Viver a punição : representações sociais no sistema prisional gaúcho

Detalhes bibliográficos
Ano de defesa: 2025
Autor(a) principal: Dias, Cláudia Kaul Aranalde
Orientador(a): Passiani, Enio
Banca de defesa: Não Informado pela instituição
Tipo de documento: Dissertação
Tipo de acesso: Acesso aberto
Idioma: por
Instituição de defesa: Não Informado pela instituição
Programa de Pós-Graduação: Não Informado pela instituição
Departamento: Não Informado pela instituição
País: Não Informado pela instituição
Palavras-chave em Português:
Palavras-chave em Inglês:
Link de acesso: http://hdl.handle.net/10183/307085
Resumo: Este estudo teve como objetivo compreender as representações sociais atribuídas à punição por homens privados de liberdade, reclusos em regime fechado nas penitenciárias estaduais do Rio Grande do Sul. Buscou-se identificar os elementos simbólicos, afetivos e morais que compõem tais representações, analisar a relação entre punição e justiça a partir das experiências no cárcere e explorar os sentidos atribuídos ao encarceramento nos discursos dos apenados. A pesquisa adota a teoria das representações sociais em diálogo com a criminologia crítica, que denuncia a seletividade do sistema penal e seus efeitos excludentes. Coerente com a proposta metodológica, foram utilizados como instrumentos de pesquisa a associação livre, entrevistas semiestruturadas e grupos focais, favorecendo a expressão de discursos, imagens e atitudes sobre a punição. No total, foram realizadas 15 entrevistas individuais, entre agosto de 2020 e julho de 2023, com homens privados de liberdade das Penitenciárias Estaduais do Jacuí e de Porto Alegre, ambas exclusivamente masculinas. Os participantes, em sua maioria com ensino fundamental incompleto e em regime de união estável, apresentaram idades entre 19 e 62 anos. A análise seguiu os procedimentos da Análise de Conteúdo, conforme Bardin (1978). Os resultados revelaram que as representações sociais da punição se estruturam em cinco categorias centrais: reconhecimento, punição x justiça, ressocialização; estigma, punição x injustiça. Essas categorias evidenciam tensões entre o discurso oficial, que sustenta a ressocialização como finalidade da pena, e a vivência concreta dos encarcerados, marcada por estigmatização, sofrimento e esvaziamento temporal. Observou-se que, embora minoritários, alguns relatos apontam a punição como oportunidade de reflexão e aprendizado, ainda que dificultados pelas condições adversas do cárcere. A análise indicou que a prisão, mais do que cumprir função retributiva, opera como mecanismo de controle social e exclusão, funcionando como um “aspirador social” que criminaliza sobretudo a pobreza e reforça desigualdades sociorraciais. Os achados apontam ainda para a experiência de “não-vida” no cárcere, associada ao tempo estagnado e à sensação de inutilidade, que afeta não apenas os presos, mas também os profissionais penitenciários, vítimas de estigmatização social. Conclui-se que a pena privativa de liberdade, em sua forma contemporânea, assume significados contraditórios: se, de um lado, pode ser vista como castigo ou reflexão, de outro, perpetua processos de dessocialização, marginalização e exclusão. Assim, este estudo contribui para o debate crítico sobre a função da prisão e destaca a necessidade de que a discussão sobre criminalidade e justiça incorpore de forma central as dimensões de desigualdade social e econômica.
