A herança da colonialidade no sistema punitivo brasileiro : proposições e fundamentos epistemológicos decoloniais para a construção de uma criminologia decolonial negra

Detalhes bibliográficos
Ano de defesa: 2026
Autor(a) principal: Santos, Zeni Xavier Siqueira dos
Orientador(a): Gonçalves, Vanessa Chiari
Banca de defesa: Não Informado pela instituição
Tipo de documento: Tese
Tipo de acesso: Acesso aberto
Idioma: por
Instituição de defesa: Não Informado pela instituição
Programa de Pós-Graduação: Não Informado pela instituição
Departamento: Não Informado pela instituição
País: Não Informado pela instituição
Palavras-chave em Português:
Palavras-chave em Inglês:
Link de acesso: http://hdl.handle.net/10183/302685
Resumo: A presente pesquisa analisa como o sistema de justiça criminal no Brasil se estrutura na condição de herdeiro direto da escravidão e da ordem colonial, reproduzindo hierarquias raciais que colocam a população negra na posição de principal alvo da punição e da violência letal. Partindo dos referenciais da colonialidade, do racismo estrutural e da criminologia crítica e cultural, o estudo tem por objetivo geral evidenciar de que modo os mecanismos de controle e objetificação presentes nas agências de controle social formal operam a manutenção da “zona do não-ser” destinada às populações racializadas no Brasil. A partir disso, esta tese pretende apresentar os fundamentos epistemológicos para a construção de uma criminologia decolonial negra. Metodologicamente, adota-se uma abordagem qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, com método dedutivo, valendo-se de pesquisa documental e análise de conteúdo a partir da interpretação de dados secundários produzidos por órgãos oficiais, como SISDEPEN (2025), IPEA e Fórum Brasileiro de Segurança Pública (IPEA; FBSP, 2025), CNJ (2023) e IBGE. Os resultados empíricos demonstram a sobrerrepresentação negra no encarceramento, representando 64,8% das pessoas presas frente a 28,4% de pessoas brancas, em contexto de superlotação estrutural. Há, também, maior exposição de pessoas negras à violência homicida, cuja taxa em 2023 (28,9 por 100 mil habitantes) foi 2,7 vezes superior à de pessoas não negras (IPEA; FBSP, 2025). Paralelamente, o Diagnóstico Étnico-Racial do Poder Judiciário revela a sub-representação de magistrados negros, em torno de 14,6%, mesmo após políticas de promoção da igualdade racial (CNJ, 2023). A leitura articulada desses dados permite afirmar que o sistema punitivo brasileiro funciona como mecanismo de gestão racial da punição e da morte, configurando uma necropolítica direcionada à população negra. No plano teórico-epistemológico, o trabalho evidencia a insuficiência de modelos criminológicos eurocentrados e defende a necessidade de uma criminologia decolonial negra que parta das experiências, memórias e produções da intelectualidade negra e latino-americana, criticando a branquitude epistêmica e recolocando amefricanidade e interseccionalidade como categorias de análise. Por fim, o estudo apresenta o debate sobre justiça e reparação histórica articulado com a construção de uma criminologia decolonial negra que implica não apenas o diagnóstico da seletividade penal racial, mas também a formulação de proposições de justiça racial e epistêmica, incluindo a ampliação da presença negra nas instâncias de poder, o enfrentamento do perfilamento racial – inclusive em tecnologias de vigilância –, e implementação de políticas reparatórias materiais e simbólicas dirigidas à população negra brasileira. A pesquisa, ao integrar estatística descritiva e análise qualitativa de conteúdo, reforça a centralidade da leitura crítica de documentos e bases de dados oficiais como estratégia de desvelamento da colonialidade inscrita nas práticas penais brasileiras.
