\"Agora é cada um por si\": Avaliação de Impacto, governança e conflitos nos sistemas socioecológicos pesqueiros afetados pelas usinas hidrelétricas do rio Madeira

Detalhes bibliográficos
Ano de defesa: 2025
Autor(a) principal: Alves, Guilherme Prado
Orientador(a): Não Informado pela instituição
Banca de defesa: Não Informado pela instituição
Tipo de documento: Tese
Tipo de acesso: Acesso aberto
Idioma: por
Instituição de defesa: Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USP
Programa de Pós-Graduação: Não Informado pela instituição
Departamento: Não Informado pela instituição
País: Não Informado pela instituição
Palavras-chave em Português:
Link de acesso: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/100/100136/tde-12092025-195636/
Resumo: Arranjos de governança coordenados tendem a se diferenciar em policêntricos ou centralizados em função da distribuição de poder na tomada de decisões. Enquanto estruturas policêntricas dispõem de múltiplos centros decisórios semiautônomos distribuídos em diferentes níveis institucionais e espaciais, arranjos centralizados concentram a tomada de decisão em um único agente ou grupo, ainda que possibilitem espaços para consulta pública. Sistemas socioecológicos resilientes geralmente desenvolvem estruturas de governança mais policêntricas para garantir a sustentabilidade a longo prazo. Por outro lado, a governança formal e a prática predominante da Avaliação de Impacto Ambiental (AIA) tem apresentado características tipicamente centralizadas. Assumindo que a AIA incide diretamente sobre sistemas socioecológicos desde a análise de viabilidade ambiental até a gestão dos impactos de empreendimentos e atividades causadoras de significativa degradação ambiental, é plausível que a interação entre os arranjos de governança do instrumento e do meio gere repercussões complexas sobre as configurações institucionais pré-existentes. Assim, tem-se como hipótese que a ausência de uma abordagem policêntrica em processos de AIA tem levado à intensificação de conflitos socioambientais em torno de projetos de infraestrutura, devido à baixa capacidade do instrumento de incorporar as perspectivas de governança dos usuários locais na tomada de decisão e nos mecanismos de gestão e mitigação de impactos. Diante deste contexto, este trabalho assume como objetivo analisar como o modelo de governança da AIA se relaciona com os conflitos socioambientais que emergem nos territórios onde incidem grandes projetos de infraestrutura, a partir da perspectiva da governança dos sistemas socioecológicos. Trata-se de um estudo de caso sobre o sistema socioecológico pesqueiro afetado pelas usinas hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no rio Madeira (Rondônia, Amazônia Brasileira). Adotou-se uma abordagem qualitativa, fundamentada em análise documental sobre os documentos vinculados ao processo de AIA dos empreendimentos, e entrevistas semiestruturadas, aplicadas a usuários e gestores do sistema socioecológico pesqueiro. As entrevistas foram submetidas à validação em oficinas participativas e à análise de conteúdo no software Atlas.ti, considerando as categorias: governança, etapa da AIA e conflitos do sistema pesqueiro. Os resultados apontaram para um cenário precedente à instalação das usinas marcado por arranjos de co-gestão e instituições capazes de endereçar conflitos locais da pesca em dimensões conhecidas. Em contraste, há indicativos que apontam para uma abordagem centralizada no decorrer da AIA, e conflitos predominantes nas etapas de participação social e programas ambientais no estudo de caso. Assume-se que práticas em AIA foram cooptadas pelo poder dominante, desestruturando o tecido de governança pré-existente e, juntamente com o arranjo político-institucional vigente, têm movido o sistema para um espectro cada vez mais centralizado, em que agentes governamentais e usinas hidrelétricas determinam regras formais de acesso aos recursos, enquanto usuários locais não dispõem de capacidade institucional suficiente para lidar com os desafios e conflitos emergentes. O estudo de caso e a perspectiva dos usuários trazem aprendizados para a implantação de projetos na Amazônia, reflexões sobre justiça ambiental na distribuição de benefícios e externalidades negativas do \"desenvolvimento\" e apontamentos para a transição energética e um novo modelo de geração de energia no país.
