Contabilidade na e para a economia solidária: outras formas de contar
| Ano de defesa: | 2025 |
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| Tipo de documento: | Tese |
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Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USP
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| Programa de Pós-Graduação: |
Não Informado pela instituição
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| País: |
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| Palavras-chave em Português: | |
| Link de acesso: | https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/12/12136/tde-24102025-172240/ |
Resumo: | A Economia Solidária (ES) é um modo de produção, comercialização, consumo, crédito e trocas pautado pela cooperação e pela solidariedade, no qual trabalhadores(as) associados(as) livremente são detentores(as) dos meios de produção e do resultado do trabalho, e estão organizados(as) autogestionariamente. Em uma abordagem pós-desenvolvimentista, incorpora a filosofia de povos originários, o bem-viver, e, do ponto de vista sociológico-econômico, está fundamentada na perspectiva da pluralidade econômica, contrapondo-se à centralidade do princípio de intercâmbio (mercado) que alicerça o capitalismo, ao qual se apresenta como alternativa. A contabilidade desempenha um papel relevante na consolidação da autogestão e dos Coletivos Econômicos Solidários (CES), tanto ao oferecer instrumentos de prestação de contas que promovem a transparência - um dos princípios da autogestão - quanto ao prover informações úteis para orientar a tomada de decisões. No entanto, para cumprir essa função, é essencial que trabalhadores(as) compreendam as informações contábeis e se apropriem desses saberes e práticas. Considerando que a ES atua nos interstícios do capitalismo, com o qual disputa espaço, a ciência contábil também precisa ser disputada por ela, a fim de que conhecimento e ferramentas alinhadas às suas premissas sejam desenvolvidas e estejam disponíveis aos CES, potencializando-os em direção à sustentabilidade econômica e à construção do bem-viver coletivo, seus principais objetivos. Nesse contexto, esta tese buscou aprofundar a reflexão sobre possibilidades e desafios na direção da construção coletiva de uma contabilidade na e para a ES - aderente às suas premissas e de caráter emancipatório -, aproveitando, ao mesmo tempo, conhecimentos e instrumentos da contabilidade convencional que possam ser úteis aos coletivos para a efetivação de seus propósitos. Para tanto, desenvolveu-se uma pesquisa em duas etapas, uma bibliográfica e outra teórico-empírica. Na primeira, apurou-se o estado da arte sobre a contabilidade na ES, inicialmente centrada na produção acadêmica brasileira, em uma revisão curta de literatura, que resultou na genealogia dos estudos nacionais, seguida por uma revisão integrativa da literatura internacional, na qual se destaca a produção latino-americana. Na segunda etapa, recorreu-se à estratégia metodológica da Teoria Fundamentada para colecionar e analisar o compartilhamento das vivências de 34 pessoas envolvidas nessa economia, entre trabalhadores(as), contabilistas e pessoas mediadoras, ouvidas em entrevistas semiestruturadas. Como resultado geral, detectou-se, de um lado, uma postura mimética de contabilistas e pessoas pesquisadoras ao conectar a contabilidade à ES, transladando práticas dos empreendimentos tradicionais capitalistas de forma normativa, sem (ou com pouca) discussão sobre aderência ou pertinência dessas práticas aos princípios da ES, e, de outro lado, uma abordagem de alteridade, na qual as características dos CES e os fundamentos da ES são reconhecidos como constitutivos de uma outra realidade para a qual a (in)compatibilidade das práticas contábeis dominantes deve ser questionada sob lentes da educação popular e da contabilidade crítica. Identificou-se a presença da contabilidade nos CES para atender a duas grandes demandas: o cumprimento de conformidades societária/estatutária e fiscal e a instrumentalização de práticas da autogestão. Em ambos os casos, as funções de prestação de contas e de provimento de informações se interrelacionam. A primeira demanda tem ficado a cargo de contabilista, enquanto a segunda tem pouca atuação desse(a) profissional, sendo apoiada sobretudo por incubadoras universitárias. O uso do material produzido para conformidade nos processos de autogestão dependerá do quanto trabalhadores(as) se apropriaram da linguagem contábil e da tempestividade com que tal material é gerado, do contrário, ganha sentido pró-forma. Por sua vez, a contabilidade para a autogestão está presente em todos os coletivos - formalizados ou não -, manifestando-se nas práxis de controle dos(as) trabalhadores(as), que servem para acompanhar as ações do grupo e seus efeitos. O nível