“Vidas matáveis”: feminicídio de mulheres negras e interseccionalidades de gênero, raça e classe

Detalhes bibliográficos
Ano de defesa: 2022
Autor(a) principal: Gonçalves, Suelen Aires
Orientador(a): Schabbach, Leticia Maria
Banca de defesa: Não Informado pela instituição
Tipo de documento: Tese
Tipo de acesso: Acesso aberto
Idioma: por
Instituição de defesa: Não Informado pela instituição
Programa de Pós-Graduação: Não Informado pela instituição
Departamento: Não Informado pela instituição
País: Não Informado pela instituição
Palavras-chave em Português:
Palavras-chave em Inglês:
Palavras-chave em Espanhol:
Link de acesso: http://hdl.handle.net/10183/254447
Resumo: Inúmeras pesquisas apontam o aumento significativo de mortes violentas de mulheres no Brasil nas três últimas décadas. Estudos sobre violência contra as mulheres ganharam espaço na academia brasileira, sendo as violências doméstica e familiar o principal foco. Elaborados no bojo da reflexão sobre gênero no Brasil, desde a década de 1970, tais estudos contribuíram com subsídios para a produção de políticas públicas específicas no território brasileiro, processo que contou com a participação de muitas pesquisadoras que ampliaram a compreensão do fenômeno da violência contra mulheres. Esta tese visa contribuir com o debate sobre este indelével fato social, cotidianamente reproduzido no Brasil, tomando como indicador de violência contra as mulheres os feminicídios.A metodologia para desenvolvimento desta tese partiu da análise de processos judiciais como fonte primária de informação. A seleção ocorreu através da Lei de Acesso à Informação junto ao Arquivo do Poder Judiciário do Rio Grande do Sul ,cuja triagem resultou numa base de 138 processos judiciais transitados e julgados do crime de homicídio doloso perpetrados contra mulheres negras e não negras no estado do Rio Grande do Sul, desde meados da década de 1950 até 2010. Destacam-se as interseccionalidades de classe e raça, uma vez que, como indicam as estatísticas, as mulheres negras vêm se tornando as vítimas preferenciais das mortes. Para tanto, acionamos o conceito de “cenário social de violência”, cunhado por Camacho y Guzmán (1997), para apreender as distintas situações, circunstâncias e motivações das mortes de mulheres,com uma análise comparada entre vítimas mulheres negras e não-negras para identificar permanências e mudanças do fenômeno ao longo do tempo. Como achados da pesquisa, verificamos que, em comparação com as mulheres negras, as mulheres não negras são mais vitimadas em um cenário social do crime relacionado ao feminicídio íntimo, perpetrado por companheiro ou ex-companheiro, predominantemente no ambiente doméstico. Em contrapartida, as vítimas mulheres negras são relativamente mais vitimadas (em comparação com as mulheres brancas) em ambientes públicos, ou seja, dentro um cenário social que leva esta tese a caracterizar suas mortes como feminicídio necropolítico. Esta diferença sobre as mortes das mulheres negras e não negras expõe uma nítida insuficiência das politicas públicas de enfrentamento a violência contra as mulheres, com o olhar da interseccionalidade de gênero, raça, classe e teritório.
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spelling Gonçalves, Suelen AiresSchabbach, Leticia Maria2023-02-08T05:02:55Z2022http://hdl.handle.net/10183/254447001161537Inúmeras pesquisas apontam o aumento significativo de mortes violentas de mulheres no Brasil nas três últimas décadas. Estudos sobre violência contra as mulheres ganharam espaço na academia brasileira, sendo as violências doméstica e familiar o principal foco. Elaborados no bojo da reflexão sobre gênero no Brasil, desde a década de 1970, tais estudos contribuíram com subsídios para a produção de políticas públicas específicas no território brasileiro, processo que contou com a participação de muitas pesquisadoras que ampliaram a compreensão do fenômeno da violência contra mulheres. Esta tese visa contribuir com o debate sobre este indelével fato social, cotidianamente reproduzido no Brasil, tomando como indicador de violência contra as mulheres os feminicídios.A metodologia para desenvolvimento desta tese partiu da análise de processos judiciais como fonte primária de informação. A seleção ocorreu através da Lei de Acesso à Informação junto ao Arquivo do Poder Judiciário do Rio Grande do Sul ,cuja triagem resultou numa base de 138 processos judiciais transitados e julgados do crime de homicídio doloso perpetrados contra mulheres negras e não negras no estado do Rio Grande do Sul, desde meados da década de 1950 até 2010. Destacam-se as interseccionalidades de classe e raça, uma vez que, como indicam as estatísticas, as mulheres negras vêm se tornando as vítimas preferenciais das mortes. Para tanto, acionamos o conceito de “cenário social de violência”, cunhado por Camacho y Guzmán (1997), para apreender as distintas situações, circunstâncias e motivações das mortes de mulheres,com uma análise comparada entre vítimas mulheres negras e não-negras para identificar permanências e mudanças do fenômeno ao longo do tempo. Como achados da pesquisa, verificamos que, em comparação com as mulheres negras, as mulheres não negras são mais vitimadas em um cenário social do crime relacionado ao feminicídio íntimo, perpetrado por companheiro ou ex-companheiro, predominantemente no ambiente doméstico. Em contrapartida, as vítimas mulheres negras são relativamente mais vitimadas (em comparação com as mulheres brancas) em ambientes públicos, ou seja, dentro um cenário social que leva esta tese a caracterizar suas mortes como feminicídio necropolítico. Esta diferença sobre as mortes das mulheres negras e não negras expõe uma nítida insuficiência das politicas públicas de enfrentamento a violência contra as mulheres, com o olhar da interseccionalidade de gênero, raça, classe e teritório.Numerous studies point to the significant increase in violent deaths of women in Brazil in the last three decades. Studies on violence against women have gained space in