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Enquanto estruturas policêntricas dispõem de múltiplos centros decisórios semiautônomos distribuídos em diferentes níveis institucionais e espaciais, arranjos centralizados concentram a tomada de decisão em um único agente ou grupo, ainda que possibilitem espaços para consulta pública. Sistemas socioecológicos resilientes geralmente desenvolvem estruturas de governança mais policêntricas para garantir a sustentabilidade a longo prazo. Por outro lado, a governança formal e a prática predominante da Avaliação de Impacto Ambiental (AIA) tem apresentado características tipicamente centralizadas. Assumindo que a AIA incide diretamente sobre sistemas socioecológicos desde a análise de viabilidade ambiental até a gestão dos impactos de empreendimentos e atividades causadoras de significativa degradação ambiental, é plausível que a interação entre os arranjos de governança do instrumento e do meio gere repercussões complexas sobre as configurações institucionais pré-existentes. 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Adotou-se uma abordagem qualitativa, fundamentada em análise documental sobre os documentos vinculados ao processo de AIA dos empreendimentos, e entrevistas semiestruturadas, aplicadas a usuários e gestores do sistema socioecológico pesqueiro. As entrevistas foram submetidas à validação em oficinas participativas e à análise de conteúdo no software Atlas.ti, considerando as categorias: governança, etapa da AIA e conflitos do sistema pesqueiro. Os resultados apontaram para um cenário precedente à instalação das usinas marcado por arranjos de co-gestão e instituições capazes de endereçar conflitos locais da pesca em dimensões conhecidas. Em contraste, há indicativos que apontam para uma abordagem centralizada no decorrer da AIA, e conflitos predominantes nas etapas de participação social e programas ambientais no estudo de caso. Assume-se que práticas em AIA foram cooptadas pelo poder dominante, desestruturando o tecido de governança pré-existente e, juntamente com o arranjo político-institucional vigente, têm movido o sistema para um espectro cada vez mais centralizado, em que agentes governamentais e usinas hidrelétricas determinam regras formais de acesso aos recursos, enquanto usuários locais não dispõem de capacidade institucional suficiente para lidar com os desafios e conflitos emergentes. O estudo de caso e a perspectiva dos usuários trazem aprendizados para a implantação de projetos na Amazônia, reflexões sobre justiça ambiental na distribuição de benefícios e externalidades negativas do \"desenvolvimento\" e apontamentos para a transição energética e um novo modelo de geração de energia no país.Coordinated governance arrangements tend to differ between polycentric and centralized models, depending on how decision-making power is distributed. Polycentric structures involve multiple semi-autonomous decision-making centers operating across various institutional and spatial levels. In contrast, centralized arrangements concentrate decisions in a single agent or group, even when public consultation mechanisms exist. Resilient social-ecological systems generally adopt more polycentric governance structures to ensure long-term sustainability. However, the formal governance and prevailing practice of Environmental Impact Assessment (EIA) have typically followed a centralized approach. Since EIA directly affects social-ecological systems from environmental feasibility analysis to impact management of projects and activities that cause significant environmental degradation we argue that the interaction between EIA governance arrangements and those of the affected systems generates complex consequences for pre-existing institutional configurations. We hypothesize that the absence of a polycentric approach in EIA processes has contributed to the intensification of socio-environmental conflicts related to infrastructure projects. This occurs because EIA often lacks the capacity to incorporate local users governance perspectives into decision-making and into mechanisms for managing and mitigating impacts. In this context, we aim to analyze how EIAs governance approach relates to socio-environmental conflicts that emerge or intensify during the process, focusing on large-scale infrastructure projects. We present a case study of the fisheries social-ecological system affected by the Jirau and Santo Antônio hydroelectric dams, located on the Madeira River (Rondônia, Brazilian Amazon). We adopted a qualitative research approach based on document analysis of the EIA processes related to the projects, combined with semi-structured interviews with users and managers of the fisheries system. We validated the interviews through participatory workshops and conducted content analysis using Atlas.ti software, guided by the categories of governance, EIA stage, and conflicts within the fishing system. Our results reveal that, prior to the installation of the dams, the region had co-management arrangements and institutions that addressed local fisheries conflicts within familiar dimensions. In contrast, we observed a shift toward a centralized approach during the EIA process, with conflicts emerging mainly in the stages of public participation and implementation of environmental programs. We argue that co-opted EIA practices driven by dominant actors disrupted