de uso e a complexidade dessas e de outras ferramentas dependerá da estrutura do coletivo, do amadurecimento de práticas de gestão e do acesso a formações ou a assessorias para temas contábeis. Como instrumento de promoção da transparência, a contabilidade fortalece a confiança e reforça o sentimento de pertencimento e coletividade. No entanto, embora conscientes de sua importância, trabalhadores(as) enfrentam dificuldades para manter reuniões de autogestão frequentes e uma rotina de registros contínua e organizada, dado que estão imersos(as) no trabalho que garante a renda imediata. Essa realidade, somada ao tecnicismo da linguagem e das formas contábeis, representa uma barreira significativa para a apropriação da contabilidade por parte desses(as) agentes. A contabilidade popular pode assumir o papel de catalisadora do processo de apropriação contábil, especialmente se inserida nas políticas públicas de fomento à ES, sobretudo em um enlace com as incubadoras universitárias, que têm sido a principal fonte de assessoramento para a autogestão dos CES, além de laboratórios para a pesquisa contábil. Adicionalmente, se faz a proposição embrionária da contabilidade para o bem-viver, cujo objetivo é prover informações úteis para a tomada de decisões socioeconômicas solidárias orientadas ao bem-viver coletivo. Por fim, são elencadas lacunas identificadas no estudo com potencial para converterem-se em agendas de pesquisa futura. |
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Contabilidade na e para a economia solidária: outras formas de contarAccounting in and for the solidarity economy: alternative narrativesAccounting for buen vivirAccounting for self-managementColetivos econômicos solidáriosContabilidade para a autogestãoContabilidade para o bem-viverContabilidade popularEconomia solidáriaPopular accountingSolidarity economic collectivesSolidarity economyA Economia Solidária (ES) é um modo de produção, comercialização, consumo, crédito e trocas pautado pela cooperação e pela solidariedade, no qual trabalhadores(as) associados(as) livremente são detentores(as) dos meios de produção e do resultado do trabalho, e estão organizados(as) autogestionariamente. Em uma abordagem pós-desenvolvimentista, incorpora a filosofia de povos originários, o bem-viver, e, do ponto de vista sociológico-econômico, está fundamentada na perspectiva da pluralidade econômica, contrapondo-se à centralidade do princípio de intercâmbio (mercado) que alicerça o capitalismo, ao qual se apresenta como alternativa. A contabilidade desempenha um papel relevante na consolidação da autogestão e dos Coletivos Econômicos Solidários (CES), tanto ao oferecer instrumentos de prestação de contas que promovem a transparência - um dos princípios da autogestão - quanto ao prover informações úteis para orientar a tomada de decisões. No entanto, para cumprir essa função, é essencial que trabalhadores(as) compreendam as informações contábeis e se apropriem desses saberes e práticas. Considerando que a ES atua nos interstícios do capitalismo, com o qual disputa espaço, a ciência contábil também precisa ser disputada por ela, a fim de que conhecimento e ferramentas alinhadas às suas premissas sejam desenvolvidas e estejam disponíveis aos CES, potencializando-os em direção à sustentabilidade econômica e à construção do bem-viver coletivo, seus principais objetivos. Nesse contexto, esta tese buscou aprofundar a reflexão sobre possibilidades e desafios na direção da construção coletiva de uma contabilidade na e para a ES - aderente às suas premissas e de caráter emancipatório -, aproveitando, ao mesmo tempo, conhecimentos e instrumentos da contabilidade convencional que possam ser úteis aos coletivos para a efetivação de seus propósitos. Para tanto, desenvolveu-se uma pesquisa em duas etapas, uma bibliográfica e outra teórico-empírica. Na primeira, apurou-se o estado da arte sobre a contabilidade na ES, inicialmente centrada na produção acadêmica brasileira, em uma revisão curta de literatura, que resultou na genealogia dos estudos nacionais, seguida por uma revisão integrativa da literatura internacional, na qual se destaca a produção latino-americana. Na segunda etapa, recorreu-se à estratégia metodológica da Teoria Fundamentada para colecionar e analisar o compartilhamento das vivências de 34 pessoas envolvidas nessa economia, entre trabalhadores(as), contabilistas e pessoas mediadoras, ouvidas em entrevistas semiestruturadas. Como resultado geral, detectou-se, de um lado, uma postura mimética de contabilistas e pessoas pesquisadoras ao conectar a contabilidade à ES, transladando práticas dos empreendimentos tradicionais capitalistas de forma normativa, sem (ou com pouca) discussão sobre aderência ou pertinência dessas práticas aos princípios da ES, e, de outro lado, uma abordagem de alteridade, na qual as