Brazilian academia, with domestic and family violence as the main focus. Elaborated in the context of the reflection on gender in Brazil, since the 1970s, these studies have contributed with subsidies for the production of specific public policies in the Brazilian territory, a process that counted with the participation of many researchers who have broadened the understanding of the phenomenon of violence against women. This thesis aims to contribute to the debate on this indelible social fact, daily reproduced in Brazil, taking feminicides as an indicator of violence against women. The selection occurred through the Access to Information Law at the Archives of the Judiciary of Rio Grande do Sul, whose screening resulted in a database of 138 legal proceedings of the crime of homicide perpetrated against black and non-black women in the state of Rio Grande do Sul, from the mid-1950s until 2010. We highlight the intersectionalities of class and race, since, as statistics indicate, black women have become the preferred victims of deaths. To this end, we used the concept of "social scenario of violence", coined by Camacho y Guzmán (1997), to understand the distinct situations, circumstances and motivations of the deaths of women, with a comparative analysis between black and non-black victims to identify the permanence and changes of the phenomenon over time. As research findings, we verified that, in comparison with black women, non-black women are more victimized in a social scenario of crime related to intimate feminicide, perpetrated by a partner or ex-partner, predominantly in the domestic environment. In contrast, black women victims are relatively more victimized (compared to white women) in public settings, that is, within a social setting that leads this thesis to characterize their deaths as necropolitical feminicide. This difference in the deaths of black women and non-black women exposes a clear insufficiency of public policies to confront violence against women, looking at the intersectionality of gender, race, class, and territory.Numerosos estudios señalan el importante aumento de las muertes violentas de mujeres en Brasil en las últimas tres décadas. Los estudios sobre la violencia contra las mujeres han ganado espacio en el mundo académico brasileño, con la violencia doméstica y familiar como principal foco de atención. Estos estudios, que se han desarrollado en el contexto de la reflexión sobre el género en Brasil desde la década de 1970, han contribuido a la producción de políticas públicas específicas en el territorio brasileño, un proceso que ha contado con la participación de muchos investigadores que han ampliado la comprensión del fenómeno de la violencia contra las mujeres. Esta tesis pretende contribuir al debate sobre este hecho social indeleble, reproducido diariamente en Brasil, tomando los feminicidios como un indicador de la violencia contra las mujeres. La selección se produjo a través de la Ley de Acceso a la Información en el Archivo del Poder Judicial de Rio Grande do Sul, que dio lugar a una base de datos de 138 procesos judiciales del delito de homicidio perpetrado contra mujeres negras y no negras en el estado de Rio Grande do Sul, desde mediados de la década de 1950 hasta 2010. Destacamos las interseccionalidades de clase y raza, ya que, como indican las estadísticas, las mujeres negras se han convertido en las víctimas preferidas de las muertes. Para ello, utilizamos el concepto de "escenario social de la violencia", acuñado por Camacho y Guzmán (1997), para comprender las distintas situaciones, circunstancias y motivaciones de las muertes de mujeres, con un análisis comparativo entre víctimas de mujeres negras y no negras, para identificar la permanencia y los cambios del fenómeno en el tiempo. Como hallazgos de la investigación, verificamos que, en comparación con las mujeres negras, las mujeres no negras son más victimizadas en un escenario social de crimen relacionado con el feminicidio íntimo, perpetrado por una pareja o ex pareja, predominantemente en el ámbito doméstico. Por el contrario, las mujeres negras víctimas son relativamente más victimizadas (en comparación con las mujeres blancas) en entornos públicos, es decir, dentro de un escenario social que lleva a esta tesis a caracterizar sus muertes como feminicidio necrópolis. Esta diferencia en las muertes de mujeres negras y no negras expone una clara insuficiencia de las políticas públicas para enfrentar la violencia contra las mujeres, mirando la interseccionalidad de género, raza, clase y territorio.application/pdfporViolência de gêneroFeminicídioIntersetorialidadeMulher negraGender violenceFemicidesIntersectionalitiesBlack womenSocial settingsViolencia de géneroFeminicidioInterseccionalidadesMujeres negrasEscenarios sociales“Vidas matáveis”: feminicídio de mulheres negras e interseccionalidades de gênero, raça e classeinfo:eu-repo/semantics/publishedVersioninfo:eu-repo/semantics/doctoralThesisUniversidade Federal do Rio Grande do SulInstituto de Filosofia e Ciências HumanasPrograma de Pós-Graduação em SociologiaPorto Alegre, BR-RS2022doutoradoinfo:eu-repo/semantics/openAccessreponame:Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da UFRGSinstname:Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)instacron:UFRGSTEXT001161537.pdf.txt001161537.pdf.txtExtracted Texttext/plain406718http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/10183/254447/2/001161537.pdf.txtda5fcd08014282724f6150b17bbeb480MD52ORIGINAL001161537.pdfTexto completoapplication/pdf3055127http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/10183/254447/1/001161537.pdfa2504c887fb1b6254bf091c43bcf49f6MD5110183/2544472023-02-09 05:56:17.145253oai:www.lume.ufrgs.br:10183/254447Biblioteca Digital de Teses e Dissertaçõeshttps://lume.ufrgs.br/handle/10183/2PUBhttps://lume.ufrgs.br/oai/requestlume@ufrgs.br||lume@ufrgs.bropendoar:18532023-02-09T07:56:17Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)false
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