A Justiça Restaurativa e a problemática da construção da Justiça do Testemunho

Detalhes bibliográficos
Ano de defesa: 2025
Autor(a) principal: Arantes, Carla
Orientador(a): Não Informado pela instituição
Banca de defesa: Não Informado pela instituição
Tipo de documento: Tese
Tipo de acesso: Acesso aberto
Idioma: por
Instituição de defesa: Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USP
Programa de Pós-Graduação: Não Informado pela instituição
Departamento: Não Informado pela instituição
País: Não Informado pela instituição
Palavras-chave em Português:
Law
Link de acesso: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47133/tde-06082025-175530/
Resumo: Os palcos dos sistemas de justiça têm sido o local por excelência, no ocidente, de busca de reconhecimento dos traumas e das violações de direitos em sentido amplo. Na cena criminal isto se torna ainda mais evidente, assim como as possibilidades de a resposta do Estado, pela voz do judiciário, agravar ainda mais o sofrimento ou servir como importante apoio à recuperação dos sujeitos maculados. A crise que se abate sobre o sistema de justiça penal, dentre outros tantos fatores, deve-se ao fato de ele produzir violência extrema, revitimizar vítimas, falhar em reinserir o agressor e não fazer justiça ao trauma. É nesse contexto que surgem novos dispositivos fundados no diálogo e na responsabilização, em detrimento da punição, tal qual a Justiça Restaurativa (JR). No presente trabalho, buscamos problematizar a Justiça Restaurativa (JR) através da psicanálise e do testemunho com vistas a construir subsídios para o seu aprimoramento. Trata-se de pesquisa teórico-clínica, de cunho qualitativo, e cujo marco teórico é a psicanálise. Também se configura enquanto pesquisa-intervenção, na medida em que a investigação é construída dentro do fenômeno estudado. A parte clínica consistiu na facilitação de um caso de JR pela pesquisadora em instituição do judiciário brasileiro. A pesquisa foi submetida à Comissão de Ética em Pesquisa do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, obtendo parecer favorável (CAAE 77240423.5.0000.5561, número do parecer 6.656.111). A análise dos dados (as sessões de JR registradas a posteriori e o diário clínico da pesquisadora) deu-se a partir da teoria psicanalítica e de um dispositivo grupal, visto que todo material coletado foi analisado em reuniões do grupo de pesquisa \"Clínica de Grupos e Instituições: abordagem Psicanalítica (CLIGIAP) especificamente designadas para tanto. Dentre os achados da pesquisa, constatou-se: a potência do diálogo direito-psicanálise; a relevância de se constituir um pensamento clínico em JR; a necessidade fundamental de se estabelecer espaços institucionais de cuidado do(a) facilitador(a); a imprescindibilidade de supervisão qualificada, sobretudo tendo em vista as intensidades afetivas do campo transfero- contratransferencial em JR. Além disso, verificou-se os riscos de que, ao ficar isolada dos outros atores do judiciário, a JR acabe por se tornar a lata do lixo do sistema de justiça, receptáculo dos desejos de tudo o que não cabe no processo judicial tradicional. O(a) facilitador(a), neste contexto, ficaria na posição de portador de segredos, dos sofrimentos e traumas daqueles que são atendidos pelos sistemas de justiça, em sua maioria pobres, negros e pardos, de baixa escolaridade. Isso pode ser potencializado nos casos de crimes graves que são levados à JR no Brasil, nos quais, frequentemente, o procedimento restaurativo não tem efeitos no processo criminal, ou os efeitos são reduzidos. Apontamos que o enquadre tem importantes repercussões no dispositivo, nas relações transfero-contratransferenciais, nas possibilidades e nos limites do trabalho psíquico que a assunção de responsabilidade requer. Ao final, no sentido de favorecer o processo de mudança institucional, sugeriu-se a apropriação de um dispositivo da saúde pública coletiva, o matriciamento, por meio do qual se reuniriam todos os atores que atuam no mesmo caso de JR com o propósito de refletir sobre a sua melhor conduta clínica.
