\"Vítimas de uma obsessão\" : uma análise do discurso médico-legal sobre \"homossexualismos\" femininos e masculinos no Brasil (1925-1945)

Detalhes bibliográficos
Ano de defesa: 2025
Autor(a) principal: Coscrato, Nathália de Morais
Orientador(a): Não Informado pela instituição
Banca de defesa: Não Informado pela instituição
Tipo de documento: Tese
Tipo de acesso: Acesso aberto
Idioma: por
Instituição de defesa: Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USP
Programa de Pós-Graduação: Não Informado pela instituição
Departamento: Não Informado pela instituição
País: Não Informado pela instituição
Palavras-chave em Português:
Link de acesso: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/2/2136/tde-21082025-163321/
Resumo: O período entre 1925 e 1945 foi, no Brasil, marcado pelo grande interesse de profissionais da Medicina Legal pelo tema então designado, entre outros termos, de homossexualismo. Esses profissionais propunham a transferência do considerado problema do homossexualismo do âmbito jurídico para o médico. Esta pesquisa se voltou justamente para esses discursos médico-legais. Seu principal objetivo foi analisar se e como os homossexualismos feminino e masculino eram produzidos e diferenciados pela Medicina Legal no Brasil e associados à criminalidade e/ou à periculosidade no período de 1925 a 1945. A partir de uma pesquisa qualitativa com inspiração etnográfica, o trabalho buscou contribuir para os trabalhos sobre os discursos médico-legais desse período ao jogar luz nas variações, diferenças e hierarquias constantes das produções dos indivíduos tidos por homossexuais, estando especialmente atenta às intersecções de classe, raça e gênero. Para analisar o pensamento médico-legal dessa época foram selecionados manuais e livros especializados produzidos por nomes de destaque da área. Identifiquei que o homossexualismo foi pensado a partir de três principais eixos, a teoria da degenerescência, a endocrinologia e a psicanálise e que, ao produzirem os homossexualismos, esses discursos também produziam a qualificação dos comportamentos em masculinos e femininos e, em geral, produziam, igualmente, os próprios corpos masculinos e femininos, descrevendo os caracteres somáticos pertencentes a cada um dos sexos e identificando os eventuais desvios presentes nos corpos dos indivíduos homossexuais. Predominava, entre os médicos, a noção de que existia uma associação entre os homossexualismos e os aspectos somáticos dos corpos dos indivíduos. Em geral, mulheres e homens cujos comportamentos e corpos mais desviavam, respectivamente, dos ideais de masculinidade ou de feminilidade eram considerados(as) os casos mais típicos ou os graus mais acentuados de homossexualismo. Os homossexualismos feminino eram tratados ora como mais raros ou menos visíveis do que os masculinos, ora como mais comuns e menos sexualizados. Foi identificada uma maior variação dos homossexualismos masculinos, em termos de comportamentos em geral. Em alguns dos textos analisados foi possível identificar uma associação entre pobreza e o homossexualismo. Os discursos médico-legais, ao mesmo tempo que, em geral, propunham a não punição dos indivíduos considerados homossexuais fundamentados na ideia de uma ausência da responsabilidade desses indivíduos pela presença de uma patologia/anormalidade que prejudicava seu autocontrole, eles inscreviam o homossexualismo no âmbito penal ao associá-lo com a periculosidade. Os indivíduos homossexuais mais associados à criminalidade e/ou à periculosidade eram homens pretos, pobres e pederastas ativos. Entre as mulheres homossexuais, as prostitutas, as masculinizadas, as negras e as com comportamento sexual considerado ativo foram especialmente associadas às noções de periculosidade, criminalidade ou violência.