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Metodologicamente, adota-se uma abordagem qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, com método dedutivo, valendo-se de pesquisa documental e análise de conteúdo a partir da interpretação de dados secundários produzidos por órgãos oficiais, como SISDEPEN (2025), IPEA e Fórum Brasileiro de Segurança Pública (IPEA; FBSP, 2025), CNJ (2023) e IBGE. Os resultados empíricos demonstram a sobrerrepresentação negra no encarceramento, representando 64,8% das pessoas presas frente a 28,4% de pessoas brancas, em contexto de superlotação estrutural. Há, também, maior exposição de pessoas negras à violência homicida, cuja taxa em 2023 (28,9 por 100 mil habitantes) foi 2,7 vezes superior à de pessoas não negras (IPEA; FBSP, 2025). Paralelamente, o Diagnóstico Étnico-Racial do Poder Judiciário revela a sub-representação de magistrados negros, em torno de 14,6%, mesmo após políticas de promoção da igualdade racial (CNJ, 2023). A leitura articulada desses dados permite afirmar que o sistema punitivo brasileiro funciona como mecanismo de gestão racial da punição e da morte, configurando uma necropolítica direcionada à população negra. No plano teórico-epistemológico, o trabalho evidencia a insuficiência de modelos criminológicos eurocentrados e defende a necessidade de uma criminologia decolonial negra que parta das experiências, memórias e produções da intelectualidade negra e latino-americana, criticando a branquitude epistêmica e recolocando amefricanidade e interseccionalidade como categorias de análise. 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A pesquisa, ao integrar estatística descritiva e análise qualitativa de conteúdo, reforça a centralidade da leitura crítica de documentos e bases de dados oficiais como estratégia de desvelamento da colonialidade inscrita nas práticas penais brasileiras.This research analyzes how the criminal justice system in Brazil is structured as a direct heir of slavery and the colonial order, reproducing racial hierarchies that place the Black population as the primary target of punishment and lethal violence. Grounded in the frameworks of coloniality, structural racism, and critical and cultural criminology, the study's general objective is to demonstrate how mechanisms of control and objectification within formal social control agencies uphold the “zone of non-being” assigned to racialized populations. Methodologically, the research adopts a qualitative, exploratory, and descriptive approach, using a deductive method supported by documentary research and content analysis based on secondary data produced by official institutions such as SISDEPEN (2025), IPEA and the Brazilian Forum on Public Security (IPEA; FBSP, 2025), CNJ (2023), and IBGE. The empirical results indicate the overrepresentation of Black individuals in the prison system—64.8% of the incarcerated population, compared to 28.4% of white individuals—within a context of chronic overcrowding, as well as their heightened exposure to lethal violence, with a homicide rate in 2023 (28.9 per 100,000 inhabitants) 2.7 times higher than that of non-Black individuals (IPEA; FBSP, 2025). Additionally, the Ethnic-Racial Diagnosis of the Judiciary reveals the underrepresentation of Black judges, accounting for approximately 14.6%, even following the implementation of racial equality policies (CNJ, 2023). An integrated reading of these data suggests that the Brazilian punitive system functions as a mechanism for racial management of punishment and death, configuring a necropolitics directed at the Black population. From a theoretical-epistemological standpoint, the work highlights the insufficiency of Eurocentric criminological models and advocates for a Black decolonial criminology grounded in the experiences, memories, and intellectual productions of Black and Latin American thinkers, critically confronting epistemic whiteness and employing concept of “Amefricanity” and intersectionality as analytical categories. Finally, the study contributes to debates on justice and historical reparation, proposing the construction of a Black decolonial criminology that goes beyond diagnosing racial penal selectivity to formulate propositions for racial and epistemic justice, including broader Black representation within power structures, tackling racial profiling—including in surveillance technologies—and implementing both material and symbolic reparatory policies directed at the Black Brazilian population. By combining descriptive statistics and qualitative content analysis, the research underscores the centrality of critically interpreting official documents and databases as a strategy for unveiling coloniality embedded in Brazilian penal practices.application/pdfporColonialidadeRacismo estruturalCriminologiaSeletividade penalColonialityStructural racismStructural racismBlack decolonial criminologyPenal selectivityRacial justiceA herança da colonialidade no sistema punitivo brasileiro : proposições e fundamentos epistemológicos decoloniais para a construção de uma criminologia decolonial negrainfo:eu-repo/semantics/publishedVersioninfo:eu-repo/semantics/doctoralThesisUniversidade Federal do Rio Grande do SulFaculdade de DireitoPrograma de Pós-Graduação em DireitoPorto Alegre, BR-RS2026doutoradoinfo:eu-repo/semantics/openAccessreponame:Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da UFRGSinstname:Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)instacron:UFRGSTEXT001302966.pdf.txt001302966.pdf.txtExtracted Texttext/plain64366http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/10183/302685/2/001302966.pdf.txtc07369d67b245e6c1f21072c3e178025MD52ORIGINAL001302966.pdfTexto parcialapplication/pdf251545http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/10183/302685/1/001302966.pdfc7dba68092033e1fdf04c6156ac11cdbMD5110183/3026852026-03-27 08:04:13.288432oai:www.lume.ufrgs.br:10183/302685Biblioteca Digital de Teses e Dissertaçõeshttps://lume.ufrgs.br/handle/10183/2PUBhttps://lume.ufrgs.br/oai/requestlume@ufrgs.br || lume@ufrgs.bropendoar:18532026-03-27T11:04:13Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)false
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