características dos CES e os fundamentos da ES são reconhecidos como constitutivos de uma outra realidade para a qual a (in)compatibilidade das práticas contábeis dominantes deve ser questionada sob lentes da educação popular e da contabilidade crítica. Identificou-se a presença da contabilidade nos CES para atender a duas grandes demandas: o cumprimento de conformidades societária/estatutária e fiscal e a instrumentalização de práticas da autogestão. Em ambos os casos, as funções de prestação de contas e de provimento de informações se interrelacionam. A primeira demanda tem ficado a cargo de contabilista, enquanto a segunda tem pouca atuação desse(a) profissional, sendo apoiada sobretudo por incubadoras universitárias. O uso do material produzido para conformidade nos processos de autogestão dependerá do quanto trabalhadores(as) se apropriaram da linguagem contábil e da tempestividade com que tal material é gerado, do contrário, ganha sentido pró-forma. Por sua vez, a contabilidade para a autogestão está presente em todos os coletivos - formalizados ou não -, manifestando-se nas práxis de controle dos(as) trabalhadores(as), que servem para acompanhar as ações do grupo e seus efeitos. O nível de uso e a complexidade dessas e de outras ferramentas dependerá da estrutura do coletivo, do amadurecimento de práticas de gestão e do acesso a formações ou a assessorias para temas contábeis. Como instrumento de promoção da transparência, a contabilidade fortalece a confiança e reforça o sentimento de pertencimento e coletividade. No entanto, embora conscientes de sua importância, trabalhadores(as) enfrentam dificuldades para manter reuniões de autogestão frequentes e uma rotina de registros contínua e organizada, dado que estão imersos(as) no trabalho que garante a renda imediata. Essa realidade, somada ao tecnicismo da linguagem e das formas contábeis, representa uma barreira significativa para a apropriação da contabilidade por parte desses(as) agentes. A contabilidade popular pode assumir o papel de catalisadora do processo de apropriação contábil, especialmente se inserida nas políticas públicas de fomento à ES, sobretudo em um enlace com as incubadoras universitárias, que têm sido a principal fonte de assessoramento para a autogestão dos CES, além de laboratórios para a pesquisa contábil. Adicionalmente, se faz a proposição embrionária da contabilidade para o bem-viver, cujo objetivo é prover informações úteis para a tomada de decisões socioeconômicas solidárias orientadas ao bem-viver coletivo. Por fim, são elencadas lacunas identificadas no estudo com potencial para converterem-se em agendas de pesquisa futura.Solidarity Economics (SE) is a mode of production, commercialization, consumption, credit, and exchange guided by cooperation and solidarity, in which freely associated workers are the owners of the means of production and the fruits of their labor, and are organized through selfmanagement. From a post-developmentalist approach, it incorporates the philosophy of indigenous peoples, specifically Buen Vivir (good living). From a socio-economic perspective, it is grounded in the framework of economic plurality, positioning itself in opposition to the centrality of the exchange principle (the market) that underpins capitalism, which it presents as an alternative to. Accounting plays a significant role in consolidating self-management and Solidarity Economic Collectives (SECs) by offering instruments of accountability that promote transparency, a core principle of self-management, and by providing information to inform decision-making. However, to fulfill this function, workers must understand accounting information and adopt these practices and knowledge. Since SE operates within the confines of capitalism, competing with it for space, accounting science must also be contended for by SE. This is necessary so that SECs can develop and utilize knowledge and tools aligned with the SECs\' premises, empowering them toward economic sustainability and the construction of collective well-being - the SECs\' primary objectives. In this context, this thesis aimed to further explore the possibilities and challenges of collectively constructing an accounting for and in SE that adheres to its principles and is emancipatory, while also leveraging knowledge and tools from conventional accounting that could help collectives achieve their goals. To this end, the research was conducted in two stages: a bibliographic stage and an theoretical-empirical stage. In the first stage, the state of the art on accounting in SE was ascertained, initially focused on Brazilian academic production through a shorten literature review, which resulted in a genealogy of national studies. This was followed by an integrative review of international literature that highlighted Latin American