Lutas pela autonomia, sonhos de revolução: uma história da participação negra na Guerrilha do Araguaia (1972-1974)

Detalhes bibliográficos
Ano de defesa: 2023
Autor(a) principal: Luiz, Janailson Macêdo
Orientador(a): Não Informado pela instituição
Banca de defesa: Não Informado pela instituição
Tipo de documento: Tese
Tipo de acesso: Acesso aberto
Idioma: por
Instituição de defesa: Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USP
Programa de Pós-Graduação: Não Informado pela instituição
Departamento: Não Informado pela instituição
País: Não Informado pela instituição
Palavras-chave em Português:
Link de acesso: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-15082023-113015/
Resumo: No início da década de 1970, eclodiu, na Amazônia brasileira, um dos conflitos mais marcantes da história do regime militar (1964-1985). A Guerrilha do Araguaia (1972-1974) contrapôs guerrilheiros integrantes do Partido Comunista do Brasil (PC do B), então na clandestinidade, e as Forças Armadas; e teve grande impacto junto aos moradores da confluência dos estados do Pará, do Maranhão e do atual Tocantins. A partir do final dos anos 1960, essa localidade recebeu milhares de migrantes, muitos dos quais negros, que chegavam à Amazônia Oriental buscando o acesso à terra e à autonomia. A Guerrilha do Araguaia foi um evento marcado pelo Terror de Estado praticado pelos militares, que sitiaram a área e infringiram inúmeras violências contra os moradores, entre os quais, muitos camponeses e indígenas. Também ficou conhecida pelas graves violações aos direitos humanos exercidas pelos militares, como política de Estado, diante dos moradores e dos guerrilheiros. Esta tese problematizou a participação negra naquele evento, a partir da observação de experiências vivenciadas por guerrilheiros, pelos camponeses e pelos militares. Partiu-se da compreensão de que existe uma sub-representação das experiências de mulheres e homens negros no contexto do regime militar brasileiro, seja na historiografia, seja no debate público. Foram utilizadas fontes diversas, a partir do entrecruzamento da literatura sobre o tema com documentos produzidos pelo próprio PC do B e pelos guerrilheiros; assim como o cruzamento com outras fontes: entrevistas de história oral, literatura de testemunho, documentários, jornais, entre outras. Inicialmente, realizou-se uma historicização da presença negra na Fronteira Araguaia-Tocantins. Em seguida, abordou-se a história da participação negra nas mobilizações comunistas no país e buscou-se entender como se deu essa participação no PC do B nos anos anteriores à Guerrilha. Embora o PC do B apresentasse uma centralidade na discussão sobre a classe e não contasse com pessoas negras nos níveis mais altos da estrutura partidária, diversas mulheres e homens negros tiveram destaque e apresentaram protagonismo entre seus quadros naquele período, principalmente entre o conjunto de guerrilheiros. Mulheres e homens negros integrantes da Guerrilha estão, até hoje, entre os mais recordados pelos moradores, assim como na literatura e produções audiovisuais que tomaram a Guerrilha do Araguaia como objeto. Por vezes, esses personagens foram representados por um viés de heroicização ou, em sentido inverso, acabaram alvo de estratégias negacionistas, que buscaram atenuar ou provocar o esquecimento dos crimes cometidos pela ditadura. No Araguaia, alguns dos guerrilheiros abordados mantiveram aproximação com adeptos de religiões de matriz africana, praticantes do terecô, religião que chegou ao local por intermédio dos migrantes maranhenses. Os terecozeiros realizaram diálogos políticos com os guerrilheiros e também foram alvo das violências praticadas pelos militares contra a população, tendo também sua religião desrespeitada. Mulheres e homens negros estiveram entre os guerrilheiros e a população afetada pelo conflito, a partir de posições diversas. Alguns aturam como guias colaboradores dos militares ou como soldados de baixa patente. Muitos foram alvo de torturas e outras atrocidades, quer por ousarem integrar um projeto revolucionário, quer por estarem diante da face mais explícita do Estado autoritário.
