A grilagem como método: Apropriação de terras no oeste da Bahia
| Ano de defesa: | 2026 |
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Resumo: | Neste trabalho, demonstramos como a grilagem de terras se constituiu como método principal de apropriação de terras na região Oeste da Bahia. Foco inicial da fronteira agrícola atualmente conhecida como MATOPIBA, a região foi alvo, especialmente a partir dos anos 70, do projeto de modernização conservadora no campo, imposto pela Ditadura Empresarial-Militar (1985-1964). Esse processo se intensifica em 1980, quando são criados “distritos florestais” para monocultivo de árvores como eucalipto e pinus, visando a “ocupação econômica do oeste da Bahia”. Um pequeno grupo de empresas beneficiárias de subsídios e isenções fiscais, vinculadas ao regime autoritário, protagonizou o processo de apropriação ilegal de terras em dimensões superlativas. Com um recorte territorial na Bacia do Rio Corrente, somente em 1980, foram identificados nesta pesquisa um total de 1.486.592 há de terras apropriadas formalmente por meio de fraudes em títulos e registros cartoriais. Os métodos utilizados, em síntese, foram denominados neste trabalho de “inventando nos inventários”, nos quais foi forjada a origem de “fazendas fantasmas”, associados ao “milagre da multiplicação” de hectares, com atribuição grosseira de centenas de milhares de hectares em apenas 11 registros de transcrição cartorial no município de Correntina (BA), por meio de ações de retificação de área fraudulentas. Os chapadões do Rio São Francisco e seus vales associados, tradicionalmente ocupados em comum por grupos campesinos ribeirinhos e geraizeiros, indígenas, negros e mestiços, eram as terras mais cobiçadas neste processo. Nesse contexto, a sua condição formal de terras públicas devolutas facilitou as estratégias de sua apropriação ilegal. O processo de desapossamento, extremamente violento, fomentou reações organizadas do campesinato ribeirinho e geraizeiro desta região, mas que não foram suficientes para impedir o processo de territorialização do agronegócio na região. Com efeito, a partir da falência dos “projetos de reflorestamento”, esses títulos comprovadamente fraudulentos são transferidos para novos agentes, especialmente os “gaúchos”, que vão impulsionar a expansão da fronteira a partir da segunda metade dos anos 80 com o cultivo da soja, favorecido a partir da adaptação de variedades pela Embrapa, no projeto PRODECER. Com o segundo superciclo das commodities nos anos 2000, a apropriação física dos chapadões se intensifica a partir do desmatamento do Cerrado em uma dimensão e velocidade sem precedentes na história. Com a crise financeira de 2008, novos agentes financeirizados, nacionais e estrangeiros, apostam na aquisição de terras na região, ampliando os impactos socioambientais para as comunidades ribeirinhas e de fundos e fechos de pasto que, ainda hoje, resistem a este processo. |
