalhadores; democratização das informações e mobilização social; articulações político-assistenciais; avaliação de serviços; e fechamento de hospitais com assistência inadequada. Algumas propostas de avanços incluem: instituição de Comitê/Comissão de Mortalidade Materna nacional; financiamento federal; gestão horizontal; fortalecimento das vigilâncias e dos sistemas de informação; e inclusão da análise de near miss. A atuação hegemônica dos Comitês se dá a partir de uma concepção de morte materna como parte de um evento fisiológico arriscado ou como consequência da condição social das mulheres, sem enfrentamento ao modelo de atenção ao parto. Quando há uma comunidade mobilizada, é possível que movimentos sociais e indivíduos comprometidos com a luta pelos direitos das mulheres ocupem os Comitês, compreendendo a morte materna como violação de direitos, redirecionando as suas ações. Conclui-se que a compreensão do desinvestimento nos Comitês de Mortalidade Materna deve se dar a partir da conjuntura desfavorável à garantia dos direitos das mulheres. Quando os Comitês são ocupados por pessoas mobilizadas para os direitos das mulheres, a morte materna é compreendida enquanto violação de direitos e os Comitês podem desempenhar um papel de enfrentamento ao modelo obstétrico vigente. No entanto, é necessário mobilizar a sociedade para ocupar esse espaço de controle social.The Maternal Mortality Committees were established at a historic moment of redemocratization and intense popular participation, as an achievement of women\'s movements, with the aim of increasing the visibility of maternal death and working to reduce it. Almost forty years after their establishment, the Committees continue to be a current policy, with studies demonstrating difficulties in their performance. This paper aims to describe and analyze the activity of Brazilian Maternal Mortality Committees, from a historical-cultural and gender perspective, understanding maternal death as a violation of rights. The study is qualitative, carried out in two stages: in the first, a documentary analysis was carried out, including a search for documents and web pages with information regarding the Maternal Mortality Committees of the states and capitals of the Southeast; in the second, fourteen semi-structured interviews were conducted with people from twelve different locations, including the South, Southeast, Northeast and Central-West regions. The data were analyzed based on the theoretical framework of gender, reproductive and sexual rights, and the Historical-Cultural Activity System. Only two states in the Southeast (São Paulo and Minas Gerais) reported their activities, and none of the state capitals reported their activities. In the states with information, the following were found: data on maternal mortality; documents related to their functioning and composition; and data on professional training, with topics related to the main health problems in the pregnancy-puerperal cycle. Among the topics related to training, a biomedical approach predominates, although there are activities with topics more aligned with a perspective of social rights and sexual and reproductive health rights. Based on the analysis of the interviews, the main limitations found were: management unfavorable to the Committees\' activities; lack of investment; prohibition of discussion of abortion; and lack of participation of women\'s movements. The possibilities for action were: quality epidemiological surveillance; training of workers; democratization of information and social mobilization; political-assistance articulations; evaluation of services; and closure of hospitals with inadequate care. Some proposed advances include: establishing a national Maternal Mortality Committee/Commission; federal funding; horizontal management; strengthening surveillance and information systems; and including near miss analysis. The hegemonic role of the Committees is based on a conception of maternal death as part of a risky physiological event or as a consequence of women\'s social conditions, without confronting the model of childbirth care. When there is a mobilized community, it is possible for social movements and individuals committed to the fight for women\'s rights to occupy the Committees, understanding maternal death as a violation of rights, redirecting their actions. It is concluded that the understanding of the disinvestment in Maternal Mortality Committees should be based on the unfavorable situation for guaranteeing women\'s rights. When the Committees are occupied by people mobilized for women\'s rights, maternal death is understood as a violation of human rights and the Committees can play a role in confronting the current obstetric model. However, it is necessary to mobilize society to occupy this space of social control.Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USPDiniz, Carmen Simone GriloLucena, Fabiana Santos2025-07-03info:eu-repo/semantics/publishedVersioninfo:eu-repo/semantics/doctoralThesisapplication/pdfhttps://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/6/6143/tde-03092025-170229/reponame:Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USPinstname:Universidade de São Paulo (USP)instacron:USPLiberar o conteúdo para acesso público.info:eu-repo/semantics/openAccesspor2025-09-03T20:06:02Zoai:teses.usp.br:tde-03092025-170229Biblioteca Digital de Teses e Dissertaçõeshttp://www.teses.usp.br/PUBhttp://www.teses.usp.br/cgi-bin/mtd2br.plvirginia@if.usp.br|| atendimento@aguia.usp.br||virginia@if.usp.bropendoar:27212025-09-03T20:06:02Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP - Universidade de São Paulo (USP)false
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