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A Guerrilha do Araguaia foi um evento marcado pelo Terror de Estado praticado pelos militares, que sitiaram a área e infringiram inúmeras violências contra os moradores, entre os quais, muitos camponeses e indígenas. Também ficou conhecida pelas graves violações aos direitos humanos exercidas pelos militares, como política de Estado, diante dos moradores e dos guerrilheiros. Esta tese problematizou a participação negra naquele evento, a partir da observação de experiências vivenciadas por guerrilheiros, pelos camponeses e pelos militares. Partiu-se da compreensão de que existe uma sub-representação das experiências de mulheres e homens negros no contexto do regime militar brasileiro, seja na historiografia, seja no debate público. Foram utilizadas fontes diversas, a partir do entrecruzamento da literatura sobre o tema com documentos produzidos pelo próprio PC do B e pelos guerrilheiros; assim como o cruzamento com outras fontes: entrevistas de história oral, literatura de testemunho, documentários, jornais, entre outras. Inicialmente, realizou-se uma historicização da presença negra na Fronteira Araguaia-Tocantins. Em seguida, abordou-se a história da participação negra nas mobilizações comunistas no país e buscou-se entender como se deu essa participação no PC do B nos anos anteriores à Guerrilha. Embora o PC do B apresentasse uma centralidade na discussão sobre a classe e não contasse com pessoas negras nos níveis mais altos da estrutura partidária, diversas mulheres e homens negros tiveram destaque e apresentaram protagonismo entre seus quadros naquele período, principalmente entre o conjunto de guerrilheiros. Mulheres e homens negros integrantes da Guerrilha estão, até hoje, entre os mais recordados pelos moradores, assim como na literatura e produções audiovisuais que tomaram a Guerrilha do Araguaia como objeto. Por vezes, esses personagens foram representados por um viés de heroicização ou, em sentido inverso, acabaram alvo de estratégias negacionistas, que buscaram atenuar ou provocar o esquecimento dos crimes cometidos pela ditadura. No Araguaia, alguns dos guerrilheiros abordados mantiveram aproximação com adeptos de religiões de matriz africana, praticantes do terecô, religião que chegou ao local por intermédio dos migrantes maranhenses. Os terecozeiros realizaram diálogos políticos com os guerrilheiros e também foram alvo das violências praticadas pelos militares contra a população, tendo também sua religião desrespeitada. Mulheres e homens negros estiveram entre os guerrilheiros e a população afetada pelo conflito, a partir de posições diversas. Alguns aturam como guias colaboradores dos militares ou como soldados de baixa patente. Muitos foram alvo de torturas e outras atrocidades, quer por ousarem integrar um projeto revolucionário, quer por estarem diante da face mais explícita do Estado autoritário.In the early 1970s, one of the most striking conflicts in the history of the military regime (1964-1985) erupted in the Brazilian Amazon. The Araguaia\'s Guerilla (1972-1974) opposed guerrilla members of the Communist Party of Brazil (PC do B), then in hiding, and the Armed Forces; and had a great impact on the residents of the confluence of the states of Pará, Maranhão and present-day Tocantins. From the end of the 1960s, this location received thousands of migrants, many of whom were black, who arrived in the Eastern Amazon seeking access to land and autonomy. The Araguaia\'s Guerilla was an event marked by State Terror practiced by the military, who besieged the area and inflicted numerous acts of violence against residents, including many peasants and indigenous people. It was also known for the serious violations of human rights carried out by the military, as a State policy, against residents and guerrillas. This thesis problematized black participation in that event, based on the observation of experiences lived by guerrillas, peasants and military. It started from the understanding that there is an under-representation of the experiences of black women and men in the context of the Brazilian military regime, whether in historiography or in public debate. Different sources were used, from the intersection of the literature on the subject with documents produced by the PC do B itself and by the guerrillas; as well as the intersection with other sources: oral history interviews, testimonial literature, documentaries, newspapers, among others. Initially, there was a historicization of the black presence on the Araguaia- Tocantins border. Then, the history of black participation in communist mobilizations in the country was discussed and an attempt was made to understand how this participation in the PC do B took place in the years prior to Guerilla. Although the PC do B was central in the discussion about class and did not have black people at the highest levels of the party structure, several black women and men stood out and played a leading role among their staff in that period, especially among the guerrillas. Black women and men who are members of the Guerilla are among the most remembered by residents, as well as in literature and audiovisual productions that took the Araguaia\'s Guerilla as an object. Sometimes, these characters were represented by a bias of heroicization or, conversely, ended up being the target of denialist strategies, which sought to mitigate or cause the crimes committed by the dictatorship to be forgotten. In Araguaia, some of the guerrillas approached maintained contact with adherents of religions of African origin, practitioners of terecô, a religion that arrived in the area through migrants from Maranhão. The terecozeiros held political dialogues like the guerrillas and were also the target of violence practiced by the military against the population, also having their religion disrespected. Black women and men were among the guerrillas and the population affected by the conflict, from different positions. Some act as collaborating guides for the military or as low-ranking soldiers. Many were the target of torture and other atrocities, either because they dared to join a revolutionary project or because they were facing the most explicit face of the authoritarian State.Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USPMachado, Maria Helena Pereira ToledoLuiz, Janailson Macêdo2023-02-10info:eu-repo/semantics/publishedVersioninfo:eu-repo/semantics/doctoralThesisapplication/pdfhttps://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-15082023-113015/reponame:Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USPinstname:Universidade de São Paulo (USP)instacron:USPLiberar o conteúdo para acesso público.info:eu-repo/semantics/openAccesspor2023-08-15T15:41:50Zoai:teses.usp.br:tde-15082023-113015Biblioteca Digital de Teses e Dissertaçõeshttp://www.teses.usp.br/PUBhttp://www.teses.usp.br/cgi-bin/mtd2br.plvirginia@if.usp.br|| atendimento@aguia.usp.br||virginia@if.usp.bropendoar:27212023-08-15T15:41:50Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP - Universidade de São Paulo (USP)false
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