A política de educação em prisões no estado de Rondônia: uma análise do primeiro Plano Estadual de Educação para pessoas privadas de liberdade e egressas do sistema prisional do estado de Rondôn

Detalhes bibliográficos
Ano de defesa: 2025
Autor(a) principal: Silva, Daiane Trindade da
Orientador(a): Não Informado pela instituição
Banca de defesa: Não Informado pela instituição
Tipo de documento: Tese
Tipo de acesso: Acesso aberto
Idioma: por
Instituição de defesa: Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USP
Programa de Pós-Graduação: Não Informado pela instituição
Departamento: Não Informado pela instituição
País: Não Informado pela instituição
Palavras-chave em Português:
Link de acesso: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/48/48139/tde-05112025-102804/
Resumo: A presente pesquisa teve por objetivo analisar criticamente o primeiro Plano Estadual de Educação para Pessoas Privadas de Liberdade e Egressas no Estado de Rondônia, elaborado para o quadriênio 2021-2024, compreendendo-o como uma política pública voltada à garantia do direito à educação no sistema prisional. A análise fundamenta-se metodologicamente na abordagem do Ciclo de Políticas de Stephen Ball e colaboradores, conforme sistematizado no Brasil por Jefferson Mainardes, com foco na investigação dos contextos de influência, produção de texto e prática. A metodologia adotada combina pesquisa documental e bibliográfica, centrada nos dispositivos legais, nos relatórios e no próprio Plano Estadual de Educação em Prisões de Rondônia, com entrevistas e questionários aplicados a sujeitos envolvidos no processo educacional em prisões, especialmente atores que colaboraram para a construção do plano e professores do sistema prisional vinculados à Secretaria de Educação do Estado de Rondônia (SEDUC) e Secretaria de Justiça do Estado de Rondônia (SEJUS). O estudo revelou que: a) O processo de construção do Plano Estadual de Rondônia foi impulsionado por normativas e diretrizes nacionais, em especial o Decreto nº 7.626/2011, e por pressões institucionais de órgãos federais, configurando um contexto de influência marcado pela centralização decisória e ausência de participação dos sujeitos da base educacional; b) A produção textual do plano resultou em um documento predominantemente tecnocrático, com forte caráter prescritivo, carente de densidade pedagógica e distante das especificidades do território rondoniense, especialmente das unidades prisionais do interior do estado; c) No contexto da prática, a política não se materializa como instrumento articulador da educação prisional: professores relatam a inexistência de formação continuada, ausência de materiais didáticos, invisibilidade das escolas fora da capital e falta de devolutiva sobre os dados e relatórios enviados, o que configura um cenário de descontinuidade e apagamento institucional; d) A elaboração do plano não demonstrou ter sido precedida por espaços reais de escuta dos educadores, tampouco das pessoas privadas de liberdade, público-alvo da política, reiterando uma lógica de construção de cima para baixo, alheia aos saberes da prática e às singularidades dos sujeitos envolvidos; e) A despeito do discurso intersetorial presente no texto do plano, não se verificou, na prática e no âmbito desta pesquisa, articulação efetiva entre SEDUC, SEJUS e demais instituições envolvidas na gestão das unidades penais. Por fim, embora agentes gestores tenham demonstrado expectativa em torno do novo ciclo de planejamento (2024-2028), o estudo problematiza se essa esperança se converterá em mudança substantiva de rumos. A análise aponta que, sem o reconhecimento da complexidade da política educacional no cárcere, sem a valorização dos saberes docentes e sem mecanismos efetivos de participação, monitoramento, escuta e transparência, o novo plano poderá reiterar os mesmos processos e ausências do anterior, ou seja, a elaboração de um documento de gestão que não implica na efetividade da política. Ainda assim, o plano representa um marco importante na institucionalização do direito à educação para pessoas privadas de liberdade e egressas do sistema prisional, sendo, portanto, um documento integrante da política de educação em prisões, que pode se imbuir de gestão democrática e reparação social.