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A partir de uma pesquisa qualitativa com inspiração etnográfica, o trabalho buscou contribuir para os trabalhos sobre os discursos médico-legais desse período ao jogar luz nas variações, diferenças e hierarquias constantes das produções dos indivíduos tidos por homossexuais, estando especialmente atenta às intersecções de classe, raça e gênero. Para analisar o pensamento médico-legal dessa época foram selecionados manuais e livros especializados produzidos por nomes de destaque da área. Identifiquei que o homossexualismo foi pensado a partir de três principais eixos, a teoria da degenerescência, a endocrinologia e a psicanálise e que, ao produzirem os homossexualismos, esses discursos também produziam a qualificação dos comportamentos em masculinos e femininos e, em geral, produziam, igualmente, os próprios corpos masculinos e femininos, descrevendo os caracteres somáticos pertencentes a cada um dos sexos e identificando os eventuais desvios presentes nos corpos dos indivíduos homossexuais. Predominava, entre os médicos, a noção de que existia uma associação entre os homossexualismos e os aspectos somáticos dos corpos dos indivíduos. Em geral, mulheres e homens cujos comportamentos e corpos mais desviavam, respectivamente, dos ideais de masculinidade ou de feminilidade eram considerados(as) os casos mais típicos ou os graus mais acentuados de homossexualismo. Os homossexualismos feminino eram tratados ora como mais raros ou menos visíveis do que os masculinos, ora como mais comuns e menos sexualizados. Foi identificada uma maior variação dos homossexualismos masculinos, em termos de comportamentos em geral. Em alguns dos textos analisados foi possível identificar uma associação entre pobreza e o homossexualismo. Os discursos médico-legais, ao mesmo tempo que, em geral, propunham a não punição dos indivíduos considerados homossexuais fundamentados na ideia de uma ausência da responsabilidade desses indivíduos pela presença de uma patologia/anormalidade que prejudicava seu autocontrole, eles inscreviam o homossexualismo no âmbito penal ao associá-lo com a periculosidade. Os indivíduos homossexuais mais associados à criminalidade e/ou à periculosidade eram homens pretos, pobres e pederastas ativos. Entre as mulheres homossexuais, as prostitutas, as masculinizadas, as negras e as com comportamento sexual considerado ativo foram especialmente associadas às noções de periculosidade, criminalidade ou violência.The period between 1925 and 1945 in Brazil was marked by great interest among Forensic Medicine professionals in the topic then referred to, among other terms, as homosexuality. These professionals proposed transferring the problem of homosexuality from the legal to the medical sphere. This research focused precisely on these forensic medicine discourses. Its main objective was to analyze whether and how female and male homosexualities were produced and differentiated by Forensic Medicine in Brazil and associated with criminality and/or dangerousness in the period from 1925 to 1945. Based on qualitative research with ethnographic inspiration, the work sought to contribute to the work on forensic medicine discourses of this period by shedding light on the variations, differences, and constant hierarchies in the productions of individuals considered homosexual, paying special attention to the intersections of class, race, and gender. To analyze the forensic medicine thought of this period, specialized manuals and books produced by prominent names in the field were selected. I identified that homosexuality was conceived from three main axes: the theory of degeneration, endocrinology and psychoanalysis. In producing homosexualities, these discourses also produced the classification of behaviors as masculine and feminine, and in general, they also produced the male and female bodies themselves, describing the somatic characteristics belonging to each sex and identifying the possible deviations present in the bodies of homosexual individuals. The notion that there was an association between homosexualities and the somatic aspects of the bodies of individuals predominated among doctors. In general, women and men whose behaviors and bodies deviated the most, respectively, from the ideals of masculinity or femininity were considered the most typical cases or the most pronounced degrees of homosexuality. Female homosexuality was sometimes treated as rarer or less visible than male homosexuality, and sometimes as more common and less sexualized. A greater variation in male homosexuality was identified in terms of general behavior. In some of the texts analyzed, it was possible to identify an association between poverty and homosexuality. While medico-legal discourses generally proposed not punishing individuals considered homosexual based on the idea that these individuals were not responsible for the presence of a pathology/abnormality that impaired their self-control, they also included homosexuality in the criminal sphere by associating it with dangerousness. The homosexual individuals most associated with criminality and/or dangerousness were black, poor, and active pederast men. Among homosexual women, prostitutes, masculine women, black women and those with active sexual behavior were especially associated with notions of dangerousness, criminality or violence.Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USPCampos, Roberto Augusto de CarvalhoPilão, Antonio CerdeiraCoscrato, Nathália de Morais2025-05-09info:eu-repo/semantics/publishedVersioninfo:eu-repo/semantics/doctoralThesisapplication/pdfhttps://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/2/2136/tde-21082025-163321/reponame:Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USPinstname:Universidade de São Paulo (USP)instacron:USPLiberar o conteúdo para acesso público.info:eu-repo/semantics/openAccesspor2026-03-12T17:58:23Zoai:teses.usp.br:tde-21082025-163321Biblioteca Digital de Teses e Dissertaçõeshttp://www.teses.usp.br/PUBhttp://www.teses.usp.br/cgi-bin/mtd2br.plvirginia@if.usp.br|| atendimento@aguia.usp.br||virginia@if.usp.bropendoar:27212026-03-12T17:58:23Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP - Universidade de São Paulo (USP)false
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