the previously existing governance arrangement and, aligned with the prevailing political-institutional agenda, pushed the system toward a more centralized perspective In this model, government agencies and hydroelectric companies set formal rules for resource access, while local users lack the institutional capacity to respond to emerging challenges and conflicts. This case study and the perceptions from local users offer important insights and lessons for the implementation of large-scale projects in the Amazon. Our findings contribute to broader discussions on environmental justice, particularly regarding the distribution of benefits and negative externalities of \"development\", and point toward the need for more inclusive approaches to the energy transition and to rethinking Brazils energy generation model.Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USPMoretto, Evandro MateusAlves, Guilherme Prado2025-07-16info:eu-repo/semantics/publishedVersioninfo:eu-repo/semantics/doctoralThesisapplication/pdfhttps://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/100/100136/tde-12092025-195636/reponame:Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USPinstname:Universidade de São Paulo (USP)instacron:USPLiberar o conteúdo para acesso público.info:eu-repo/semantics/openAccesspor2025-10-13T11:33:02Zoai:teses.usp.br:tde-12092025-195636Biblioteca Digital de Teses e Dissertaçõeshttp://www.teses.usp.br/PUBhttp://www.teses.usp.br/cgi-bin/mtd2br.plvirginia@if.usp.br|| atendimento@aguia.usp.br||virginia@if.usp.bropendoar:27212025-10-13T11:33:02Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP - Universidade de São Paulo (USP)false
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description Arranjos de governança coordenados tendem a se diferenciar em policêntricos ou centralizados em função da distribuição de poder na tomada de decisões. Enquanto estruturas policêntricas dispõem de múltiplos centros decisórios semiautônomos distribuídos em diferentes níveis institucionais e espaciais, arranjos centralizados concentram a tomada de decisão em um único agente ou grupo, ainda que possibilitem espaços para consulta pública. Sistemas socioecológicos resilientes geralmente desenvolvem estruturas de governança mais policêntricas para garantir a sustentabilidade a longo prazo. Por outro lado, a governança formal e a prática predominante da Avaliação de Impacto Ambiental (AIA) tem apresentado características tipicamente centralizadas. Assumindo que a AIA incide diretamente sobre sistemas socioecológicos desde a análise de viabilidade ambiental até a gestão dos impactos de empreendimentos e atividades causadoras de significativa degradação ambiental, é plausível que a interação entre os arranjos de governança do instrumento e do meio gere repercussões complexas sobre as configurações institucionais pré-existentes. Assim, tem-se como hipótese que a ausência de uma abordagem policêntrica em processos de AIA tem levado à intensificação de conflitos socioambientais em torno de projetos de infraestrutura, devido à baixa capacidade do instrumento de incorporar as perspectivas de governança dos usuários locais na tomada de decisão e nos mecanismos de gestão e mitigação de impactos. Diante deste contexto, este trabalho assume como objetivo analisar como o modelo de governança da AIA se relaciona com os conflitos socioambientais que emergem nos territórios onde incidem grandes projetos de infraestrutura, a partir da perspectiva da governança dos sistemas socioecológicos. Trata-se de um estudo de caso sobre o sistema socioecológico pesqueiro afetado pelas usinas hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no rio Madeira (Rondônia, Amazônia Brasileira). Adotou-se uma abordagem qualitativa, fundamentada em análise documental sobre os documentos vinculados ao processo de AIA dos empreendimentos, e entrevistas semiestruturadas, aplicadas a usuários e gestores do sistema socioecológico pesqueiro. As entrevistas foram submetidas à validação em oficinas participativas e à análise de conteúdo no software Atlas.ti, considerando as categorias: governança, etapa da AIA e conflitos do sistema pesqueiro. Os resultados apontaram para um cenário precedente à instalação das usinas marcado por arranjos de co-gestão e instituições capazes de endereçar conflitos locais da pesca em dimensões conhecidas. Em contraste, há indicativos que apontam para uma abordagem centralizada no decorrer da AIA, e conflitos predominantes nas etapas de participação social e programas ambientais no estudo de caso. Assume-se que práticas em AIA foram cooptadas pelo poder dominante, desestruturando o tecido de governança pré-existente e, juntamente com o arranjo político-institucional vigente, têm movido o sistema para um espectro cada vez mais centralizado, em que agentes governamentais e usinas hidrelétricas determinam regras formais de acesso aos recursos, enquanto usuários locais não dispõem de capacidade institucional suficiente para lidar com os desafios e conflitos emergentes. O estudo de caso e a perspectiva dos usuários trazem aprendizados para a implantação de projetos na Amazônia, reflexões sobre justiça ambiental na distribuição de benefícios e externalidades negativas do \"desenvolvimento\" e apontamentos para a transição energética e um novo modelo de geração de energia no país.
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