production. The second stage employed the Grounded Theory methodological strategy to collect and analyze the shared experiences of 34 individuals involved in the SE economy, including workers, accountants, and facilitators, gathered through semi-structured interviews. In general, two distinct postures were identified. First, there is a mimetic posture among accountants and researchers when connecting accounting to SE. These individuals normatively transfer practices from traditional capitalist enterprises without (or with little) discussion regarding the adherence or relevance of these practices to the principles of SE. On the other hand, an alterity approach was found wherein the characteristics of SECs and the foundations of SE are recognized as constitutive of a distinct reality. For this reality, the compatibility of dominant accounting practices must be questioned through the lenses of popular education and critical accounting. The presence of accounting in SECs was found to serve two main purposes: ensuring compliance with corporate, statutory, and fiscal obligations and facilitating self-management practices. In both cases, accountability and information provision are interrelated functions. The former has typically been the responsibility of accountants, while the latter involves little participation from these professionals and is primarily supported by university incubators. The effectiveness of using compliance-oriented materials in self-management processes depends on how well workers have adopted accounting language and how promptly such materials are generated; otherwise, they become merely pro forma. Conversely, all collectives engage in accounting for self-management, whether formalized or not, which manifests in the workers\' control practices, serving to monitor the group\'s actions and their effects. The extent to which these and other tools are used, and their level of complexity depend on the collective\'s structure, the maturity of its management practices, and its access to training or advisory services on accounting matters. As an instrument for promoting transparency, accounting strengthens trust and reinforces a sense of belonging and collectivity. However, despite recognizing its importance, workers struggle to maintain frequent self-management meetings and an organized recordkeeping routine due to their immersion in work that ensures immediate income. This reality, coupled with the technical nature of accounting language and forms, represents a significant barrier to these agents appropriating accounting. Popular accounting could play a catalytic role in the appropriation of accounting, especially if integrated into public policies that promote social enterprises (SE), particularly in conjunction with university incubators. These incubators are the main source of advisory support for the self-management of SECs and laboratories for accounting research. Additionally, this study proposes an initial model of accounting for Buen Vivir, which aims to provide useful information for socio-economic-solidarity decision-making oriented toward collective well-being. Finally, the study identifies gaps with the potential to convert into agendas for future research.Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USPCasa Nova, Silvia Pereira de Castro Silva, Cíntia do Nascimento2025-10-15info:eu-repo/semantics/publishedVersioninfo:eu-repo/semantics/doctoralThesisapplication/pdfhttps://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/12/12136/tde-24102025-172240/reponame:Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USPinstname:Universidade de São Paulo (USP)instacron:USPLiberar o conteúdo para acesso público.info:eu-repo/semantics/openAccesspor2025-11-10T09:02:02Zoai:teses.usp.br:tde-24102025-172240Biblioteca Digital de Teses e Dissertaçõeshttp://www.teses.usp.br/PUBhttp://www.teses.usp.br/cgi-bin/mtd2br.plvirginia@if.usp.br|| atendimento@aguia.usp.br||virginia@if.usp.bropendoar:27212025-11-10T09:02:02Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP - Universidade de São Paulo (USP)false |
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A Economia Solidária (ES) é um modo de produção, comercialização, consumo, crédito e trocas pautado pela cooperação e pela solidariedade, no qual trabalhadores(as) associados(as) livremente são detentores(as) dos meios de produção e do resultado do trabalho, e estão organizados(as) autogestionariamente. Em uma abordagem pós-desenvolvimentista, incorpora a filosofia de povos originários, o bem-viver, e, do ponto de vista sociológico-econômico, está fundamentada na perspectiva da pluralidade econômica, contrapondo-se à centralidade do princípio de intercâmbio (mercado) que alicerça o capitalismo, ao qual se apresenta como alternativa. A contabilidade desempenha um papel relevante na consolidação