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Silva, Mauricio CorreiaRibeiro, Ana Maria Mottahttp://lattes.cnpq.br/7866939328153617Madeira Filho, Wilsonhttp://lattes.cnpq.br/4329212215460184Santos, Diana Aguiar OrricoTreccani, Girolamo DomenicoMedeiros, Leonilde Servolo dehttp://lattes.cnpq.br/81081099900378922026-10-23T23:36:53Z2026-10-23T23:36:53ZSILVA, Mauricio Correia. A grilagem como método: Apropriação de terras no oeste da Bahia. Orientadora: Ana Maria Motta Ribeiro. 2025. 227 f. Dissertação (Mestrado em Sociologia e Direito) – Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2025.https://app.uff.br/riuff/handle/1/44868Neste trabalho, demonstramos como a grilagem de terras se constituiu como método principal de apropriação de terras na região Oeste da Bahia. Foco inicial da fronteira agrícola atualmente conhecida como MATOPIBA, a região foi alvo, especialmente a partir dos anos 70, do projeto de modernização conservadora no campo, imposto pela Ditadura Empresarial-Militar (1985-1964). Esse processo se intensifica em 1980, quando são criados “distritos florestais” para monocultivo de árvores como eucalipto e pinus, visando a “ocupação econômica do oeste da Bahia”. Um pequeno grupo de empresas beneficiárias de subsídios e isenções fiscais, vinculadas ao regime autoritário, protagonizou o processo de apropriação ilegal de terras em dimensões superlativas. Com um recorte territorial na Bacia do Rio Corrente, somente em 1980, foram identificados nesta pesquisa um total de 1.486.592 há de terras apropriadas formalmente por meio de fraudes em títulos e registros cartoriais. Os métodos utilizados, em síntese, foram denominados neste trabalho de “inventando nos inventários”, nos quais foi forjada a origem de “fazendas fantasmas”, associados ao “milagre da multiplicação” de hectares, com atribuição grosseira de centenas de milhares de hectares em apenas 11 registros de transcrição cartorial no município de Correntina (BA), por meio de ações de retificação de área fraudulentas. Os chapadões do Rio São Francisco e seus vales associados, tradicionalmente ocupados em comum por grupos campesinos ribeirinhos e geraizeiros, indígenas, negros e mestiços, eram as terras mais cobiçadas neste processo. Nesse contexto, a sua condição formal de terras públicas devolutas facilitou as estratégias de sua apropriação ilegal. O processo de desapossamento, extremamente violento, fomentou reações organizadas do campesinato ribeirinho e geraizeiro desta região, mas que não foram suficientes para impedir o processo de territorialização do agronegócio na região. Com efeito, a partir da falência dos “projetos de reflorestamento”, esses títulos comprovadamente fraudulentos são transferidos para novos agentes, especialmente os “gaúchos”, que vão impulsionar a expansão da fronteira a partir da segunda metade dos anos 80 com o cultivo da soja, favorecido a partir da adaptação de variedades pela Embrapa, no projeto PRODECER. Com o segundo superciclo das commodities nos anos 2000, a apropriação física dos chapadões se intensifica a partir do desmatamento do Cerrado em uma dimensão e velocidade sem precedentes na história. Com a crise financeira de 2008, novos agentes financeirizados, nacionais e estrangeiros, apostam na aquisição de terras na região, ampliando os impactos socioambientais para as comunidades ribeirinhas e de fundos e fechos de pasto que, ainda hoje, resistem a este processo.In this dissertation, we demonstrate how illegal land grabbing became the main method of land appropriation in the western region of Bahia. The region was the initial