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No total, foram realizadas 15 entrevistas individuais, entre agosto de 2020 e julho de 2023, com homens privados de liberdade das Penitenciárias Estaduais do Jacuí e de Porto Alegre, ambas exclusivamente masculinas. Os participantes, em sua maioria com ensino fundamental incompleto e em regime de união estável, apresentaram idades entre 19 e 62 anos. A análise seguiu os procedimentos da Análise de Conteúdo, conforme Bardin (1978). Os resultados revelaram que as representações sociais da punição se estruturam em cinco categorias centrais: reconhecimento, punição x justiça, ressocialização; estigma, punição x injustiça. Essas categorias evidenciam tensões entre o discurso oficial, que sustenta a ressocialização como finalidade da pena, e a vivência concreta dos encarcerados, marcada por estigmatização, sofrimento e esvaziamento temporal. Observou-se que, embora minoritários, alguns relatos apontam a punição como oportunidade de reflexão e aprendizado, ainda que dificultados pelas condições adversas do cárcere. A análise indicou que a prisão, mais do que cumprir função retributiva, opera como mecanismo de controle social e exclusão, funcionando como um “aspirador social” que criminaliza sobretudo a pobreza e reforça desigualdades sociorraciais. Os achados apontam ainda para a experiência de “não-vida” no cárcere, associada ao tempo estagnado e à sensação de inutilidade, que afeta não apenas os presos, mas também os profissionais penitenciários, vítimas de estigmatização social. Conclui-se que a pena privativa de liberdade, em sua forma contemporânea, assume significados contraditórios: se, de um lado, pode ser vista como castigo ou reflexão, de outro, perpetua processos de dessocialização, marginalização e exclusão. Assim, este estudo contribui para o debate crítico sobre a função da prisão e destaca a necessidade de que a discussão sobre criminalidade e justiça incorpore de forma central as dimensões de desigualdade social e econômica.This study aimed to understand the social representations attributed to punishment by men deprived of liberty, incarcerated in closed regimes in the state penitentiaries of Rio Grande do Sul. It sought to identify the symbolic, affective, and moral elements that compose such representations, analyze the relationship between punishment and justice based on experiences in prison, and explore the meanings attributed to incarceration in the discourses of the inmates. The research adopts the theory of social representations in dialogue with critical criminology, which denounces the selectivity of the penal system and its exclusionary effects. Consistent with the methodological proposal, the research instruments used were free association, semi-structured interviews, and focus groups, favoring the expression of discourses, images, and attitudes about punishment. In total, 15 individual interviews were conducted between August 2020 and July 2023, with men deprived of liberty from the Jacuí and Porto Alegre State Penitentiaries, both exclusively male. The participants, mostly with incomplete elementary education and living in stable unions, ranged in age from 19 to 62 years. The analysis followed the procedures of Content Analysis, according to Bardin (1978). The results revealed that the social representations of punishment are structured into five central categories: recognition, punishment x justice, resocialization; stigma, punishment x injustice. These categories highlight tensions between the official discourse, which sustains resocialization as the purpose of the sentence, and the concrete experience of the incarcerated, marked by stigmatization, suffering, and temporal emptiness. It was observed that, although a minority, some reports point to punishment as an opportunity for reflection and learning, even if hindered by the adverse conditions of the prison. The analysis indicated that the prison, more than fulfilling a retributive function, operates as a mechanism of social control and exclusion, functioning as a “social vacuum cleaner” that criminalizes especially poverty and reinforces socio-racial inequalities. The findings also point to the experience of “non-life” in prison, associated with stagnant time and a sense of uselessness, which affects not only the prisoners but also correctional professionals, who are victims of social stigmatization. It is concluded that the custodial sentence, in its contemporary form, assumes contradictory meanings: if, on the one hand, it can be seen as castigation or reflection, on the other, it perpetuates processes of desocialization, marginalization, and exclusion. Thus, this study contributes to the critical debate about the function of prison and highlights the necessity that the discussion about criminality and justice centrally incorporates the dimensions of social and economic inequality.application/pdfporSegurança públicaPuniçãoRepresentações sociaisCriminologia críticaSistema prisionalPunishmentSocial representationsIncarcerationCritical criminologyPrison systemViver a punição : representações sociais no sistema prisional gaúchoinfo:eu-repo/semantics/publishedVersioninfo:eu-repo/semantics/masterThesisUniversidade Federal do Rio Grande do SulInstituto de Filosofia e Ciências HumanasPrograma de Pós-Graduação em Segurança CidadãPorto Alegre, BR-RS2025mestrado profissionalinfo:eu-repo/semantics/openAccessreponame:Repositório Institucional da UFRGSinstname:Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)instacron:UFRGSTEXT001305521.pdf.txt001305521.pdf.txtExtracted Texttext/plain369809http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/10183/307085/2/001305521.pdf.txt931806432b3599e4bb722f72ff600e21MD52ORIGINAL001305521.pdfTexto completoapplication/pdf1242654http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/10183/307085/1/001305521.pdfbbdad5e803c1fe865b8229d8ee3aec55MD5110183/3070852026-05-21 08:03:56.5382oai:www.lume.ufrgs.br:10183/307085Repositório InstitucionalPUBhttps://lume.ufrgs.br/oai/requestlume@ufrgs.bropendoar:2026-05-21T11:03:56Repositório Institucional da UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)false
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