da autogestão e dos Coletivos Econômicos Solidários (CES), tanto ao oferecer instrumentos de prestação de contas que promovem a transparência - um dos princípios da autogestão - quanto ao prover informações úteis para orientar a tomada de decisões. No entanto, para cumprir essa função, é essencial que trabalhadores(as) compreendam as informações contábeis e se apropriem desses saberes e práticas. Considerando que a ES atua nos interstícios do capitalismo, com o qual disputa espaço, a ciência contábil também precisa ser disputada por ela, a fim de que conhecimento e ferramentas alinhadas às suas premissas sejam desenvolvidas e estejam disponíveis aos CES, potencializando-os em direção à sustentabilidade econômica e à construção do bem-viver coletivo, seus principais objetivos. Nesse contexto, esta tese buscou aprofundar a reflexão sobre possibilidades e desafios na direção da construção coletiva de uma contabilidade na e para a ES - aderente às suas premissas e de caráter emancipatório -, aproveitando, ao mesmo tempo, conhecimentos e instrumentos da contabilidade convencional que possam ser úteis aos coletivos para a efetivação de seus propósitos. Para tanto, desenvolveu-se uma pesquisa em duas etapas, uma bibliográfica e outra teórico-empírica. Na primeira, apurou-se o estado da arte sobre a contabilidade na ES, inicialmente centrada na produção acadêmica brasileira, em uma revisão curta de literatura, que resultou na genealogia dos estudos nacionais, seguida por uma revisão integrativa da literatura internacional, na qual se destaca a produção latino-americana. Na segunda etapa, recorreu-se à estratégia metodológica da Teoria Fundamentada para colecionar e analisar o compartilhamento das vivências de 34 pessoas envolvidas nessa economia, entre trabalhadores(as), contabilistas e pessoas mediadoras, ouvidas em entrevistas semiestruturadas. Como resultado geral, detectou-se, de um lado, uma postura mimética de contabilistas e pessoas pesquisadoras ao conectar a contabilidade à ES, transladando práticas dos empreendimentos tradicionais capitalistas de forma normativa, sem (ou com pouca) discussão sobre aderência ou pertinência dessas práticas aos princípios da ES, e, de outro lado, uma abordagem de alteridade, na qual as características dos CES e os fundamentos da ES são reconhecidos como constitutivos de uma outra realidade para a qual a (in)compatibilidade das práticas contábeis dominantes deve ser questionada sob lentes da educação popular e da contabilidade crítica. Identificou-se a presença da contabilidade nos CES para atender a duas grandes demandas: o cumprimento de conformidades societária/estatutária e fiscal e a instrumentalização de práticas da autogestão. Em ambos os casos, as funções de prestação de contas e de provimento de informações se interrelacionam. A primeira demanda tem ficado a cargo de contabilista, enquanto a segunda tem pouca atuação desse(a) profissional, sendo apoiada sobretudo por incubadoras universitárias. O uso do material produzido para conformidade nos processos de autogestão dependerá do quanto trabalhadores(as) se apropriaram da linguagem contábil e da tempestividade com que tal material é gerado, do contrário, ganha sentido pró-forma. Por sua vez, a contabilidade para a autogestão está presente em todos os coletivos - formalizados ou não -, manifestando-se nas práxis de controle dos(as) trabalhadores(as), que servem para acompanhar as ações do grupo e seus efeitos. O nível de uso e a complexidade dessas e de outras ferramentas dependerá da estrutura do coletivo, do amadurecimento de práticas de gestão e do acesso a formações ou a assessorias para temas contábeis. Como instrumento de promoção da transparência, a contabilidade fortalece a confiança e reforça o sentimento de pertencimento e coletividade. No entanto, embora conscientes de sua importância, trabalhadores(as) enfrentam dificuldades para manter reuniões de autogestão frequentes e uma rotina de registros contínua e organizada, dado que estão imersos(as) no trabalho que garante a renda imediata. Essa realidade, somada ao tecnicismo da linguagem e das formas contábeis, representa uma barreira significativa para a apropriação da contabilidade por parte desses(as) agentes. A contabilidade popular pode assumir o papel de catalisadora do processo de apropriação contábil, especialmente se inserida nas políticas públicas de fomento à ES, sobretudo em um enlace com as incubadoras universitárias, que têm sido a principal fonte de assessoramento para a autogestão dos CES, além de laboratórios para a pesquisa contábil. Adicionalmente, se faz a proposição embrionária da contabilidade para o bem-viver, cujo objetivo é prover informações úteis para a tomada de decisões socioeconômicas solidárias orientadas ao bem-viver coletivo. 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