focus of the agricultural frontier currently known as MATOPIBA, and was the target, especially from the 1970s onwards, of the conservative modernization project in the countryside imposed by the Corporate-Military Dictatorship (1985-1964). This process was intensified in 1980, when “forest districts” were created for the monoculture of trees such as eucalyptus and pine, with the aim of “economic occupation of western Bahia”. A small group of companies that benefited from subsidies and tax exemptions, linked to the authoritarian regime, led the process of illegal land appropriation on a massive scale. With a territorial scope in the Corrente River Basin, this research identified only in 1980 a total of 1,486,592 ha of land formally appropriated through fraud in titles and notarial records. The methods used, to summarize, were referred to in this study as “inventing in inventories,” in which the origin of “ghost farms” was forged, associated with the “miracle of multiplication” of hectares, with the gross attribution of hundreds of thousands of hectares in only 11 registry records in the municipality of Correntina (BA), through fraudulent area rectification actions. The plateaus of the São Francisco River and its associated valleys, traditionally occupied communally by riverside and geraizeiro peasant groups, indigenous peoples, blacks, and mestizos, were the most coveted lands in this process. In this context, their formal status as vacant public lands facilitated strategies for their illegal appropriation. The extremely violent dispossession process led to organized reactions from the riverside and geraizeiro peasantry in this region, but these were not enough to prevent the process of land consolidation by agribusiness in the region. In fact, following the failure of the “reforestation projects,” these proven fraudulent titles were transferred to new agents, especially the “gaúchos,” who drove the expansion of the frontier from the second half of the 1980s onwards with the cultivation of soybeans, favored by the adaptation of varieties by Embrapa in the PRODECER project. With the second commodity supercycle in the 2000s, the physical appropriation of the plateaus intensified with the deforestation of the Cerrado on a scale and at a speed unprecedented in history. With the financial crisis of 2008, new financial actors, both domestic and foreign, began investing in land acquisition in the region, amplifying the socioenvironmental impacts on riverside communities and those living in pasturelands, who still resist to this process today.227 p.CC-BY-NCinfo:eu-repo/semantics/openAccessA grilagem como método: Apropriação de terras no oeste da Bahiainfo:eu-repo/semantics/publishedVersioninfo:eu-repo/semantics/masterThesisGrilagem de Terras.Fronteiras Agrícolas.Modernização Conservadora.GrilagemPosse da terraAgronegócioConflito fundiárioDesmatamentoAgricultural FrontiersConservative ModernizationIllegal Land GrabbingMestrado acadêmicoUniversidade Federal FluminenseFaculdade de DireitoPrograma de Pós-Graduação em Sociologia e Direito2025Niterói, RJObjetivo 15. Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda de biodiversidadeporreponame:Repositório Institucional da Universidade Federal Fluminense (RIUFF)instname:Universidade Federal Fluminense (UFF)instacron:UFFORIGINALDISSERTAÇÃO 2025_MAURÍCIO CORREA SILVA.pdfDISSERTAÇÃO 2025_MAURÍCIO CORREA SILVA.pdfapplication/pdf10098467https://app.uff.br/riuff/bitstream/1/44868/1/DISSERTA%c3%87%c3%83O%202025_MAUR%c3%8dCIO%20CORREA%20SILVA.pdfab8fd64ded8e9ad210a552322065a3cbMD51LICENSElicense.txtlicense.txttext/plain; charset=utf-81866https://app.uff.br/riuff/bitstream/1/44868/2/license.txt43cd690d6a359e86c1fe3d5b7cba0c9bMD521/448682026-10-23 20:36:54.029oai:app.uff.br:1/44868TElDRU7Dh0EgREUgRElTVFJJQlVJw4fDg08gTsODTy1FWENMVVNJVkEKCkNvbSBhIGFwcmVzZW50YcOnw6NvIGRlc3RhIGxpY2Vuw6dhLCB2b2PDqiAobyBhdXRvciAoZXMpIG91IG8gdGl0dWxhciBkb3MgZGlyZWl0b3MgZGUgYXV0b3IpIGNvbmNlZGUgYW8gUmVwb3NpdMOzcmlvIApJbnN0aXR1Y2lvbmFsIG8gZGlyZWl0byBuw6NvLWV4Y2x1c2l2byBkZSByZXByb2R1emlyLCAgdHJhZHV6aXIgKGNvbmZvcm1lIGRlZmluaWRvIGFiYWl4byksIGUvb3UgZGlzdHJpYnVpciBhIApzdWEgcHVibGljYcOnw6NvIChpbmNsdWluZG8gbyByZXN1bW8pIHBvciB0b2RvIG8gbXVuZG8gbm8gZm9ybWF0byBpbXByZXNzbyBlIGVsZXRyw7RuaWNvIGUgZW0gcXVhbHF1ZXIgbWVpbywgaW5jbHVpbmRvIG9zIApmb3JtYXRvcyDDoXVkaW8gb3UgdsOtZGVvLgoKVm9jw6ogY29uY29yZGEgcXVlIG8gRGVwb3NpdGEgcG9kZSwgc2VtIGFsdGVyYXIgbyBjb250ZcO6ZG8sIHRyYW5zcG9yIGEgc3VhIHB1YmxpY2HDp8OjbyBwYXJhIHF1YWxxdWVyIG1laW8gb3UgZm9ybWF0byAKcGFyYSBmaW5zIGRlIHByZXNlcnZhw6fDo28uCgpWb2PDqiB0YW1iw6ltIGNvbmNvcmRhIHF1ZSBvIERlcG9zaXRhIHBvZGUgbWFudGVyIG1haXMgZGUgdW1hIGPDs3BpYSBkZSBzdWEgcHVibGljYcOnw6NvIHBhcmEgZmlucyBkZSBzZWd1cmFuw6dhLCBiYWNrLXVwIAplIHByZXNlcnZhw6fDo28uCgpWb2PDqiBkZWNsYXJhIHF1ZSBhIHN1YSBwdWJsaWNhw6fDo28gw6kgb3JpZ2luYWwgZSBxdWUgdm9jw6ogdGVtIG8gcG9kZXIgZGUgY29uY2VkZXIgb3MgZGlyZWl0b3MgY29udGlkb3MgbmVzdGEgbGljZW7Dp2EuIApWb2PDqiB0YW1iw6ltIGRlY2xhcmEgcXVlIG8gZGVww7NzaXRvIGRhIHN1YSBwdWJsaWNhw6fDo28gbsOjbywgcXVlIHNlamEgZGUgc2V1IGNvbmhlY2ltZW50bywgaW5mcmluZ2UgZGlyZWl0b3MgYXV0b3JhaXMgCmRlIG5pbmd1w6ltLgoKQ2FzbyBhIHN1YSBwdWJsaWNhw6fDo28gY29udGVuaGEgbWF0ZXJpYWwgcXVlIHZvY8OqIG7Do28gcG9zc3VpIGEgdGl0dWxhcmlkYWRlIGRvcyBkaXJlaXRvcyBhdXRvcmFpcywgdm9jw6ogZGVjbGFyYSBxdWUgCm9idGV2ZSBhIHBlcm1pc3PDo28gaXJyZXN0cml0YSBkbyBkZXRlbnRvciBkb3MgZGlyZWl0b3MgYXV0b3JhaXMgcGFyYSBjb25jZWRlciBhbyBEZXBvc2l0YSBvcyBkaXJlaXRvcyBhcHJlc2VudGFkb3MgCm5lc3RhIGxpY2Vuw6dhLCBlIHF1ZSBlc3NlIG1hdGVyaWFsIGRlIHByb3ByaWVkYWRlIGRlIHRlcmNlaXJvcyBlc3TDoSBjbGFyYW1lbnRlIGlkZW50aWZpY2FkbyBlIHJlY29uaGVjaWRvIG5vIHRleHRvIApvdSBubyBjb250ZcO6ZG8gZGEgcHVibGljYcOnw6NvIG9yYSBkZXBvc2l0YWRhLgoKQ0FTTyBBIFBVQkxJQ0HDh8ODTyBPUkEgREVQT1NJVEFEQSBURU5IQSBTSURPIFJFU1VMVEFETyBERSBVTSBQQVRST0PDjU5JTyBPVSBBUE9JTyBERSBVTUEgQUfDik5DSUEgREUgRk9NRU5UTyBPVSBPVVRSTyAKT1JHQU5JU01PLCBWT0PDiiBERUNMQVJBIFFVRSBSRVNQRUlUT1UgVE9ET1MgRSBRVUFJU1FVRVIgRElSRUlUT1MgREUgUkVWSVPDg08gQ09NTyBUQU1Cw4lNIEFTIERFTUFJUyBPQlJJR0HDh8OVRVMgCkVYSUdJREFTIFBPUiBDT05UUkFUTyBPVSBBQ09SRE8uCgpPIERlcG9zaXRhIHNlIGNvbXByb21ldGUgYSBpZGVudGlmaWNhciBjbGFyYW1lbnRlIG8gc2V1IG5vbWUgKHMpIG91IG8ocykgbm9tZShzKSBkbyhzKSBkZXRlbnRvcihlcykgZG9zIGRpcmVpdG9zIAphdXRvcmFpcyBkYSBwdWJsaWNhw6fDo28sIGUgbsOjbyBmYXLDoSBxdWFscXVlciBhbHRlcmHDp8OjbywgYWzDqW0gZGFxdWVsYXMgY29uY2VkaWRhcyBwb3IgZXN0YSBsaWNlbsOnYS4KRepositório InstitucionalPUBhttps://app.uff.br/oai/requestriuff@id.uff.bropendoar:21202026-10-23T23:36:54Repositório Institucional da Universidade Federal Fluminense (RIUFF) - Universidade Federal Fluminense (UFF)false |
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