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spelling A política de educação em prisões no estado de Rondônia: uma análise do primeiro Plano Estadual de Educação para pessoas privadas de liberdade e egressas do sistema prisional do estado de RondônThe prison education policy: the first state education plan for individuals deprived of liberty and formerly incarcerated individuals in the state of RondôniaDireito à educaçãoEducação em prisõesFirst state education Plan for prisons in RondôniaPolíticas públicasPrimeiro plano estadual de educação em prisões de RondôniaPrison educationPublic policiesRight to educationA presente pesquisa teve por objetivo analisar criticamente o primeiro Plano Estadual de Educação para Pessoas Privadas de Liberdade e Egressas no Estado de Rondônia, elaborado para o quadriênio 2021-2024, compreendendo-o como uma política pública voltada à garantia do direito à educação no sistema prisional. A análise fundamenta-se metodologicamente na abordagem do Ciclo de Políticas de Stephen Ball e colaboradores, conforme sistematizado no Brasil por Jefferson Mainardes, com foco na investigação dos contextos de influência, produção de texto e prática. A metodologia adotada combina pesquisa documental e bibliográfica, centrada nos dispositivos legais, nos relatórios e no próprio Plano Estadual de Educação em Prisões de Rondônia, com entrevistas e questionários aplicados a sujeitos envolvidos no processo educacional em prisões, especialmente atores que colaboraram para a construção do plano e professores do sistema prisional vinculados à Secretaria de Educação do Estado de Rondônia (SEDUC) e Secretaria de Justiça do Estado de Rondônia (SEJUS). O estudo revelou que: a) O processo de construção do Plano Estadual de Rondônia foi impulsionado por normativas e diretrizes nacionais, em especial o Decreto nº 7.626/2011, e por pressões institucionais de órgãos federais, configurando um contexto de influência marcado pela centralização decisória e ausência de participação dos sujeitos da base educacional; b) A produção textual do plano resultou em um documento predominantemente tecnocrático, com forte caráter prescritivo, carente de densidade pedagógica e distante das especificidades do território rondoniense, especialmente das unidades prisionais do interior do estado; c) No contexto da prática, a política não se materializa como instrumento articulador da educação prisional: professores relatam a inexistência de formação continuada, ausência de materiais didáticos, invisibilidade das escolas fora da capital e falta de devolutiva sobre os dados e relatórios enviados, o que configura um cenário de descontinuidade e apagamento institucional; d) A elaboração do plano não demonstrou ter sido precedida por espaços reais de escuta dos educadores, tampouco das pessoas privadas de liberdade, público-alvo da política, reiterando uma lógica de construção de cima para baixo, alheia aos saberes da prática e às singularidades dos sujeitos envolvidos; e) A despeito do discurso intersetorial presente no texto do plano, não se verificou, na prática e no âmbito desta pesquisa, articulação efetiva entre SEDUC, SEJUS e demais instituições envolvidas na gestão das unidades penais. Por fim, embora agentes gestores tenham demonstrado expectativa em torno do novo ciclo de planejamento (2024-2028), o estudo problematiza se essa esperança se converterá em mudança substantiva de rumos. A análise aponta que, sem o reconhecimento da complexidade da política educacional no cárcere, sem a valorização dos saberes docentes e sem mecanismos efetivos de participação, monitoramento, escuta e transparência, o novo plano poderá reiterar os mesmos processos e ausências do anterior, ou seja, a elaboração de um documento de gestão que não implica na efetividade da política. Ainda assim, o plano representa um marco importante na institucionalização do direito à educação para pessoas privadas de liberdade e egressas do sistema prisional, sendo, portanto, um documento integrante da política de educação em prisões, que pode se imbuir de gestão democrática e reparação social.This research aimed to critically analyze the first State Education Plan for People Deprived of Liberty and Formerly Incarcerated Individuals in the state of Rondônia, developed for the 2021-2024 period, understanding it as a public policy directed at guaranteeing the right to education within the prison system. The analysis is based on the Policy Cycle approach by Stephen Ball and collaborators, as systematized in Brazil by Jefferson Mainardes, focusing on the contexts of influence, policy text production, and practice. The methodology combines documentary and bibliographic research focused on legal frameworks, official reports, and the State Education Plan for Prisons of Rondônia itself with interviews and questionnaires applied to subjects involved in the process, especially those who collaborated in drafting the plan and prison system teachers linked to SEDUC and SEJUS. The study revealed that: (a) The construction process of Rondônias state plan was driven by national guidelines, particularly Decree No. 7.626/2011, and by institutional pressures from federal bodies, configuring a context of influence marked by centralized decision-making and lack of participation from actors at the educational base; (b) The textual production of the plan resulted in a predominantly technocratic and prescriptive document, lacking pedagogical depth and disconnected from the specificities of the state of Rondônia especially from prison units located in the countryside; (c) In the context of practice, the policy fails to materialize as a coordinating instrument for prison education: teachers report the absence of continuing education, lack of teaching materials, invisibility of rural prison schools, and no feedback on submitted reports and data, evidencing a scenario of discontinuity and institutional erasure; (d) The drafting of the plan was not preceded by genuine listening spaces with educators, nor with the incarcerated individuals the main subjects of the policy reinforcing a top-down construction logic, detached from the knowledge of practice and the particularities of those involved; (e) Despite the intersectoral discourse present in the plans text, no effective articulation was observed in practice between SEDUC, SEJUS, and other institutions managing prison units. Finally, although managing agents have expressed optimism about the upcoming planning cycle (2024-2028), this study questions whether such hope will indeed translate into substantive changes. The analysis suggests that, without recognizing the complexity of prison education policy, without valuing the knowledge of educators, and without establishing effective mechanisms for monitoring, transparency, and participatory governance, the new plan risks repeating the same structural shortcomings of its predecessor namely, the fictionalization of a policy that is not effectively implemented. Nevertheless, the plan stands as an important milestone in the institutionalization of the right to education for people deprived of liberty and those formerly incarcerated. It must, therefore, be continually contested and reclaimed as a concrete tool for democratic management and social reparation.Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USPOliveira, Carolina Bessa Ferreira deSilva, Daiane Trindade da2025-08-29info:eu-repo/semantics/publishedVersioninfo:eu-repo/semantics/doctoralThesisapplication/pdfhttps://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/48/48139/tde-05112025-102804/reponame:Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USPinstname:Universidade de São Paulo (USP)instacron:USPLiberar o conteúdo para acesso público.info:eu-repo/semantics/openAccesspor2026-01-30T16:51:02Zoai:teses.usp.br:tde-05112025-102804Biblioteca Digital de Teses e Dissertaçõeshttp://www.teses.usp.br/PUBhttp://www.teses.usp.br/cgi-bin/mtd2br.plvirginia@if.usp.br|| atendimento@aguia.usp.br||virginia@if.usp.bropendoar:27212026-01-30T16:51:02Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP - Universidade de São Paulo (USP)false
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