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É nesse contexto que surgem novos dispositivos fundados no diálogo e na responsabilização, em detrimento da punição, tal qual a Justiça Restaurativa (JR). No presente trabalho, buscamos problematizar a Justiça Restaurativa (JR) através da psicanálise e do testemunho com vistas a construir subsídios para o seu aprimoramento. Trata-se de pesquisa teórico-clínica, de cunho qualitativo, e cujo marco teórico é a psicanálise. Também se configura enquanto pesquisa-intervenção, na medida em que a investigação é construída dentro do fenômeno estudado. A parte clínica consistiu na facilitação de um caso de JR pela pesquisadora em instituição do judiciário brasileiro. A pesquisa foi submetida à Comissão de Ética em Pesquisa do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, obtendo parecer favorável (CAAE 77240423.5.0000.5561, número do parecer 6.656.111). 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O(a) facilitador(a), neste contexto, ficaria na posição de portador de segredos, dos sofrimentos e traumas daqueles que são atendidos pelos sistemas de justiça, em sua maioria pobres, negros e pardos, de baixa escolaridade. Isso pode ser potencializado nos casos de crimes graves que são levados à JR no Brasil, nos quais, frequentemente, o procedimento restaurativo não tem efeitos no processo criminal, ou os efeitos são reduzidos. Apontamos que o enquadre tem importantes repercussões no dispositivo, nas relações transfero-contratransferenciais, nas possibilidades e nos limites do trabalho psíquico que a assunção de responsabilidade requer. Ao final, no sentido de favorecer o processo de mudança institucional, sugeriu-se a apropriação de um dispositivo da saúde pública coletiva, o matriciamento, por meio do qual se reuniriam todos os atores que atuam no mesmo caso de JR com o propósito de refletir sobre a sua melhor conduta clínica.The stages of justice systems have been the main place, in the West, for the search for recognition of trauma and violations of rights in a broad sense. In the criminal scene, this becomes even more evident, as well as the possibilities for the States response, through the judiciary, to further aggravate the suffering or serve as an important support for the recovery of the affected individuals. The crisis that affects the criminal justice system, among many other factors, is due to the fact that it produces extreme violence, revictimizes victims, fails to reintegrate the aggressor, and does not do justice to the trauma. It is in this context that new devices based on dialogue and accountability, rather than punishment, such as Restorative Justice (RJ), emerge. In this study, we seek to problematize Restorative Justice (RJ) through psychoanalysis and testimony in order to build support for its improvement. This is a theoretical-clinical, qualitative research, with the theoretical framework being psychoanalysis. It is also configured as an intervention-research, as the investigation was built within the phenomenon studied. The clinical part consisted of the researcher facilitating an RJ case in a Brazilian judiciary institution. The research was submitted to the Research Ethics Committee of the Institute of Psychology at the University of São Paulo, obtaining a favorable opinion (CAAE 77240423.5.0000.5561, report number 6.656.111). The analysis of the data (the recorded RJ sessions and the researchers clinical diary) was conducted based on psychoanalytic theory and a group device, since all the collected material was analyzed in meetings of the research group \"Clinical Groups and Institutions: Psychoanalytic Approach\" (CLIGIAP), specifically designated for this purpose. Among the findings of the research, it was found: the power of the dialogue between law and psychoanalysis; the relevance of establishing a clinical thought in RJ; the fundamental need to establish institutional spaces for the care of the facilitator; the indispensability of qualified supervision, especially in light of the affective intensities of the transfer-countertransference field in RJ. Furthermore, it was found that if RJ remains isolated from other judicial actors, it may become the \"garbage can\" of the justice system, a receptacle for all that does not fit in the traditional judicial process. In this context, the facilitator would take on the position of the bearer of secrets, of the suffering and trauma of those served by the justice system, mostly poor, Black, individuals with low levels of education. This can be intensified in cases of serious crimes brought to RJ in Brazil, when restorative procedures often have no effect on the criminal process, or their effects are reduced. We point out that the setting has significant repercussions on the device, on the transfer- countertransference relationships, and on the possibilities and limits of the psychic work required by the assumption of responsibility. Finally, in order to favor the process of institutional change, it was suggested that a device from collective public health, called \"matriciamento\", be adopted. Through this device, all actors involved in the same RJ case would come together to reflect on the best clinical conduct.Biblioteca Digitais de Teses e Dissertações da USPBroide, JorgeCastanho, Pablo de Carvalho GodoyArantes, Carla2025-06-06info:eu-repo/semantics/publishedVersioninfo:eu-repo/semantics/doctoralThesisapplication/pdfhttps://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47133/tde-06082025-175530/reponame:Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USPinstname:Universidade de São Paulo (USP)instacron:USPLiberar o conteúdo para acesso público.info:eu-repo/semantics/openAccesspor2025-08-28T18:22:17Zoai:teses.usp.br:tde-06082025-175530Biblioteca Digital de Teses e Dissertaçõeshttp://www.teses.usp.br/PUBhttp://www.teses.usp.br/cgi-bin/mtd2br.plvirginia@if.usp.br|| atendimento@aguia.usp.br||virginia@if.usp.bropendoar:27212025-08-28T18:22:17Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP - Universidade de São Paulo (USP)false
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